O mercado que muitos pequenos negócios ainda ignoram – por Adriana Vasconcellos Soares

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Durante muito tempo, boa parte das estratégias de marketing concentrou seus esforços em conquistar consumidores mais jovens. Afinal, acreditava-se que inovação, consumo e crescimento estavam diretamente ligados às novas gerações. Mas os números mostram que essa lógica já não explica completamente o mercado brasileiro. Uma parcela cada vez mais ativa da economia é formada por pessoas com mais de 50 anos. Conhecida como “geração prateada” ou “economia prateada”, essa população reúne profissionais experientes, consumidores com maior poder aquisitivo e pessoas que permanecem economicamente ativas por muito mais tempo do que ocorria décadas atrás.

Dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que, somente em 2024, brasileiros entre 50 e 79 anos produziram cerca de R$ 89 bilhões por mês em renda do trabalho, o equivalente a 20% de toda a renda do trabalho do país. Além disso, essa parcela da população movimenta outros R$ 12 bilhões mensais provenientes de aposentadorias e pensões, ampliando significativamente sua capacidade de consumo.

Mais do que números, esse cenário revela uma mudança de comportamento. A ideia de que pessoas acima dos 50 anos estão encerrando a vida profissional já não reflete a realidade de uma parcela significativa da população. Muitos permanecem no mercado por escolha, ocupando cargos de liderança, atuando como consultores, empreendedores, professores e profissionais liberais. Outros iniciam uma segunda ou até uma terceira carreira, expressão utilizada para descrever profissionais que, após anos de experiência em uma área, decidem empreender ou seguir um novo caminho profissional. Há ainda quem permaneça trabalhando simplesmente porque deseja continuar produzindo, aprendendo e participando da vida econômica e social.

Ao mesmo tempo, trata-se de um público mais escolarizado, com maior expectativa de vida, mais autonomia financeira e disposição para investir em qualidade de vida, viagens, saúde, educação, tecnologia, lazer e experiências. Apesar disso, muitas pequenas empresas continuam direcionando praticamente toda sua comunicação para públicos mais jovens. Esse talvez seja um dos maiores erros estratégicos de posicionamento.

Quem conversa apenas com um perfil de consumidor pode deixar de enxergar um mercado altamente qualificado, fiel e disposto a consumir produtos e serviços que atendam suas necessidades reais.

Mas conquistar esse público não depende apenas de adaptar campanhas publicitárias, o maior desafio é construir confiança. É justamente nesse contexto que a comunicação estratégica e a assessoria de imprensa assumem um papel fundamental.

Consumidores mais maduros costumam valorizar reputação, credibilidade e histórico antes de tomar decisões. Eles pesquisam, comparam informações, procuram referências e tendem a confiar mais em empresas que demonstram autoridade no mercado.

Nesse contexto, entrevistas, reportagens, artigos assinados e presença recorrente na imprensa funcionam como importantes elementos de validação. Quando uma empresa aparece em veículos de comunicação explicando tendências, compartilhando conhecimento ou oferecendo orientações ao mercado, ela deixa de ser apenas mais uma opção comercial e passa a ser percebida como referência.

Esse movimento ganha ainda mais importância com o avanço da inteligência artificial. Ferramentas como Google AI Overviews, ChatGPT, Gemini e Perplexity passaram a utilizar conteúdos publicados em fontes confiáveis para construir respostas aos usuários. Isso significa que uma estratégia consistente de assessoria de imprensa fortalece não apenas a reputação perante as pessoas, mas também aumenta a presença digital em ambientes utilizados pelas inteligências artificiais.

Para pequenos negócios, essa pode ser uma oportunidade importante. Enquanto grandes empresas disputam investimentos elevados em mídia paga, negócios locais podem conquistar espaço produzindo conteúdo útil, compartilhando conhecimento especializado e construindo autoridade por meio da imprensa. Mais do que vender produtos, trata-se de construir relacionamento com um público que valoriza experiência, consistência e confiança.

O envelhecimento da população brasileira costuma ser apresentado como um desafio econômico. No entanto, especialistas defendem que ele também representa uma oportunidade de desenvolvimento, desde que empresas e governos saibam aproveitar o potencial produtivo e consumidor dessa geração.

Para quem atua com pequenos negócios, a mensagem é clara, talvez o próximo grande mercado para sua empresa não esteja nas novas gerações. Ele pode estar justamente entre consumidores que acumulam experiência, renda, tempo e disposição para continuar investindo em qualidade de vida. A diferença é que essas pessoas não procuram apenas preço. Elas procuram confiança. E a confiança continua sendo construída por meio de comunicação, reputação e autoridade.

A disputa não acontece apenas por visibilidade, ela acontece por confiança. E confiança continua sendo um dos ativos mais valiosos para qualquer negócio. No ambiente digital atual, ser encontrado é importante, mas ser reconhecido como uma fonte confiável pode fazer toda a diferença quando um cliente, um parceiro ou até mesmo uma inteligência artificial precisa escolher quem merece ser lembrado.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista, assessora de imprensa e consultora em comunicação estratégica, posicionamento de marca e construção de autoridade para pequenos e médios negócios. Há mais de 26 anos desenvolve estratégias para fortalecer a reputação, ampliar a visibilidade e posicionar empresas, produtos e especialistas como referência em seus segmentos. É sócia da Six Comunicação Integrada.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Por trás de um sorriso, uma tragédia social – por Celso Tracco

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Uma das características da espécie humana é sua capacidade de se autodestruir. Seja por poder, ganância, ambição ou simplesmente prazer, nós, humanos estamos sempre envolvidos em conflitos, sejam contra nossos semelhantes, contra o meio ambiente ou contra nós mesmos. Nesta última categoria, nos destruímos pelos chamados vícios pessoais: fumar, ingestão de álcool, alimentos ultra processados, jogos de azar legalizados, apenas para citar alguns vícios que são lícitos, ou seja, são legalmente acessíveis para a maioria da humanidade. Neste grupo encontramos as “Bets”, nova febre nacional, como outrora foi o “Jogo do bicho”, a Loteca, a Mega Sena e demais loterias administradas pela Caixa Econômica Federal. Sim o hábito de arriscar a sorte, de modo aleatório, bastante antigo no Brasil assim como no resto do mundo. Agora, porém, tem uma enorme diferença: a facilidade de se fazer as apostas online e, teoricamente, a pessoa apostar quanto ela quiser {sic}. Esta nova mania nacional que está sendo impulsionada por sorrisos cativantes de “influencers”, que conduzem as novas, coloridas, impactantes e atraentes campanhas publicitarias, traz em seu bojo uma gigantesca tragédia social que afeta e impacta milhões de famílias brasileiras.

