Ultimamente, temos nos escandalizado com denúncias de violência contra crianças, especialmente pela exposição abusiva e sexualizada delas. Diversos segmentos da sociedade manifestaram indignação, e autoridades perceberam a necessidade de criar leis que aumentem a proteção à infância. Seria ideal supor que todo adulto tivesse alguma responsabilidade pela criança que estivesse ao alcance de seu campo de visão, independentemente de laços de parentesco. Talvez assim a omissão fosse banida e muitas situações de abandono, violência e negligência pudessem ser evitadas.
A percepção de uma infância consumidora e já articulada ao mundo adulto pode aumentar sua vulnerabilidade, pois retira a criança do lugar em que antes era vista como símbolo de despreocupação e brincadeiras. O lúdico representava um dos mais sagrados direitos da infância, permitindo explorar a fantasia, extrair informações do mundo exterior e preparar-se para as etapas futuras da vida.
Atualmente, é comum que crianças não tenham tempo nem espaço para brincar. Suas agendas estão superlotadas de atividades, voltadas para um preparo precoce para o futuro, com a ilusão de protegê-las da violência das ruas. No entanto, acabam privadas da experiência única de conquistar autonomia, já que seu tempo permanece subordinado a horários e atividades impostos por outras pessoas, associados a compromissos, e não por elas mesmas.
Quando lhes sobra algum tempo livre, ele é frequentemente preenchido por jogos eletrônicos e redes sociais. Nesse espaço, a criança descobre precocemente o supérfluo e o integra em sua experiência, de tal modo que passa a fazer tanta falta quanto o essencial.
Assim, consolida-se um novo conceito que tolera um silencioso processo de adultização, que rouba a infância em nome de uma responsabilidade precoce. É preciso ter cuidado com o desejo de acelerar o desenvolvimento infantil, suprimindo oportunidades de fantasiar, brincar, criar e imaginar, na ilusão de forçar o crescimento e “colocar para frente” etapas que deveriam ser vividas no tempo certo.

Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.
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