Descanso, lazer e saúde mental

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As discussões sobre a escala 6 x 1 levantaram questões importantes sobre o direito do ser humano de fazer uso do próprio tempo. Uma das pessoas que se posicionaram contra o direito ao descanso afirmou que esse direito se justificaria para as pessoas de maior renda, porque elas viajam nos dias de folga. Já as pessoas de baixo poder aquisitivo não deveria ter um dia a mais de descanso na semana porque, por não disporem de recursos para viajar, não teriam o que fazer com o tempo livre. Infelizmente, as redes sociais também dão espaço a esse tipo de conteúdo. Mas isso não nos impede de pensar.

Esse tipo de afirmação desconsidera que o lazer e o descanso integram o conjunto das necessidades humanas essenciais à saúde física e mental. Não são privilégios de uma classe social, pois todos necessitamos de abrigo, água, alimentação, sexo, lazer e repouso.

Inúmeras atividades, nem sempre dispendiosas, podem preencher o tempo de descanso, desde atividades culturais, esportivas e familiares até o simples ato de se permitir não fazer nada. Ler um livro, ver um filme, frequentar parques, cinemas e exposições, ir à academia, fazer exercícios ao ar livre e ter contato com a natureza são algumas possibilidades que contribuem para restaurar a saúde emocional, recuperar as forças e tornar a pessoa mais criativa e produtiva.

O domínio sobre o tempo do trabalhador pode ter uma vertente escravista, que mantinha ocupados homens, mulheres e crianças escravizados, impedindo-os de interagir com seus pares e mantendo-os afastados de qualquer forma de lazer ou diversão. Nessas condições, eles não se sentiam, nem eram, donos da própria vida. Impedidos de olhar para si mesmos e para os outros, eram privados da dimensão humana que permite refletir sobre a própria existência e sobre a vida em sociedade.

Sêneca, no livro Sobre a brevidade da vida, afirma que ninguém, em sã consciência, permite que outros invadam e roubem seus bens materiais, seu patrimônio. Em contrapartida, seu tempo, valor único que justificaria a avareza, é distribuído entre muitos e retirado de sua própria existência. Embora o filósofo se refira, nesse texto, aos excessos dos prazeres que encurtam a vida, faço aqui um destaque: o trabalho exaustivo também rouba a existência.

Fazemos campanhas para incentivar os cuidados com a saúde sem que a sociedade ofereça condições para a efetiva promoção da saúde mental. Desfrutar a vida aumenta a vontade de viver. Não há nada de errado com o ócio, tão desejado por todos. Quando ele falta, a pessoa passa a sonhar com a possibilidade de usufruir desse tempo. A pausa serve não apenas para descansar, mas também para refletir, recuperar as forças e, inclusive, tornar a pessoa mais produtiva.

Uma multidão submetida a jornadas exaustivas de trabalho fica ansiosa, perde a capacidade de se divertir, deixa de se interessar pelo próximo e compromete sua capacidade de sentir.

Viajar não é a única forma de lazer ou de aproveitar o tempo livre. A convivência familiar também pode ser uma fonte de prazer e bem-estar. Ouvir as pessoas com quem convivemos, trocar experiências, planejar a aquisição de um bem, organizar as férias da família e acompanhar a vida escolar dos filhos são experiências restauradoras, capazes de modificar a maneira como as pessoas percebem a si mesmas e seu grupo familiar.

A escala 5 x 2 não resolverá todos os problemas humanos da nossa sociedade, mas certamente poderá melhorar a qualidade dos relacionamentos.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Do mundo infantil para o universo feminino

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A mãe de uma menina se diz preocupada com alguns hábitos de sua filha, diante dos quais se sente impotente por não conseguir modificá-los. Considera-os uma evolução precoce da vaidade feminina, pois a garota se mostra “fixada” em marcas de produtos caros para pele, cabelo e unhas, prefere escolher pessoalmente suas roupas e revela preocupação excessiva com seu visual ao sair com os pais, parentes ou amigas. A menina prefere passear nos shoppings a atividades ao ar livre e frequenta salões de beleza para fazer “luzes” e esmaltar as unhas. Recentemente, provocou uma crise em seu aniversário porque desejava que a comemoração fosse realizada em um spa, tal como a colega da escola havia feito. Idade da criança: 10 anos.