A entrada para o vicio é sempre uma porta larga e convincentes discursos agradáveis: “venha se divertir”, “não custa nada, jogue se quiser e com moderação”, “sucesso e muito dinheiro, imediatamente”. A lógica dos cassinos e das “bets” se apoia na desesperança de quem vive com as contas apertadas, salários baixos, subemprego e dívidas permanentes. A aposta parece ser uma saída fácil para o “paraíso”, quando de fato é o caminho certo para o “inferno”. O apostador, pode até pensar que está no comando de suas ações, mas na verdade está preso a um esquema estatisticamente estruturado para fazê-lo perder.

O cenário atual é agravado pela normalização do jogo. Celebridades, comunicadores, locutores, artistas, jogadores de futebol, são contratados pelas “Bets”, para vender a felicidade, traduzida por muito dinheiro fácil e tudo aquilo que o dinheiro pode comprar. A publicidade está nas transmissões esportivas, nos patrocínios aos times de futebol, em qualquer site que se acesse na internet. A mensagem final quer mostrar que é moderno, normal, inteligente, divertido apostar, mas a realidade é outra: a sociedade vive uma epidemia de endividamento que as apostas ajudam a propagar. E quanto mais ela se espalha mais difícil fica enxergar os reais problemas. Num país, como o nosso, onde a desigualdade social é abissal, a discussão sobre as “Bets”, não deve ficar na área moralista, pois oferecer a possibilidade de se obter dinheiro fácil, sempre vai atrair quem não tem nada.

A discussão deve ser na área social. É sobre como uma legislação pode permitir legalmente que milhões de pessoas sejam seduzidas, e usadas, por um processo que lucra com sua desgraça. Como uma falsa esperança passa a ser uma ferramenta de exploração. Como uma visão de liberdade torna-se um longo período de escravidão, arruinando a vida de famílias inteiras. A desgraça das apostas está na vergonha da perda, na ansiedade de novas apostas para recuperar a perda, em contínua ciranda que termina na angústia de uma dívida impagável. Regulamentar não basta, proibir também não trará o efeito desejado. É preciso seriedade para discutir temas como: saúde mental, educação financeira, proibição de publicidade e patrocínios, responsabilidades das plataformas digitais, proteção dos economicamente mais vulneráveis. Os governos e a sociedade civil, precisam, urgentemente, encarar as “Bets” como um problema real e crescente. Caso contrário, a desgraça das “Bets” continuará crescendo, de maneira cada vez mais devastadora. Sem apostas, aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são d

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Como pequenos negócios podem ganhar autoridade em um mundo dominado pela inteligência artificial – por Adriana Vasconcellos Soares

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Durante muitos anos, a visibilidade de pequenas empresas dependia principalmente de publicidade, indicação de clientes e presença nas redes sociais. Hoje, a lógica da comunicação está mudando rapidamente. A inteligência artificial está transformando a forma como as pessoas pesquisam informações, escolhem fornecedores e tomam decisões de compra.

Nesse novo cenário, a assessoria de imprensa deixa de ser uma ferramenta utilizada apenas por grandes empresas e passa a ocupar um papel estratégico também para pequenos negócios. A mudança acontece porque a inteligência artificial alterou o caminho da informação.

Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude, Perplexity e os próprios resumos gerados pelo Google passaram a responder perguntas dos usuários antes mesmo que eles visitem um site. Quando alguém procura por um profissional, uma empresa ou uma solução para determinado problema, muitas vezes recebe uma resposta pronta, baseada em conteúdos considerados confiáveis pelos sistemas de inteligência artificial. E é justamente nesse ponto que a imprensa ganha relevância.

Credibilidade passa a valer mais do que alcance

As redes sociais continuam importantes, mas enfrentam um desafio crescente. O volume de conteúdo produzido diariamente é tão grande que conquistar atenção se tornou cada vez mais difícil. Além disso, alcance não significa necessariamente confiança. Uma publicação pode alcançar milhares de pessoas e ainda assim gerar pouco impacto na percepção do público. Já uma reportagem, uma entrevista ou um artigo publicado em um veículo de comunicação costuma carregar um elemento que nenhuma rede social consegue reproduzir integralmente, a credibilidade editorial.

Quando uma empresa é citada por um veículo de imprensa, ela passa por um processo de validação que fortalece sua reputação perante clientes, parceiros e mercado. Na era da inteligência artificial, esse reconhecimento ganha uma dimensão adicional, já que as IAs tendem a utilizar fontes consideradas confiáveis para construir respostas e recomendações. Isso significa que a presença em veículos de comunicação pode contribuir para aumentar a autoridade digital de uma marca.

Pequenas empresas também podem ser referência

Existe uma percepção equivocada de que assessoria de imprensa é um recurso exclusivo para grandes corporações. Na prática, pequenos negócios possuem algo extremamente valioso para a imprensa, que são histórias reais, conhecimento especializado e conexão direta com problemas que afetam a vida das pessoas.

Empresas familiares, profissionais liberais, clínicas, escritórios, consultorias e prestadores de serviço acumulam experiências que podem gerar pautas relevantes para veículos locais, regionais e até nacionais. O desafio não está na falta de conteúdo, mas na capacidade de transformar conhecimento em informação de interesse público.

É exatamente esse o papel da assessoria de imprensa.

Mais do que divulgar produtos ou serviços, ela identifica oportunidades de posicionamento, constrói narrativas relevantes e conecta especialistas aos temas que estão em discussão na sociedade.

