Entre ossos, máquinas e dúvidas – por Dr. Guilherme Falótico

Entre ossos, máquinas e dúvidas – por Dr. Guilherme Falótico

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Há dias em que entro no consultório e sinto que a Medicina, aquela que aprendi entre livros pesados e salas de plantão, anda perdendo algo que não sei nomear. Talvez seja gesto, talvez seja silêncio, talvez seja aquilo que só se percebe quando falta. Falta como falta cálcio na vértebra fraturada do idoso, como falta chão ao paciente diante de um diagnóstico que muda a vida. A Medicina, essa senhora antiga, parece correr atrás de uma tecnologia que lhe acena com milagres, mas cobra caro e exige a essência.

Procedimentos novos brotam como se fossem descobertas definitivas. Prometem curas rápidas, sem risco, sem esforço, quase sem verdade. A ciência, que sempre pediu calma, método e confronto com o real, passa a ser tratada como pedra no caminho. E nós, médicos, às vezes nos deixamos impressionar pelo brilho do novo, como se tradição fosse atraso, quando na verdade é estrutura.

Na Ortopedia isso se mostra com clareza. A cada ano surge um aparelho mais sofisticado, uma técnica anunciada como revolucionária, um tratamento que, dizem, fará o paciente correr antes de reaprender a andar. Mas o corpo não é máquina que aceita atualização automática. É terreno antigo, com suas marcas, desvios e memórias. E a Medicina que nele se faz precisa de fundamento, não de espetáculo.A tecnologia não é inimiga. É aliada valiosa quando usada com critério. O risco nasce da pressa, a pressa de lucrar, de aparecer, de vender esperança embalando o incerto como certeza. Parece que criamos o homem atrás do homem atrás da máquina, e nesse empilhamento o cuidado ao paciente vai desaparecendo.

Manter princípios éticos virou quase ato de resistência. Exige dizer não quando o mercado empurra o sim. Exige escolher o caminho mais lento, mais estudado, mais seguro, ainda que renda menos aplausos, menos curtidas, menos cifras. Exige lembrar que, antes da técnica, há alguém que deposita em nós uma confiança silenciosa e desarmada.

A Medicina que me formou não cabia em slogans. Era feita de escuta, prudência e dúvidas. Talvez seja justamente isso que precisemos recuperar, a coragem de duvidar. Porque é a dúvida que nos mantém humanos e é a humanidade que sustenta a Medicina, mesmo neste tempo de algoritmos apressados. Salvar um princípio é como reduzir um osso deslocado, dói, exige firmeza, mas devolve função. E a função da Medicina, ontem e hoje, não é brilhar. É orientar e cuidar.


Dr. Guilherme Falótico – Ortopedista especialista em cirurgia do quadril (CRM 128925). Formado e professor adjunto na Escola Paulista de Medicina/UNIFESP, é mestre e doutor em Ciências, com Fellowship no Rothman Institute (EUA), onde se especializou em via anterior do quadril e infecções em artroplastias. Certificado em cirurgia robótica (Robô Mako) e membro da SBOT e SBQ, é reconhecido pela atuação de excelência aliada à ciência e à inovação na ortopedia.


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