Este episódio convida a refletir sobre, pelo menos, três temas que não se excluem mutuamente, porque estão interligados pela questão da educação de limites e liberdade: o lugar da infância na sociedade e a perda da autoridade parental diante das dificuldades para impor limites.

A cultura consumista sempre estimulou a precocidade da vaidade feminina. Cabe à família proteger seus filhos de um processo de adultização que se inicia de forma inocente, mas pode contribuir para estratégias de erotização da imagem.

A velocidade com a qual se difundem as informações promove transformações sociais que talvez nos façam esquecer que o desenvolvimento humano requer respeito a etapas sucessivas e preciosas, cuja ultrapassagem pode antecipar a instauração de atitudes e condutas, com prejuízo ao desenvolvimento da personalidade.

Para viver em sociedade, é necessário aprender a adiar ou sacrificar prazeres imediatos e renunciar a impulsos instantâneos. Promover essa educação não é tarefa fácil na sociedade moderna e requer o exercício da autoridade parental.

Ao retroceder no tempo, esta mãe resgata sua própria infância e seus hábitos aos 10 anos. Ela recorda que só brincava, estudava e cuidava de sua higiene corporal, vestia-se e alimentava-se de acordo com a orientação materna. Indaguei sobre eventuais atitudes de sua mãe caso exibisse os mesmos comportamentos de sua filha hoje. Ela foi categórica: jamais sua mãe concordaria.

Neste ponto, questiono: o que mudou? Há um tênue limite entre vaidade infantil e adultização, cabe aos pais proteger e orientar seus filhos


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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As pessoas envelhecem, não viram crianças

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Abra a mãozinha, levante o bracinho, calce o sapatinho, tome a sopinha… Essa fala infantilizada, quando dirigida às crianças, sugere que é possível reduzir o tamanho do mundo para que ele caiba nelas. É artificial, não demonstra carinho e não contribui para o desenvolvimento infantil. De forma equivocada, a mesma fórmula é utilizada, com muita frequência, na comunicação com pessoas com mais de sessenta anos.

Esse comportamento é sustentado pela crença de que, ao envelhecer, as pessoas voltam a ser crianças. Esse pensamento, ironicamente, esconde o preconceito em relação a essa fase da vida.

A espécie humana, responsável por guerras, massacres e assassinatos em massa, além do extermínio de outras espécies e de constantes agressões à natureza, esforça-se para esconder e controlar sua principal característica. Ao nascer, é a mais frágil e desamparada entre todas as espécies do reino animal.

Vem ao mundo desprovida dos recursos mínimos para sobreviver em seu habitat e depende integralmente de outro ser humano até alcançar a vida adulta. Cria uma sociedade tão complexa que dificulta a conquista da autonomia e retarda, cada vez mais, a entrada de seus filhos na vida social responsável, enquanto observa outras espécies adquirirem, naturalmente, as habilidades necessárias para sobreviver, desde que não sejam abatidas pelo próprio ser humano.

Incapazes de contemplar a natureza e o desenvolvimento dos próprios filhos, muitos se deparam com o envelhecimento de pais, avós e tios. Percebem que a permanência dessas pessoas na sociedade complexa que construíram pode ficar comprometida. Habilidades e competências desenvolvidas na juventude podem deixar de estar disponíveis em razão das fragilidades adquiridas ao longo da vida. Tais fragilidades não infantilizam ninguém. Não existe uma volta à infância. As necessidades de abrigo, cuidado e proteção são próprias da condição humana. Talvez não fossem tratadas como exceção se a sociedade, em vez de apenas complexa, fosse também mais humana, respeitosa e igualitária.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Muitas felicidades, muitos anos de vida – por Dra. Vera Resende

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Quantas vezes ouvimos essa frase nas comemorações de aniversário? O que ela revela? O que sugere?

Não é difícil captar a alegria com a qual se deseja que os aniversariantes possam conviver com quem amam durante muitos anos, para que essa data se repita inúmeras vezes. Mas qual é a verdade contida nessa ideia? Será que as pessoas desejam que a existência se prolongue com a mesma força e vigor dos primeiros anos de vida?