Autoridade digital não se constrói apenas com algoritmos

Muitas empresas concentram seus esforços exclusivamente nas redes sociais. Embora essas plataformas sejam importantes, elas estão sujeitas a mudanças constantes de algoritmo, alcance e comportamento do usuário. Por isso, uma estratégia baseada apenas em redes sociais cria dependência de plataformas que a empresa não controla.

A assessoria de imprensa ajuda a diversificar essa presença.

Entrevistas, reportagens, artigos de opinião e participações em pautas jornalísticas geram ativos de reputação que permanecem disponíveis por muito mais tempo. Além disso, fortalecem a presença da marca em ambientes que podem ser utilizados como referência por buscadores e sistemas de inteligência artificial. Em outras palavras, a empresa deixa de depender apenas da própria comunicação e passa a contar também com reconhecimento externo.

A nova disputa é por confiança

A inteligência artificial está tornando a informação mais acessível, mas também está ampliando a necessidade de fontes confiáveis. Quanto maior o volume de conteúdo disponível, maior a importância da credibilidade. Nesse contexto, pequenas empresas que investem em reputação, relacionamento com a imprensa e construção de autoridade tendem a ganhar vantagem competitiva.

A disputa não acontece apenas por visibilidade, ela acontece por confiança. E confiança continua sendo um dos ativos mais valiosos para qualquer negócio. No ambiente digital atual, ser encontrado é importante, mas ser reconhecido como uma fonte confiável pode fazer toda a diferença quando um cliente, um parceiro ou até mesmo uma inteligência artificial precisa escolher quem merece ser lembrado.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista formada pela Universidade de Mogi das Cruzes e pós-graduada em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Atua desde 2000 no desenvolvimento de estratégias para divulgar empresas, produtos e serviços. É sócia da Six Comunicação Integrada, agência especializada em criar mecanismos de comunicação para fortalecer marcas, gerar novos negócios e construir reputação sólida nos meios de comunicação.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Relações perigosas. Para quem? – por Celso Tracco

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Para a população brasileira. Mesmo acostumada a ver contínuos escândalos financeiros de todos os tipos, fraudes e descaminhos com o dinheiro público, muitas vezes fruto de relações perigosas entre agentes públicos e entidades privadas, a população pagadora de impostos não para de se surpreender. O caso do Banco Master, que segue ganhando projeção nacional, mantém a lógica de tornar privado o que deveria ser público. Este caso vem batendo todos os recordes nessa prática de relações promiscuas entre agentes públicos e o banco privado. O monstruoso escândalo tem potencial, desde que devidamente investigado, de abalar as estruturas da República Brasileira. Já sabemos quem pagará a conta, mas o que poderia ser feito para, pelo menos, tentar evitar novos escândalos?

Primeiro, devemos nos perguntar, por que um banco privado teria tanto interesse em ter laços tão estreitos com autoridades e servidores públicos? Claro que aqui estamos falando de servidores que desempenham altos cargos na administração pública. Até agora, pelo que já saiu na imprensa, sabemos que o dono e principais dirigentes do Banco Master, mantinham estreitas ligações com membros e/ou com parentes do Poder Judiciário, do Poder Legislativo, do Poder Executivo, tanto em âmbito federal, como estadual e municipal, além de autarquias federais, como o Banco Central. Ou seja, a rede de influência dos administradores do Master era imensa. Será que ela se desfez após a liquidação do banco, e a prisão de seu principal acionista?

Devemos sempre ter em conta a máxima de que todos são inocentes até prova em contrário. Acusar alguém antes do já conhecido “trânsito e julgado” seria uma leviandade. O que tento expor neste artigo é a precariedade de controles das instituições públicas brasileiras. Não é de hoje, e sem distinções de governos, que entidades privadas se apropriam do bem público em benefício próprio e em detrimento do interesse coletivo. Esta prática, no mínimo, drena recursos para as reais necessidades da população mais carente da sociedade brasileira. O que transparece na percepção popular é que um banco com forte atuação em setores como crédito consignado, fundos de aposentadoria de servidores púbicos, agressiva venda de produtos financeiros como CDBs, qualquer proximidade com os gestores públicos, pode gerar conflitos de interesse. Cabe aqui a famosa frase atribuída a Júlio César em 62 a.C. quando exercia o cargo Pretor (magistrado e supremo juiz em Roma) “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. A frase continua sendo válida, após 2.000 anos, para qualquer cidadão ou cidadã que exerce cargo público.

Um ponto desastroso desta relação perigosa, é a falta de confiança nas instituições e em especial no sistema financeiro que perpassa para a população em geral. O mínimo que se espera é que haja transparência total em todas as transações envolvendo o sistema financeiro e órgãos públicos. A falta de transparência, como proteger sigilo bancário de investigados pode influenciar, negativamente, a opinião pública, o que seria desastroso. O uso do dinheiro dos impostos pelos órgãos públicos, deveria ser totalmente auditável, por empresas independentes e sem relações com poderes constituídos. Os resultados das auditorias deveriam ser conhecidos da população, e quem sabe, deste modo, se dificultaria que decisões políticas fossem manipuladas por decisões particulares e privadas.

A população não pode nem deve demonizar o sistema financeiro, evidentemente a economia do país não prospera sem ele, mas o que se espera é que os agentes públicos tenham real cuidado com o dinheiro público, afinal eles foram eleitos para serem servidores públicos e não para se servirem do dinheiro público. Aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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A metralhadora contra o lápis de cor: O racismo religioso e a crise de competência na segurança pública de São Paulo – por Reinaldo Monteiro

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O episódio ocorrido na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Antônio Bento, no Butantã, transcende o mero erro administrativo para se converter em um retrato fiel do racismo religioso institucionalizado e da profunda crise de compreensão sobre as competências das forças de segurança pública em São Paulo. Quando 12 policiais militares armados, incluindo um agente portando uma metralhadora, invadem uma unidade de ensino infantil para contestar um desenho de um orixá feito por uma criança de 4 anos, o Estado não está promovendo segurança; está exercendo uma violência institucional desproporcional e ideológica.

