O resultado do primeiro turno das eleições de 2026, confirmou que o Brasil permanece profundamente polarizado política e ideologicamente. As eleições, do dia 4 de outubro, ocorreram em um clima absolutamente tranquilo e democrático em todo país. O resultado que saiu das urnas, divulgado cerca de 4 horas após o encerramento da votação, foi uma avassaladora vitória dos partidos de direita e de centro que são oposição ao atual governo. Desta vez, não houve nenhuma contestação à legitimidade das urnas eletrônicas. Para Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) avançaram para o segundo turno. Flávio com 47% dos votos válidos e Lula com 45%.
Aqui cabe uma observação: O Brasil tem 158,7 milhões de eleitores aptos a votar. No entanto 33,5 milhões NÃO comparecerem às urnas, o que corresponde a 21,1% do número de eleitores. O total de votos brancos e nulos foi de 6,0 milhões ou 3,8% do total de eleitores registrados. Portanto o total de abstenções mais os votos nulos e brancos é de 25%, ou seja 1 em cada 4 dos eleitores brasileiros optou por não votar em nenhuma opção apresentada para o mais importante cargo da república. As explicações dos analistas políticos giram em torno do desinteresse pela política, pela falta de opção da chamada terceira via, pelo cansaço da polarização, entre outras. No entanto, é extremamente preocupante que a incipiente democracia brasileira já seja desalentadora para boa parte da população.
O resultado, do ponto de vista político, comprova uma consolidação da polarização entre o bolsonarismo e o lulismo. A ida dos dois candidatos ao 2° turno mostra que nenhum dos lados conseguiu formar uma maioria nacional capaz de vencer ainda no 1° turno. Considerando os votos recebidos pelos candidatos em relação ao número de eleitores registrados, o resultado foi 35,4% para Bolsonaro, 34,0% para Lula e 31,6% para quem optou para os demais candidatos, anulou o voto ou decidiu não votar. Tudo indica que a corrida pela presidência continuará intensa, sem um resultado previsível, pois o desânimo com a política brasileira não parece que irá diminuir.
O próximo presidente, seja ele quem for, terá muitos desafios pela frente. Menciono apenas alguns:
Do ponto de vista econômico, necessariamente terá que fazer um ajuste fiscal, organizar as contas públicas, aumentar a arrecadação sem aumentar impostos, criar um ambiente financeiro que estimule investimentos na direção de fortalecer um crescimento sustentável da economia.
Outro ponto muito importante: o próximo presidente deverá enfrentar um cenário internacional bastante conflitivo, com disputas geopolíticas em várias partes do mundo, avanços tecnológicos acelerados e não disponível para todos, dificuldades de regular empresas de tecnologia, guerras que não terminam e uma competição econômica entre as duas maiores potências do planeta. Isto exigirá do Brasil um enorme e efetivo esforço diplomático e comercial.
Na área social, as desigualdades continuam marcantes no Brasil. O país não está dividido apenas por questões ideológicas, mas também por questões socioeconômicas e essa divisão se reflete na recente votação. Infelizmente este é um problema antigo, até agora sem uma solução viável.
O primeiro turno das eleições evidenciou que o país permanece com uma intensa disputa política. Seria desejável que as diferenças políticas se limitassem dentro dos ideais democráticos e interesses individuais não deveriam se sobrepor ao bem comum. A política deveria construir a governabilidade em um ambiente civilizado, evitando possíveis crises entre os poderes constituídos. Mais do que escolher um presidente, o segundo turno será uma decisão sobre qual versão de mundo, de país, de sociedade, os eleitores brasileiros desejam para o futuro.

Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.
*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo
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