Muitas felicidades, muitos anos de vida – por Dra. Vera Resende

Muitas felicidades, muitos anos de vida – por Dra. Vera Resende

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Quantas vezes ouvimos essa frase nas comemorações de aniversário? O que ela revela? O que sugere?

Não é difícil captar a alegria com a qual se deseja que os aniversariantes possam conviver com quem amam durante muitos anos, para que essa data se repita inúmeras vezes. Mas qual é a verdade contida nessa ideia? Será que as pessoas desejam que a existência se prolongue com a mesma força e vigor dos primeiros anos de vida?

Tomando como referência algumas comunicações na internet, a sensação é a de que há um enorme fosso entre a forma de perceber e abordar pessoas consideradas idosas e as expectativas dessas pessoas. O resultado é uma comunicação falha, que gera conflitos e sofrimentos evitáveis.

Não é possível estigmatizar as pessoas por causa da idade. De qual idoso estamos falando? A quem nos referimos?

Em um depoimento, uma jovem diz que seu avô se tornou uma pessoa amarga e reclamona. Ocorre-me perguntar como era esse avô antes de envelhecer. Pode ser que a neta tenha fixado na memória o avô de sua infância. Naquela época, ambos viviam ciclos diferentes da vida e interagiam com sentimentos, interesses e expectativas distintos. Quais foram as perdas do avô enquanto a neta crescia e se desenvolvia? Em que oportunidades houve trocas de experiências? Eles puderam falar sobre sentimentos, sonhos e receios?

Lancei a questão da comunicação com idosos em uma plataforma de inteligência artificial e obtive um manual cuja leitura leva a pensar que existe apenas um tipo de idoso. Um idoso com dificuldades para ouvir, lidar com a tecnologia, participar da vida social, ler, entre tantas outras limitações. Essa visão não leva em conta diferentes histórias de vida, experiências acumuladas e habilidades preservadas.

A velhice é apenas uma fase da vida que começou na infância. A evolução dos bebês nos ensina que cada aquisição de habilidades e aptidões ocorre em momentos diferentes, ainda que entre crianças da mesma faixa etária. Uns começam a andar antes de falar. Outros fazem o contrário, começam a falar e mais tarde desenvolvem a marcha.

No envelhecimento, não se pode pressupor que todos percam aptidões e habilidades de maneira padronizada apenas porque atingiram determinada faixa etária. É preciso considerar a história de cada pessoa, sua cultura, sua saúde física e emocional, as oportunidades que teve para se desenvolver, suas conexões sociais e profissionais e, enfim, os múltiplos fatores que tornam cada indivíduo único.

É bem provável que a irritabilidade mencionada pela neta, ao se referir ao avô, seja uma resposta ao sentimento de ser tratado como se seu “prazo de validade” estivesse vencido e de ser deixado de fora dos programas familiares. A exclusão é uma questão séria para quem passou a vida pensando, planejando e incluindo os filhos em suas preocupações.

Sentir-se inútil e descartado pode apagar o brilho da existência de pessoas que sonharam em aproveitar a companhia daqueles que amam e, justamente por eles, acabam sendo deixadas de lado. Na maturidade, muitas pessoas encontram mais dificuldades para construir novos laços de amizade. O abandono e a solidão sugerem que os votos de “muitos anos de vida”, ouvidos durante toda a existência, pareciam valer apenas para os anos da juventude, como se a velhice não coubesse nos sonhos de quem acredita que permanecerá jovem para sempre.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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