A gênese do conflito é um alerta sobre o uso do aparato estatal para fins privados. Um soldado da PM, agindo como pai, insurgiu-se contra uma atividade pedagógica baseada no livro “Ciranda de Aruanda”. Após coagir professores, ele acionou seus “pares” de corporação, transformando uma insatisfação pessoal em uma operação militar. O que se viu a seguir foi o Tenente Ronald Camacho agindo como um “árbitro pedagógico”, acusando a diretora de “impor ideologia” ao cumprir as Leis Federais 10.639/03 e 11.645/08, que obrigam o ensino da história e cultura afro-brasileira. Como bem pontuou o historiador Fábio Garcia, tratar conteúdo obrigatório como “doutrinação” revela um desconhecimento crasso da legislação e um profundo preconceito.

Sob a ótica do Conceito de Segurança Pública Básica, a atuação da Polícia Militar foi tecnicamente equivocada e juridicamente invasiva. A Segurança Pública Básica define a segurança como um direito social essencial, que deve ser prestado de forma próxima, preventiva e comunitária, prioritariamente no âmbito municipal. O foco deve ser a mediação de conflitos e a proteção da vida cotidiana, e não a repressão armada dentro de salas de aula de educação infantil.

A Constituição Federal, em seus artigos 30 e 144, §8º, é clara ao reservar aos municípios a organização, a prestação direta de serviços públicos de interesse local e a proteção de seus bens, serviços e instalações através das Guardas Municipais. Sendo a EMEI um equipamento municipal e o serviço de educação infantil uma competência local, a intervenção deveria, em tese, ter sido mediada pela Guarda Civil Municipal (GCM) de São Paulo, uma instituição estruturada, de caráter civil, uniformizada, qualificada e preparada para o policiamento comunitário e de proximidade integrante do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) do nosso país. A substituição do modelo preventivo municipal pelo modelo repressivo estadual resultou em um cenário de pânico para crianças e educadores.

As notas do Ministério da Igualdade Racial demonstram um diagnóstico sombrio: o racismo religioso operou como motor da ação policial. A criminalização de símbolos da mitologia Iorubá sob a mira de armas de grosso calibre envia uma mensagem perversa sobre o valor da identidade negra no ambiente escolar. O indiciamento do pai da aluna por intolerância religiosa pela Polícia Civil confirma que a escola agia dentro da legalidade, enquanto o agente do Estado delinquia.

É imperativo que a Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo e a Ouvidoria das Polícias ajam com rigor não apenas na punição do desvio de conduta individual, mas na revisão dos protocolos da “ronda escolar”. A segurança pública não pode ser convertida em “milícia privada” para satisfazer dogmas religiosos de agentes públicos que desconhecem a base africana da cultura brasileira.

A autonomia pedagógica das escolas deve ser blindada contra intervenções ideológicas armadas. São Paulo possui uma Guarda Municipal extremamente qualificada e preparada para a Segurança Pública Básica; ignorar essa competência constitucional para dar lugar ao arbítrio e ao preconceito é um retrocesso que o Estado Democrático de Direito não pode tolerar. O racismo, como crime que é, deve ser enfrentado com a força da lei, e não protegido pela força das armas.     

O que aconteceu na EMEI Antônio Bento, no Butantã, não pode ser tratado como um incidente banal, nem como simples “mal-entendido” entre responsáveis e escola. Se uma atividade pedagógica vinculada à valorização da cultura afro-brasileira foi respondida com a entrada de policiais militares armados numa escola municipal de educação infantil, então estamos diante de algo muito mais profundo e perturbador: a conversão do aparato estatal em instrumento de intimidação pedagógica, de constrangimento institucional e, em tese, de racismo religioso e quando a farda se presta a patrulhar o currículo escolar, a democracia entra em sala de aula algemada.

É preciso dizer com todas as letras: apresentar referências a Iansã, aos orixás e à herança africana no ambiente escolar não é catequese, não é desvio, não é abuso. É cumprimento da lei. As Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 impõem à escola brasileira o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena. Portanto, a reação que tenta converter esse conteúdo em “ideologia” ou “religião imposta” não afronta apenas professoras e gestoras; afronta a legislação educacional, esvazia a autonomia pedagógica e reforça o velho mecanismo brasileiro de suspeição sobre tudo aquilo que é negro, africano e ancestral. O nome disso não é zelo moral. O nome disso é intolerância religiosa com marca racial.

O caso se agrava porque não ocorreu em qualquer espaço: ocorreu numa escola municipal, isto é, num equipamento público local, vocacionado ao cuidado, à proteção e à formação de crianças pequenas. À luz do conceito de Segurança Pública Básica, conflitos dessa natureza exigem prevenção, proximidade, mediação e inteligência comunitária, não demonstração bélica de autoridade. Segurança pública séria não invade a infância para impor medo; protege a infância contra o medo. Se a resposta estatal para uma divergência pedagógica foi o acionamento de tropa armada, então não houve produção de segurança. Houve produção de trauma, constrangimento e desordem institucional.

Também é impossível ignorar a inadequação do arranjo institucional. A Constituição e a legislação infraconstitucional consolidaram as guardas municipais como agentes centrais da proteção de bens, serviços, instalações municipais e, da proteção sistêmica da população que utiliza esses bens serviços e instalações, sendo que,  o Supremo Tribunal Federal – STF já reconheceu a legitimidade de sua atuação em segurança urbana e policiamento ostensivo comunitário. São Paulo, ademais, dispõe de uma Guarda Civil Metropolitana estruturada e de robusta malha municipal de segurança urbana. Por isso, embora a Polícia Militar tenha papel constitucional na preservação da ordem pública, a sua mobilização para arbitrar, com peso de arma e militarismo em uma controvérsia interna de escola municipal, isso revela, no mínimo, uma intervenção equivocada, desproporcional, desnecessária e incompatível com a lógica de policiamento comunitário e de proximidade com a sociedade que deveria reger o atendimento de ocorrências sem notícia de violência grave em curso.

