O berço cultural da adultização – por Dra. Vera Resende

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O imaginário social reconhece a infância como uma fase da vida e um direito de todo ser humano, cujas singularidades físicas, psicológicas e sociais devem ser respeitadas. Essa forma de compreender a infância ganhou força no início do século XX e estabeleceu uma separação clara entre a criança e o adulto, cada qual com suas características e necessidades.

No entanto, essa concepção vem se transformando. De certa forma, retoma-se uma lógica semelhante à da Idade Média, período em que não havia distinção nítida entre vida infantil e vida adulta. O avanço tecnológico e a velocidade da informação permitem que conteúdos diversos estejam acessíveis a todos, em qualquer momento. Crianças e adultos passam a compartilhar o mesmo fluxo de informações, como se ocupassem o mesmo nível de compreensão. Aquilo que antes era restrito ao universo adulto hoje é exposto de forma ampla e indiferenciada.

Esse movimento favorece o que alguns estudos apontam como o desaparecimento da infância. Ao romper as fronteiras que protegiam esse período da vida, a criança passa a se vestir, falar e se comportar como adulto antes de alcançar a maturidade física e psíquica necessária. Em diferentes espaços, como ruas e escolas, observa-se a presença de crianças que reproduzem atitudes e expressões típicas do mundo adulto, deixando de vivenciar características próprias da infância. As brincadeiras também refletem essa mudança, incorporando temas e preocupações que não pertencem ao universo infantil.

Os meios de comunicação têm papel relevante nesse processo. Como difusores de valores e comportamentos, contribuíram para a transformação da ideia de infância. A televisão, antes mesmo da expansão da internet e dos celulares, já apresentava a infância como uma etapa muito breve, como se apenas o bebê pudesse ser considerado criança. O mercado também passou a influenciar esse conceito, direcionando produtos tanto para o período que antecede o nascimento quanto para os primeiros anos de vida. A imagem de criança que se consolida é a de alguém com linguagem, interesses e comportamentos próximos aos dos adultos. Já na década de 1980, músicas populares traziam temas que antecipavam interesses por namoro e consumo.

Ainda não é possível mensurar com precisão todos os efeitos desse fenômeno na saúde emocional das crianças. No entanto, é evidente que essa exposição precoce desconsidera o tempo necessário para o desenvolvimento das condições psíquicas que permitiriam elaborar as demandas do mundo adulto. No ambiente familiar, essa ausência de diferenciação entre criança e adultos compromete a organização dos papéis. Dificulta o estabelecimento de limites, fragiliza a autoridade e pode levar à inversão de responsabilidades. No âmbito social, o cenário se torna ainda mais preocupante. Quando todos são tratados como adultos, a proteção da infância deixa de ser prioridade. A sociedade corre o risco de se eximir da responsabilidade de cuidar das crianças, o que pode contribuir para o aumento da violência contra essa população.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Outras formas de se roubar a infância – por Dra. Vera Resende

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Ultimamente, temos nos escandalizado com denúncias de violência contra crianças, especialmente pela exposição abusiva e sexualizada delas. Diversos segmentos da sociedade manifestaram indignação, e autoridades perceberam a necessidade de criar leis que aumentem a proteção à infância. Seria ideal supor que todo adulto tivesse alguma responsabilidade pela criança que estivesse ao alcance de seu campo de visão, independentemente de laços de parentesco. Talvez assim a omissão fosse banida e muitas situações de abandono, violência e negligência pudessem ser evitadas.

A percepção de uma infância consumidora e já articulada ao mundo adulto pode aumentar sua vulnerabilidade, pois retira a criança do lugar em que antes era vista como símbolo de despreocupação e brincadeiras. O lúdico representava um dos mais sagrados direitos da infância, permitindo explorar a fantasia, extrair informações do mundo exterior e preparar-se para as etapas futuras da vida.

Atualmente, é comum que crianças não tenham tempo nem espaço para brincar. Suas agendas estão superlotadas de atividades, voltadas para um preparo precoce para o futuro, com a ilusão de protegê-las da violência das ruas. No entanto, acabam privadas da experiência única de conquistar autonomia, já que seu tempo permanece subordinado a horários e atividades impostos por outras pessoas, associados a compromissos, e não por elas mesmas.

Quando lhes sobra algum tempo livre, ele é frequentemente preenchido por jogos eletrônicos e redes sociais. Nesse espaço, a criança descobre precocemente o supérfluo e o integra em sua experiência, de tal modo que passa a fazer tanta falta quanto o essencial.

Assim, consolida-se um novo conceito que tolera um silencioso processo de adultização, que rouba a infância em nome de uma responsabilidade precoce. É preciso ter cuidado com o desejo de acelerar o desenvolvimento infantil, suprimindo oportunidades de fantasiar, brincar, criar e imaginar, na ilusão de forçar o crescimento e “colocar para frente” etapas que deveriam ser vividas no tempo certo.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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“Infância não se negocia”, afirma vereador Levi Gobert ao comentar vídeo viral do influenciador Felca

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O vereador Levi Gobert (Podemos) utilizou a tribuna da Câmara Municipal de Barueri, nesta terça-feira (12), para manifestar apoio ao vídeo do influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, que denuncia a “adultização” de crianças nas redes sociais. A publicação, divulgada no último dia 6, já ultrapassa 31 milhões de visualizações no YouTube e 175 milhões no Instagram.

Durante o pronunciamento, Levi destacou que a infância é um direito inegociável. “Gostaria de deixar o meu repúdio a essas pessoas que, com vídeos de grande alcance, ganhando seguidores e até dinheiro, exploram a infância das nossas crianças”, disse. Segundo o parlamentar, o vídeo chegou até ele por meio de seu filho e chamou atenção para um problema que muitas vezes passa despercebido.

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“A gente acaba vendo essas pessoas abastecendo com vídeos sexualizados uma rede de pedófilos que existe em nosso país. A infância não é moeda de troca, não pode ser trocada por likes, por visualizações. É um tempo sagrado que precisa ser protegido”, completou Gobert.

Entenda o caso

No vídeo que gerou repercussão, Felca aborda inicialmente a exposição precoce de crianças e adolescentes em conteúdos de internet, como “coachs mirins” e jovens que falam sobre investimentos e negócios. Em um dos trechos, um garoto afirma que a escola “atrapalhava o desenvolvimento” dele.

Alternando ironia e seriedade, o youtuber critica a postura de pais e responsáveis que permitem ou incentivam a exposição excessiva. Na parte mais grave do conteúdo, ele relaciona a adultização infantil ao risco de pedofilia, apontando que algoritmos de redes sociais podem potencializar a vulnerabilidade de menores, facilitando a ação de criminosos.

A fala de Levi Gobert reforça o debate sobre a necessidade de regulamentação e fiscalização da exposição de crianças na internet, um tema que tem ganhado cada vez mais espaço na pauta pública.


Foto: Marco Miatelo/CMB

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