Tomando como referência algumas comunicações na internet, a sensação é a de que há um enorme fosso entre a forma de perceber e abordar pessoas consideradas idosas e as expectativas dessas pessoas. O resultado é uma comunicação falha, que gera conflitos e sofrimentos evitáveis.

Não é possível estigmatizar as pessoas por causa da idade. De qual idoso estamos falando? A quem nos referimos?

Em um depoimento, uma jovem diz que seu avô se tornou uma pessoa amarga e reclamona. Ocorre-me perguntar como era esse avô antes de envelhecer. Pode ser que a neta tenha fixado na memória o avô de sua infância. Naquela época, ambos viviam ciclos diferentes da vida e interagiam com sentimentos, interesses e expectativas distintos. Quais foram as perdas do avô enquanto a neta crescia e se desenvolvia? Em que oportunidades houve trocas de experiências? Eles puderam falar sobre sentimentos, sonhos e receios?

Lancei a questão da comunicação com idosos em uma plataforma de inteligência artificial e obtive um manual cuja leitura leva a pensar que existe apenas um tipo de idoso. Um idoso com dificuldades para ouvir, lidar com a tecnologia, participar da vida social, ler, entre tantas outras limitações. Essa visão não leva em conta diferentes histórias de vida, experiências acumuladas e habilidades preservadas.

A velhice é apenas uma fase da vida que começou na infância. A evolução dos bebês nos ensina que cada aquisição de habilidades e aptidões ocorre em momentos diferentes, ainda que entre crianças da mesma faixa etária. Uns começam a andar antes de falar. Outros fazem o contrário, começam a falar e mais tarde desenvolvem a marcha.

No envelhecimento, não se pode pressupor que todos percam aptidões e habilidades de maneira padronizada apenas porque atingiram determinada faixa etária. É preciso considerar a história de cada pessoa, sua cultura, sua saúde física e emocional, as oportunidades que teve para se desenvolver, suas conexões sociais e profissionais e, enfim, os múltiplos fatores que tornam cada indivíduo único.

É bem provável que a irritabilidade mencionada pela neta, ao se referir ao avô, seja uma resposta ao sentimento de ser tratado como se seu “prazo de validade” estivesse vencido e de ser deixado de fora dos programas familiares. A exclusão é uma questão séria para quem passou a vida pensando, planejando e incluindo os filhos em suas preocupações.

Sentir-se inútil e descartado pode apagar o brilho da existência de pessoas que sonharam em aproveitar a companhia daqueles que amam e, justamente por eles, acabam sendo deixadas de lado. Na maturidade, muitas pessoas encontram mais dificuldades para construir novos laços de amizade. O abandono e a solidão sugerem que os votos de “muitos anos de vida”, ouvidos durante toda a existência, pareciam valer apenas para os anos da juventude, como se a velhice não coubesse nos sonhos de quem acredita que permanecerá jovem para sempre.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Homens podem chorar – por Dra. Vera Resende

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O modelo de educação dos meninos precisa ser atualizado. Entre as preocupações mais frequentes que chegam ao consultório está o desejo dos pais de compreender como educar melhor seus filhos, especialmente os meninos. Um dos primeiros passos é ajudá-los a reconhecer os próprios sentimentos e permitir que os expressem de forma saudável.

Muitos homens chegam à vida adulta sem saber identificar ou nomear o que sentem. Foram educados para esconder emoções e, por isso, têm dificuldade em lidar com elas. Quando se veem tomados por uma avalanche de sentimentos, não sabem como reagir nem o que fazer diante dessa experiência emocional.

O ambiente familiar é o espaço privilegiado para a vivência dos afetos. É nele que a criança aprende a expressar alegrias, medos, frustrações e tristezas. Também é no convívio familiar que aprende a lidar com a raiva, a decepção e os conflitos ao lado de pessoas que a acolhem e a orientam.

Pai e mãe devem abraçar, elogiar, brincar, contar histórias e demonstrar afeto aos filhos em todas as fases da vida. Não faz sentido manter a divisão tradicional em que a mãe oferece carinho e o pai exerce apenas a função disciplinadora. Ambos devem participar da educação afetiva dos filhos, compartilhando responsabilidades e atuando com respeito mútuo, sem disputar quem educa melhor ou quem exerce maior influência sobre a formação da criança.