No fundo, o episódio expõe uma falência ética isntitucional. Quando uma criança vê a sua referência cultural ser tratada como caso de polícia, o Estado está ensinando uma lição cruel: a de que algumas identidades merecem respeito, enquanto outras merecem suspeita. Essa pedagogia do medo é especialmente devastadora para crianças negras, para educadoras comprometidas com a pluralidade e para toda a sociedade que ainda tenta romper com séculos de criminalização simbólica das religiões de matriz africana. Não se combate racismo com omissão vocabular. É preciso nomeá-lo, enfrentá-lo e responsabilizá-lo.

Por isso, a resposta pública adequada não pode ser corporativista, evasiva ou protocolar. O que se exige é apuração rigorosa, responsabilização individual de quem eventualmente usou a estrutura estatal para finalidades privadas ou discriminatórias, revisão de protocolos de atendimento em equipamentos educacionais, formação obrigatória em relações étnico-raciais e liberdade religiosa para agentes de segurança e respeito efetivo ao pacto federativo no âmbito da segurança pública que reserva ao município papel decisivo na garantia do direito fundamental e social da população à segurança, além da preservação da ordem pública, da incolumidade das pessoas e do patrimônio por meio da organização e prestação direta de serviços públicos de interesse local. Escola não é quartel. Professor não é inimigo. Iansã não é ameaça. A verdadeira ameaça é um Estado que, diante da diversidade, escolhe a intimidação em vez da cidadania.


Reinaldo Monteiro, GCM de Barueri-SP, Presidente da AGM BRASIL, Bacharel em Direito com especialização em Direito Constitucional e Administrativo, Consultor em Segurança Pública, Palestrante e ex-Diretor da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.


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Como aparecer nos resumos do Google e nos chats de IA – por Adriana Vasconcellos Soares

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A inteligência artificial mudou a forma como as pessoas pesquisam informações na internet. As buscas não estão diminuindo. Elas estão se expandindo. O que mudou foi o comportamento do usuário e a maneira como o conteúdo é consumido.

Apesar do crescimento de ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude e Perplexity, o Google continua sendo a principal porta de entrada para a informação digital. Embora a empresa não divulgue números detalhados por país, o Brasil é atualmente o segundo maior mercado de buscas do mundo, atrás apenas da Índia. Dados de mercado indicam que mais de 90% dos brasileiros conectados utilizam o buscador regularmente. Considerando que o Google processa mais de 16 bilhões de pesquisas por dia em todo o mundo, estima-se que os brasileiros realizem bilhões de buscas diariamente, impulsionados pela alta penetração da internet e pelo uso massivo de dispositivos móveis.

O que está mudando não é a importância das buscas, mas a forma como elas acontece.

Hoje, parte das respostas já aparece pronta nos resumos do Google, nos AI Overviews e em plataformas de inteligência artificial. Em vez de acessar vários links para encontrar uma informação, o usuário faz uma pergunta e recebe uma síntese pronta com recomendações, explicações, comparações e caminhos para tomada de decisão.

Segundo estudos recentes do mercado de SEO, os resumos gerados por IA aumentaram significativamente as impressões nas buscas, mas reduziram os cliques para os sites. Isso revela uma transformação importante. A visibilidade digital não depende mais apenas de gerar tráfego. Ela passa a depender também da capacidade de aparecer nas respostas produzidas pelas inteligências artificiais.

Nesse novo cenário, empresas, marcas e profissionais de diferentes segmentos precisam adaptar sua comunicação. A seguir, veja oito passos para aumentar as chances de aparecer nos resumos do Google e nos chats de IA.

1 – Entenda como as pessoas pesquisam

As buscas ficaram mais conversacionais e específicas. O usuário não pesquisa apenas “consultoria financeira” ou “advogado trabalhista”. Agora ele pergunta:

“Qual a melhor estratégia para reduzir custos na empresa?”

“Como escolher um advogado para revisão contratual?”

“Qual plataforma vale mais a pena para pequenas empresas?”

As inteligências artificiais trabalham exatamente em cima desse modelo de pergunta e resposta. Quanto mais sua comunicação refletir a linguagem real do público, maiores serão as chances de relevância.

2 – Transforme dúvidas reais em conteúdo

Um dos caminhos mais eficientes é usar as perguntas frequentes dos clientes como pauta de conteúdo. Toda empresa acumula dúvidas recorrentes no atendimento, nas reuniões comerciais e nas redes sociais. Essas perguntas mostram exatamente o que o mercado quer entender. Conteúdos que respondem questões práticas tendem a performar melhor tanto nos buscadores quanto nas respostas geradas por IA.

3 – Use linguagem simples e objetiva

Muitas marcas ainda produzem conteúdos excessivamente técnicos, longos e difíceis de interpretar. As inteligências artificiais priorizam clareza, contexto e objetividade. Isso significa que a linguagem precisa ser acessível sem perder profundidade. Em vez de tentar impressionar com termos complexos, o ideal é explicar de forma clara, direta e útil.

4 – Tenha presença em fontes confiáveis

As IAs tendem a priorizar informações provenientes de fontes recorrentes e consideradas confiáveis. Por isso, presença digital não significa apenas ter um site. Significa construir reputação em diferentes ambientes. Perfis completos em plataformas relevantes do setor, avaliações positivas, participação em eventos, entrevistas, entrevistas e artigos publicados na imprensa e presença institucional consistente ajudam a fortalecer a autoridade digital.

5 – Produza conteúdos focados em uma única resposta

Conteúdos muito amplos dificultam a interpretação e o reaproveitamento pelas inteligências artificiais. Materiais mais objetivos costumam funcionar melhor. Um artigo, vídeo ou postagem que responda claramente uma única dúvida tende a ter maior potencial de reutilização nos resumos automáticos e isso não significa superficialidade, significa organização da informação.

6 – Use vídeos como ferramenta de descoberta

YouTube, Instagram, TikTok e outras plataformas deixaram de ser apenas redes sociais. Elas também funcionam como mecanismos de busca. Muitas pessoas pesquisam diretamente nesses ambientes antes de tomar decisões.

Vídeos curtos, explicativos e educativos ajudam a ampliar a presença digital e aumentam as chances de descoberta tanto nas plataformas sociais quanto nos resultados do Google.

7 – Produza conteúdo para quem está decidindo

Grande parte das empresas ainda concentram produção apenas no topo do funil, focando conteúdos genéricos e informativos, mas as inteligências artificiais também valorizam materiais ligados à tomada de decisão. Comparativos, análises, perguntas frequentes, estudos de caso, provas sociais e demonstrações de resultados ajudam a construir confiança e relevância. Esses conteúdos influenciam diretamente a percepção do usuário antes da escolha final.

8 – Use a inteligência artificial como apoio estratégico

A IA pode ajudar na identificação de pautas, organização de ideias, simplificação da linguagem e estruturação de conteúdos, mas existe um ponto importante, que precisa ser considerado: a tecnologia apoia a produção, ela não substitui experiência, repertório, estratégia e conhecimento humano. O diferencial continua sendo a capacidade da marca de gerar contexto, credibilidade e interpretação qualificada.

O papel da assessoria de imprensa na era das respostas por IA

Nesse novo ambiente digital, a assessoria de imprensa passa a exercer uma função ainda mais estratégica. Mais do que gerar visibilidade em veículos de comunicação, ela ajuda a construir autoridade em fontes consideradas confiáveis por buscadores e sistemas de inteligência artificial.

Quando uma empresa aparece de forma consistente em entrevistas, reportagens, artigos de opinião e matérias especializadas, aumenta sua relevância não apenas para o público, mas também para os mecanismos que organizam a informação online. As inteligências artificiais tendem a priorizar conteúdos com lastro editorial, recorrência e credibilidade.

Isso significa que a presença na imprensa pode ampliar as chances de uma marca ser citada em respostas geradas por IA. A assessoria deixa de atuar apenas como uma ferramenta de relacionamento com jornalistas e passa a contribuir diretamente para o posicionamento digital e para a construção de reputação.

A nova lógica da visibilidade

O comportamento digital mudou, o usuário quer respostas rápidas, claras e contextualizadas. Nesse cenário, aparecer nos resumos do Google e nas respostas das inteligências artificiais se tornou parte estratégica da construção de autoridade. A disputa não acontece apenas pelo clique, ela acontece pela presença na resposta. Empresas que conseguem unir conteúdo útil, linguagem acessível, reputação, autoridade e consistência aumentam significativamente suas chances de serem lembradas antes mesmo da decisão de compra.

Hoje, ser encontrado continua importante, mas ser citado pelas inteligências artificiais passou a ter peso estratégico na construção de influência, credibilidade e relevância digital. A inteligência artificial está transformando a comunicação, mas não substitui a confiança construída por empresas, especialistas e veículos de comunicação.

Nesse contexto, produzir conteúdo de qualidade, manter presença consistente e investir em reputação tornou-se tão importante quanto aparecer nas primeiras posições do Google.

No novo ambiente digital, quem conquista espaço nas respostas conquista também espaço na decisão.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista formada pela Universidade de Mogi das Cruzes e pós-graduada em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Atua desde 2000 no desenvolvimento de estratégias para divulgar empresas, produtos e serviços. É sócia da Six Comunicação Integrada, agência especializada em criar mecanismos de comunicação para fortalecer marcas, gerar novos negócios e construir reputação sólida nos meios de comunicação.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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A escada se lava de cima para baixo – por Celso Tracco

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A expressão “a escada se lava de cima para baixo” sintetiza uma verdade universal sobre responsabilidade, atitude e comportamentos. Significa que qualquer processo de mudança, seja ele de estrutura empresarial, política ou familiar, começa pela liderança. Assim como a água escorre naturalmente do topo para os degraus inferiores, a cultura, os valores e as práticas sejam de uma entidade pública ou privada, são moldados, antes de tudo, por quem ocupa as posições do alto escalão.

No mundo dos negócios, quando uma determinada empresa precisa de uma real transformação para sobreviver, pois seu modelo de negócio está se deteriorando e ela não consegue, sozinha, se reerguer, em geral busca ajuda de alguma consultoria. E, geralmente, a “limpeza/ mudança” tem de começar pela diretoria e ir descendo até chegar à base, degrau por degrau. Muitas vezes, o gestor da empresa, que teve sucesso no passado, não percebe que o seu tempo passou, que seus métodos são ultrapassados, que o mundo mudou. Continua se agarrando a seu posto de maneira monolítica. O gesto pode até ser nobre, poético, heroico, mas é ineficaz e provavelmente egocêntrico. Pensa em si, mas não no bem comum de sua própria empresa.

No contexto social, essa máxima mostra que comportamentos éticos, respeito às leis e compromisso com o bem comum, precisam ser cultivados primeiramente por aqueles que detêm poder e influência. Quando líderes agem com transparência, justiça e coerência, criam um ambiente onde tais valores se tornam referência. Por outro lado, quando o topo se corrompe, o restante da estrutura tende a seguir o mesmo caminho, seja por conveniência, medo ou simples reprodução do exemplo recebido. Nas entidades públicas, este processo é bem evidente. A população observa seus governantes como modelos de conduta. Se eles demonstram responsabilidade, zelo pelo patrimônio coletivo e respeito às regras, fortalecem a confiança social e incentivam comportamentos socialmente elevados. Porém, quando eles caem no descrédito popular, fica muito difícil recuperarem a credibilidade.

No ambiente familiar e escolar, o princípio se repete. Pais, professores e responsáveis transmitem os primeiros parâmetros de comportamento e de relacionamentos humanos. Eles são as principais referências para aqueles que dependem de sua atuação. Caso os responsáveis agirem com honradez, respeito, de maneira integra, respeitando a coletividade, seus exemplos são seguidos e enaltecidos. Porém, quando o oposto ocorre, instala-se um ciclo de descrença e permissividade que contamina toda a escala de valores inerentes à formação das crianças e jovens. As atitudes dos responsáveis, mais do que suas palavras, moldam o caráter e as escolhas daqueles que ainda estão em formação. Não é possível exigir honestidade, disciplina, respeito ou empatia quando o exemplo oferecido contradiz esses valores. O antigo ditado “faça o que eu digo e não faça o que eu faço” está fora de moda, é como falar para as paredes, não tem aceitação nem repercussão.