Essa postura ajuda a evitar que meninos cresçam acreditando que expressar sentimentos é algo exclusivamente feminino. O exemplo dos pais tem muito mais força do que longos discursos. Quando o casal respeita os sentimentos um do outro, evita ridicularizações e acolhe emoções com naturalidade, transmite aos filhos uma forma mais saudável de compreender a vida emocional.

Também é importante criar espaços de diálogo. Demonstrar ao filho que ele continuará sendo amado mesmo quando errar pode ser uma das experiências mais importantes de sua formação. Acolher não significa aprovar comportamentos inadequados. Significa deixar claro que o erro não elimina o vínculo afetivo. A criança e o adolescente precisam saber que podem contar com o apoio emocional dos pais, mesmo diante de conflitos e dificuldades.

Muitos pais se queixam da falta de conexão com os filhos, especialmente durante a adolescência. É comum que os jovens busquem mais autonomia e privacidade nessa fase. No entanto, quando os pais percebem que a distância emocional está aumentando, é importante buscar formas criativas de aproximação. Um passeio simples, um sorvete, um filme assistido juntos ou uma conversa durante uma caminhada podem representar oportunidades valiosas para fortalecer o vínculo.

Mais do que grandes discursos, os filhos precisam perceber que seus pais continuam presentes. Pequenos gestos comunicam uma mensagem poderosa. “Estou aqui. Podemos seguir juntos.”

Superar o antigo tabu de que homens não choram deve fazer parte de uma nova proposta de educação masculina. Reprimir sentimentos e sentir vergonha das próprias emoções não fortalece ninguém. Pelo contrário, dificulta o autoconhecimento, empobrece os relacionamentos e favorece o isolamento emocional.

Homens podem chorar. E ensinar isso aos meninos talvez seja uma das formas mais importantes de ajudá-los a se tornarem adultos emocionalmente mais saudáveis.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Envelhecer em uma sociedade que repudia a velhice – por Dra. Vera Resende

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É desconfortável perceber que ainda existem pessoas que consideram negativa a presença de instituições destinadas ao acolhimento e cuidado de idosos em suas proximidades. Mais preocupante ainda é constatar que algumas autoridades acabam legitimando atitudes discriminatórias como essa.

A velhice não é doença. É uma etapa natural da existência humana, cuja trajetória começa no momento do nascimento. Envelhecer traz consigo experiências diversas, como serenidade, memória afetiva e amadurecimento, mas também perdas, medos e, muitas vezes, solidão. Essas questões podem se tornar ainda mais dolorosas quando o ambiente ao redor é hostil, indiferente ou negligente.

A correria da juventude faz com que muitas pessoas esqueçam que o tempo passa rapidamente. Até que, em determinado momento, percebem que o corpo já não responde com a mesma agilidade e que algumas habilidades necessárias à rotina começam a exigir mais esforço.

Os estudos em Psicogerontologia, também conhecida como Psicologia Evolutiva da Velhice, ganharam força a partir da década de 1960, especialmente em razão do aumento da expectativa de vida após a Segunda Guerra Mundial. Entre os principais desafios enfrentados pela população idosa estão a perda da atividade profissional, o enfraquecimento físico, doenças crônicas, alterações cognitivas, redução das atividades prazerosas e o medo da morte. São experiências humanas inevitáveis para aqueles que alcançam a longevidade.

Diante dessa realidade, torna-se indispensável investir na formação de profissionais preparados e na criação de políticas públicas voltadas ao cuidado dos idosos. O objetivo deve ser garantir melhor qualidade de vida tanto para eles quanto para suas famílias, favorecendo um envelhecimento mais digno e acolhido dentro das próprias comunidades.

Também é necessária uma reflexão sobre a ética do cuidado em uma sociedade marcada pelo individualismo, pela competitividade e pelo preconceito. Falta educação emocional e convivência mais respeitosa para que pessoas impacientes e agressivas aprendam a cuidar umas das outras e, consequentemente, estejam mais preparadas para lidar com as demandas da velhice.