Portanto, “lavar a escada de cima para baixo” significa reconhecer que toda transformação começa pelo exemplo daqueles que dirigem, comandam, ensinam, orientam e conduzem a vida de seus agregados. Não adianta cobrar ou impor mudanças e novas atitudes dos níveis inferiores, se nos níveis superiores nada muda, permanecendo com os descaminhos de sempre. A verdadeira liderança não se impõe; ela orienta, ensina, mostra novos rumos, inspira, é generosa e visivelmente enaltecida. Portanto, somente quando os degraus superiores assumem sua responsabilidade e uma atitude de mudança, a escada inteira pode, enfim, ficar limpa. Precisamos, sempre, cuidar de nossa “escada”. Aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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Foto de Meritt Thomas/Unsplash

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Homens podem chorar – por Dra. Vera Resende

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O modelo de educação dos meninos precisa ser atualizado. Entre as preocupações mais frequentes que chegam ao consultório está o desejo dos pais de compreender como educar melhor seus filhos, especialmente os meninos. Um dos primeiros passos é ajudá-los a reconhecer os próprios sentimentos e permitir que os expressem de forma saudável.

Muitos homens chegam à vida adulta sem saber identificar ou nomear o que sentem. Foram educados para esconder emoções e, por isso, têm dificuldade em lidar com elas. Quando se veem tomados por uma avalanche de sentimentos, não sabem como reagir nem o que fazer diante dessa experiência emocional.

O ambiente familiar é o espaço privilegiado para a vivência dos afetos. É nele que a criança aprende a expressar alegrias, medos, frustrações e tristezas. Também é no convívio familiar que aprende a lidar com a raiva, a decepção e os conflitos ao lado de pessoas que a acolhem e a orientam.

Pai e mãe devem abraçar, elogiar, brincar, contar histórias e demonstrar afeto aos filhos em todas as fases da vida. Não faz sentido manter a divisão tradicional em que a mãe oferece carinho e o pai exerce apenas a função disciplinadora. Ambos devem participar da educação afetiva dos filhos, compartilhando responsabilidades e atuando com respeito mútuo, sem disputar quem educa melhor ou quem exerce maior influência sobre a formação da criança.

Essa postura ajuda a evitar que meninos cresçam acreditando que expressar sentimentos é algo exclusivamente feminino. O exemplo dos pais tem muito mais força do que longos discursos. Quando o casal respeita os sentimentos um do outro, evita ridicularizações e acolhe emoções com naturalidade, transmite aos filhos uma forma mais saudável de compreender a vida emocional.

Também é importante criar espaços de diálogo. Demonstrar ao filho que ele continuará sendo amado mesmo quando errar pode ser uma das experiências mais importantes de sua formação. Acolher não significa aprovar comportamentos inadequados. Significa deixar claro que o erro não elimina o vínculo afetivo. A criança e o adolescente precisam saber que podem contar com o apoio emocional dos pais, mesmo diante de conflitos e dificuldades.

Muitos pais se queixam da falta de conexão com os filhos, especialmente durante a adolescência. É comum que os jovens busquem mais autonomia e privacidade nessa fase. No entanto, quando os pais percebem que a distância emocional está aumentando, é importante buscar formas criativas de aproximação. Um passeio simples, um sorvete, um filme assistido juntos ou uma conversa durante uma caminhada podem representar oportunidades valiosas para fortalecer o vínculo.

Mais do que grandes discursos, os filhos precisam perceber que seus pais continuam presentes. Pequenos gestos comunicam uma mensagem poderosa. “Estou aqui. Podemos seguir juntos.”

Superar o antigo tabu de que homens não choram deve fazer parte de uma nova proposta de educação masculina. Reprimir sentimentos e sentir vergonha das próprias emoções não fortalece ninguém. Pelo contrário, dificulta o autoconhecimento, empobrece os relacionamentos e favorece o isolamento emocional.

Homens podem chorar. E ensinar isso aos meninos talvez seja uma das formas mais importantes de ajudá-los a se tornarem adultos emocionalmente mais saudáveis.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Você domina sua profissão. Mas o mercado sabe disso? – por Adriana Vasconcellos Soares

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Durante muito tempo, ser um excelente profissional seria suficiente para conquistar reconhecimento no mercado. A lógica parecia simples. Quem tinha mais conhecimento, mais experiência e melhores resultados acabaria naturalmente sendo encontrado pelos clientes. Essa realidade mudou.

Hoje, milhares de profissionais altamente qualificados disputam atenção em um ambiente digital saturado de informações. O conhecimento continua sendo fundamental, mas deixou de ser suficiente. Se ele não for transformado em comunicação estratégica, corre o risco de permanecer invisível.

Esse desafio é especialmente evidente entre médicos, advogados, consultores, engenheiros, psicólogos e outros especialistas que dedicam grande parte do seu tempo ao exercício da profissão. Na maioria das vezes, o problema não é falta de conteúdo, pelo contrário, existe um enorme patrimônio intelectual acumulado em anos de estudo, experiência e prática profissional. A dificuldade está em transformar esse conhecimento em presença.

Muitos profissionais começam a produzir conteúdo com entusiasmo, publicam por algumas semanas, compartilham informações relevantes e tentam manter frequência nas redes sociais. Depois, a rotina se impõe, as demandas aumentam, os compromissos se acumulam e a produção perde consistência.

Outros conseguem manter uma frequência razoável, mas esbarram em outra frustração. Descobrem que alcance não significa autoridade, curtidas não representam necessariamente confiança e visualizações nem sempre se convertem em negócios. Esse é um dos principais equívocos da comunicação digital atual, confundir atividade com posicionamento.