O contexto atual de comunicação acelerada, pouca presença afetiva, mensagens curtas e respostas rápidas não pode servir de justificativa para a intolerância e a falta de respeito. Muito menos contra aqueles que chegaram antes de nós e contribuíram para a construção da sociedade em que vivemos.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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A criança que a família vê – por Dra. Vera Resende

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A infância marca um processo por meio do qual o ser humano percorre diferentes fases de crescimento e maturação biopsicossocial. É nesse período que a criança, sob os cuidados da família, se introduz na cultura, assimila códigos sociais, constrói vínculos e desenvolve sua capacidade de se relacionar com o outro. Durante esse percurso, muitas crianças apresentam comportamentos considerados desafiadores enquanto aprendem os limites do que é aceitável. Alterações no desenvolvimento psíquico podem surgir quando há rupturas na transmissão desses códigos culturais pelos adultos ou dificuldades em sua assimilação pela criança.

Essas questões alertam para o risco de se interpretar toda dificuldade infantil como incapacidade da família ou como sinal imediato de anormalidade. Muitas vezes, pais e responsáveis procuram confirmar padrões de normalidade para aliviar suas próprias angústias diante do comportamento dos filhos. Quando observamos uma criança por meio do discurso de terceiros, como pais e professores, percebemos que os relatos frequentemente estão atravessados por expectativas, desejos e frustrações dos adultos. Nesse contexto, a criança pode acabar expressando conflitos familiares por meio de sintomas emocionais ou comportamentais.

As crianças possuem recursos internos para lidar com suas próprias preocupações. No entanto, não devem ser responsabilizadas pelas angústias emocionais dos adultos. Quando os pais dificultam a comunicação de forma rígida, excessivamente crítica ou punitiva, a criança pode recorrer a sintomas físicos como forma de chamar atenção ou estabelecer contato. Em alguns casos, adoecer passa a representar uma maneira de obter cuidado diante de um ambiente emocionalmente inacessível.

Os conflitos psíquicos fazem parte do desenvolvimento humano. Eles surgem da tensão entre as necessidades internas e as exigências do ambiente e acompanham a vida emocional desde os primeiros anos. Quando não encontram espaço para elaboração, não desaparecem. Permanecem em níveis profundos da vida psíquica, mesmo que suas manifestações mais evidentes sejam negadas ou reprimidas. Alguns desses conflitos têm origem na qualidade das relações estabelecidas com os adultos. Outros decorrem da própria etapa do desenvolvimento em que a criança se encontra. Muitos tendem a ser superados naturalmente, desde que não sejam excessivamente valorizados ou cristalizados.

Independentemente da origem do conflito, compreender as circunstâncias em que ele surge e os sentimentos envolvidos permite reduzir seus impactos emocionais. Esse olhar exige que o terapeuta também considere os conflitos do próprio adulto, que frequentemente revive aspectos de sua infância ao se relacionar com a criança. Muitos pais temem lidar com sentimentos ambivalentes, como amor e irritação coexistindo ao mesmo tempo. Na tentativa de evitar frustrações ou conflitos, acabam renunciando à função parental e passam a ocupar apenas o lugar de amigos ou companheiros mais velhos.

É possível pensar em ações preventivas voltadas ao desenvolvimento infantil, mas não existe controle absoluto sobre as relações humanas. Pais e filhos se relacionam de forma espontânea e é justamente essa espontaneidade que sustenta vínculos autênticos. A prevenção deve estar relacionada à remoção de obstáculos ao crescimento emocional saudável. Toda intervenção terapêutica, educativa ou pedagógica na infância pode funcionar como medida preventiva quando favorece o desenvolvimento emocional da criança.

Pais amorosos e emocionalmente disponíveis conseguem estabelecer relações baseadas em respeito, acolhimento e limites consistentes. Por isso, é fundamental distinguir dificuldades próprias do desenvolvimento infantil daqueles quadros que assumem características persistentes e patológicas, exigindo acompanhamento psicoterapêutico.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Não se culpe por não celebrar o Dia das Mães – por Dra. Vera Resende

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Chegamos a maio e, com ele, mais uma data comemorativa que costuma devolver muitas pessoas aos seus dilemas. Celebrar ou não o Dia das Mães pode ser algo inquestionável para a maioria, mas, para outras, essa data é atravessada por dor. Nem sempre isso acontece por perda. Em muitos casos, vem do reconhecimento de que a pessoa que as colocou no mundo não é merecedora de homenagens. Por isso, surgem a culpa e os sentimentos ambíguos. De um lado, a obrigação de amar a mãe idealizada. De outro, a incerteza provocada pela raiva e pelo ressentimento.

A maternidade não cura distúrbios emocionais, nem transtornos de personalidade ou questões de caráter. Pessoas com sofrimento psíquico ou imaturidade emocional, quando não cuidam da própria saúde mental, podem perceber o agravamento desses aspectos após terem filhos.

Muitas mulheres se tornaram mães sem desejar, seja por pressão social, seja por falta de escolha. Em alguns casos, acabam descarregando suas frustrações nos filhos. A diversidade de perfis maternos rompe a ideia de que toda mulher é incapaz de cometer injustiças. A tendência de enxergar os filhos como extensão de si mesmas pode limitar o desenvolvimento e a autonomia deles. Assim, tornam-se controladoras e manipuladoras, gerando sofrimento.

Há também quem utilize a maternidade como instrumento para atender aos próprios interesses. Nesses casos, constroem narrativas distorcidas, recorrem à chantagem, culpam os filhos por erros que não lhes pertencem e desvalorizam conquistas quando eles buscam autonomia. Em situações mais graves, podem recorrer a abusos verbais ou físicos para impor autoridade, justificando comportamentos apenas pelo papel materno.

Outros perfis incluem mães que promovem abandono emocional, priorizando vícios ou interesses pessoais, e aquelas que competem com os próprios filhos, rivalizando com sua juventude ou sucesso. Esse tipo de dinâmica cria ambientes de sabotagem e invalidação.

Trata-se de um tema sensível. O tabu social em torno da maternidade sustenta a ideia de que toda mãe é sagrada, colocando todas sob uma mesma imagem de devoção. Com isso, filhos que se afastam costumam ser rotulados como ingratos, enquanto suas histórias de dor são desconsideradas. No entanto, mulheres têm falhas humanas que precisam ser reconhecidas, não negadas. Esse reconhecimento é parte do amadurecimento emocional.

Filhos e filhas têm o direito de não comemorar o Dia das Mães sem carregar culpa. Também têm o direito de estabelecer limites diante de relações abusivas. Considerar a própria história e as cicatrizes vividas contribui para preservar a saúde mental, o que importa mais do que sustentar aparências em uma data comemorativa.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Punir mais ou compreender melhor o caminho dos jovens – por Dra. Vera Resende

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Sempre que há aumento nos índices de criminalidade com a participação de menores de idade, o tema da redução da maioridade penal volta ao debate público. Trata-se de uma questão complexa, longe de alcançar consenso tanto no campo das ciências jurídicas quanto no das ciências sociais. É necessário refletir se as medidas punitivas aplicadas à população adulta têm sido eficazes na redução da criminalidade. Caso fossem, viveríamos em uma sociedade mais segura, com menor incidência de crimes. No entanto, o país apresenta um dos maiores índices de população carcerária do mundo.

É comum recorrer à comparação com modelos estrangeiros, especialmente em momentos de comoção diante de crimes cometidos por adolescentes. No entanto, cada sociedade possui sua própria cultura e organiza suas leis em articulação com políticas públicas de educação, saúde e inclusão social. Esses fatores influenciam diretamente o desenvolvimento de crianças e adolescentes e ampliam as perspectivas de inserção no mercado de trabalho e na vida social. No Brasil, ainda há desafios significativos nesse campo e um longo caminho a ser percorrido. Sociedades que oferecem mais condições de desenvolvimento também estabelecem maiores níveis de exigência. Ainda assim, mesmo países com melhores indicadores sociais enfrentam problemas relacionados à criminalidade juvenil.

Outro ponto recorrente no debate é a tendência de associar a delinquência juvenil à população pobre e periférica. Essa visão simplifica um fenômeno complexo e não se sustenta diante dos fatos. Casos recentes e declarações de autoridades mostram que jovens de diferentes classes sociais também estão envolvidos em atos violentos.