Publicar muito não significa construir reputação, o que gera autoridade não é a quantidade de conteúdo, mas a capacidade de transformar conhecimento em narrativas relevantes, consistentes e alinhadas aos objetivos profissionais. A construção de autoridade exige estratégia e cada conteúdo precisa cumprir uma função. Alguns ajudam a educar o público, outros fortalecem credibilidade. Alguns esclarecem dúvidas recorrentes, outros demonstram experiência prática.

Quando existe planejamento, cada publicação passa a fazer parte de um sistema maior de posicionamento, além disso, cresce a importância da diversificação de canais. Muitos profissionais concentram toda sua comunicação em uma única rede social. O problema é que dependem integralmente dos algoritmos para serem vistos e uma mudança na plataforma pode reduzir drasticamente alcance, visibilidade e engajamento. Por isso, a construção de presença digital precisa ser mais ampla.

O LinkedIn fortalece posicionamento profissional. O Instagram amplia proximidade e relacionamento. O blog ou site próprio consolida autoridade e cria um patrimônio digital permanente, independente das mudanças nas redes sociais.

A inteligência artificial reforça ainda mais essa necessidade com ferramentas como ChatGPT, Gemini e Perplexity, que estão mudando a forma como as pessoas encontram informações e escolhem profissionais. Cada vez mais, sistemas de IA utilizam conteúdos publicados em diferentes fontes para construir respostas e recomendações, nesse contexto, a consistência da presença digital ganha um novo significado. Não basta apenas existir nas redes sociais, é preciso construir relevância em múltiplos canais.

O profissional que consegue transformar sua experiência em conteúdo estruturado aumenta suas chances de ser encontrado, lembrado e considerado quando uma decisão importante precisa ser tomada.

A boa notícia é que ninguém precisa produzir conteúdo todos os dias para construir autoridade. O que faz diferença é a qualidade do conteúdo, a estratégia, organização e coerência empregadas. Porque, no ambiente digital atual, o mercado não reconhece apenas quem sabe mais, ele reconhece quem consegue transformar conhecimento em presença, presença em autoridade e autoridade em confiança.

O Instagram mudou. Hoje, crescer na plataforma depende menos de “hackear algoritmo” e mais de construir relevância consistente. No fim, o algoritmo não recompensa perfis zerados. Ele recompensa conteúdo que faz sentido para pessoas reais.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista formada pela Universidade de Mogi das Cruzes e pós-graduada em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Atua desde 2000 no desenvolvimento de estratégias para divulgar empresas, produtos e serviços. É sócia da Six Comunicação Integrada, agência especializada em criar mecanismos de comunicação para fortalecer marcas, gerar novos negócios e construir reputação sólida nos meios de comunicação.


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Uma notícia boa, mas com ressalvas – por Celso Tracco

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O IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, é calculado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), uma agência oficial da ONU (Organização das Nações Unidas). Ele mede o desenvolvimento dos países em três áreas: Saúde, medida por expectativa de vida ao nascer; Educação, medida pela média de anos de estudo; e Renda, medida pelo PIB (Produto Interno Bruto) per capita. O IDH global é publicado anualmente; o IDHM (municipal) é publicado a cada 10 anos com base no censo feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

No IDHM divulgado em maio último,  o Brasil registou o índice de 0,805 (quanto mais próximo de 1, maior é o Índice de Desenvolvimento Humano do país), classificando nosso país no grau de um alto desenvolvimento humano. O índice anteriorfoi 0,786, que colocava o Brasil na 84 ª posição mundial entre as 193 nações pesquisadas. Sem dúvida esta é uma boa notícia e deve ser comemorada, mas, com ressalvas. O IDH é uma média dos dados coletados em todo o território nacional. E como média, ela encobre enormes desigualdades estruturais, relacionadas ao gênero, raça e região.

A educação continua sendo o elo mais fraco do desenvolvimento humano no Brasil. É sabido e reconhecido que a escolaridade nunca foi uma política de Estado. Assim, a qualidade do ensino básico segue sendo baixa, a formação dos professores é fraca e muito desigual por região, basta pesquisar quanto ganha um professor e quanto ganha um vereador de qualquer cidade brasileira. A desproporção é chocante. A alfabetização plena ainda está longe de ser alcançada. Oficialmente ainda temos em torno de 7% da população acima de 15 anos analfabeta. Sendo que a taxa de analfabetismo entre a população negra é o dobro da registrada entre a população branca, quer seja entre os totalmente analfabetos como entre os analfabetos funcionais. O Brasil melhora no indicador porque mais alunos passam mais anos na escola, mas não necessariamente têm um ensino de qualidade.

Na saúde os brasileiros estão vivendo mais, apesar do SUS, Sistema Único de Saúde, sofrer inúmeros e contínuos cortes em seus orçamentos. A fila para exames, consultas transplantes, são notícias toda a semana, mais uma vez evidenciando a profunda desigualdade social que vive nossa sociedade. Quem pode pagar tem uma das melhores medicina do mundo, mas a imensa maioria da população tem de se submeter a um tratamento que beira a desumanidade. Tomando, como exemplo, o índice de mortalidade infantil, o índice nacional está em torno de 12,6 óbitos por 1.000 nascidos vivos. Os índices regionais são: Norte 16 óbitos por mil; no Nordeste 13,8; no Centro Oeste 12,8; no Sudeste 11,7 e no Sul 10,4. Ou seja, o índice na região Norte é 60% maior do que no Sul.

Na renda o crescimento é lento e mal distribuído, ainda que o aumento do IDH também reflita uma melhora na renda per capita. Mas isso ocorre em um contexto de estagnação econômica prolongada, informalidade elevada, baixa produtividade, concentração de renda entre os mais ricos. Além disso, é notória a desigualdade de renda entre homens e mulheres, e entre brancos e negros. O país cresce pouco, e o crescimento não chega a todos. Em termos de distribuição de renda continuamos a ser um dos dez países mais desiguais do mundo.

Contudo, o IDH de 0,805 merece aplauso. Ele mostra que o Brasil tem potencial e capacidade de avançar, mas também revela que o progresso é lento e desigual. O desafio é garantir que o desenvolvimento seja sentido por todos, e não apenas registrado em relatórios internacionais.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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Foto: Rovena Rosa/Ag. Brasil

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