Historicamente, crimes graves foram cometidos por jovens de famílias economicamente favorecidas. Casos emblemáticos, como os de Araceli e Ana Lídia, evidenciam essa realidade. Situações de violência contra pessoas em situação de rua, idosos e animais também ocorreram sem que houvesse a mesma pressão social por medidas extremas como a redução da maioridade penal ou a adoção de penas mais severas.

A violência, em qualquer contexto, produz efeitos que vão além do ato em si. Ela retira a humanidade tanto da vítima quanto do agressor. Em experiências clínicas com grupos de adolescentes em liberdade assistida, foi possível observar trajetórias marcadas pela ausência de orientação familiar, afeto e educação. O trabalho terapêutico em grupo buscava oferecer a esses jovens a possibilidade de se reconhecerem como parte da sociedade e de assumirem responsabilidade por suas próprias trajetórias. Ao entrarem em contato com o outro, puderam resgatar aspectos de sua própria humanidade. Muitos relataram que nunca haviam sido tratados com respeito ou considerados como sujeitos. Uma das falas mais marcantes foi a de um jovem que afirmou que, se tivesse sido reconhecido como alguém digno, talvez não tivesse seguido o caminho do crime. Essas reflexões indicam que o enfrentamento da violência exige mais do que respostas punitivas. É necessário investir na redução das desigualdades, na ampliação do acesso à educação de qualidade e na criação de oportunidades reais de desenvolvimento para crianças e adolescentes. Trata-se de um desafio coletivo que envolve responsabilidade social e compromisso com o futuro.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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O berço cultural da adultização – por Dra. Vera Resende

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O imaginário social reconhece a infância como uma fase da vida e um direito de todo ser humano, cujas singularidades físicas, psicológicas e sociais devem ser respeitadas. Essa forma de compreender a infância ganhou força no início do século XX e estabeleceu uma separação clara entre a criança e o adulto, cada qual com suas características e necessidades.

No entanto, essa concepção vem se transformando. De certa forma, retoma-se uma lógica semelhante à da Idade Média, período em que não havia distinção nítida entre vida infantil e vida adulta. O avanço tecnológico e a velocidade da informação permitem que conteúdos diversos estejam acessíveis a todos, em qualquer momento. Crianças e adultos passam a compartilhar o mesmo fluxo de informações, como se ocupassem o mesmo nível de compreensão. Aquilo que antes era restrito ao universo adulto hoje é exposto de forma ampla e indiferenciada.

Esse movimento favorece o que alguns estudos apontam como o desaparecimento da infância. Ao romper as fronteiras que protegiam esse período da vida, a criança passa a se vestir, falar e se comportar como adulto antes de alcançar a maturidade física e psíquica necessária. Em diferentes espaços, como ruas e escolas, observa-se a presença de crianças que reproduzem atitudes e expressões típicas do mundo adulto, deixando de vivenciar características próprias da infância. As brincadeiras também refletem essa mudança, incorporando temas e preocupações que não pertencem ao universo infantil.

Os meios de comunicação têm papel relevante nesse processo. Como difusores de valores e comportamentos, contribuíram para a transformação da ideia de infância. A televisão, antes mesmo da expansão da internet e dos celulares, já apresentava a infância como uma etapa muito breve, como se apenas o bebê pudesse ser considerado criança. O mercado também passou a influenciar esse conceito, direcionando produtos tanto para o período que antecede o nascimento quanto para os primeiros anos de vida. A imagem de criança que se consolida é a de alguém com linguagem, interesses e comportamentos próximos aos dos adultos. Já na década de 1980, músicas populares traziam temas que antecipavam interesses por namoro e consumo.

Ainda não é possível mensurar com precisão todos os efeitos desse fenômeno na saúde emocional das crianças. No entanto, é evidente que essa exposição precoce desconsidera o tempo necessário para o desenvolvimento das condições psíquicas que permitiriam elaborar as demandas do mundo adulto. No ambiente familiar, essa ausência de diferenciação entre criança e adultos compromete a organização dos papéis. Dificulta o estabelecimento de limites, fragiliza a autoridade e pode levar à inversão de responsabilidades. No âmbito social, o cenário se torna ainda mais preocupante. Quando todos são tratados como adultos, a proteção da infância deixa de ser prioridade. A sociedade corre o risco de se eximir da responsabilidade de cuidar das crianças, o que pode contribuir para o aumento da violência contra essa população.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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