No mundo do esporte, onde mais é frequentemente confundido com melhor, existe uma condição silenciosa que está minando a saúde de atletas profissionais e amadores: a Deficiência Energética Relativa no Esporte (RED-S). Esta não é simplesmente uma questão de comer pouco, mas sim de um desequilíbrio crítico entre a energia consumida e a energia gasta, um estado em que o corpo, literalmente, começa a se consumir para sobreviver.
O que é RED-S? Uma definição que vai além da nutrição
Anteriormente conhecida como a Tríade da Mulher Atleta Feminina, que englobava distúrbios alimentares, amenorreia (ausência de menstruação) e osteoporose, a RED-S representa uma evolução desse conceito. Hoje, sabemos que essa condição:
- Afeta homens e mulheres de todas as idades e níveis esportivos
- Impacta praticamente todos os sistemas do corpo
- Pode ocorrer mesmo sem diagnóstico de transtorno alimentar
O núcleo do problema é simples na teoria, mas complexo na prática, pois o esportista não consome calorias suficientes para suportar seu gasto energético diário, incluindo as demandas do treino, da recuperação e das funções corporais básicas.
O efeito dominó fisiológico quando o corpo desliga sistemas para sobreviver
Imagine seu corpo como uma empresa em crise financeira. A RED-S é o momento em que o “CEO fisiológico” começa a desligar departamentos não-essenciais para manter as luzes acesas:
- Sistema reprodutivo: O primeiro a ser “desligado”
- Mulheres: irregularidade ou ausência menstrual
- Homens: redução significativa dos níveis de testosterona
- Consequência: infertilidade e alterações profundas na libido
- Sistema ósseo: Um silêncio perigoso
- Redução da densidade mineral óssea
- Aumento do risco de fraturas por estresse
- Dano que pode ser irreversível em atletas jovens
- Sistema endócrino em caos
- Cortisol elevado crônico (hormônio do estresse)
- Redução do hormônio do crescimento
- Resistência à insulina
- Tireoide desregulada
- Sistema imunológico comprometido
- Infecções recorrentes
- Resfriados constantes
- Recuperação lenta de lesões
- Impacto no desempenho: A ironia final
- Fadiga precoce
- Perda de força e potência
- Tempos de reação mais lentos
- Maior risco de lesões
- Recuperação inadequada entre treinos
Quem está em risco? Mitos e Verdades
Contrariamente à crença popular, a RED-S não afeta apenas:
- Atletas de esportes estéticos (ginástica, patinação, dança)
- Atletas de endurance (corredores, ciclistas, triatletas)
- Atletas com distúrbios alimentares declarados
Ela também pode afetar:
- Esportistas recreacionais com alta carga de treino
- Homens que restringem calorias para alcançar definição muscular
- Adolescentes em fase de crescimento com treinos intensivos
- Qualquer pessoa com desequilíbrio energético crônico
Os Sinais de Alerta: Reconhecendo antes que seja tarde
A RED-S muitas vezes se instala gradualmente. Fique atento a:
- Perda de peso não intencional ou dificuldade em ganhar peso
- Preocupação excessiva com alimentação e composição corporal
- Frequentes fraturas por estresse ou lesões recorrentes
- Queda inexplicável no desempenho, apesar do treino consistente
- Alterações de humor, irritabilidade ou sintomas depressivos
- Sensação constante de frio
- Problemas gastrointestinais frequentes
O Caminho para a recuperação: Uma jornada de respeito
Tratar a RED-S não é apenas “comer mais”. É um processo multifacetado:
- Ajuste energético imediato: Aumentar a ingestão calórica para atender às necessidades, frequentemente com apoio nutricional especializado.
- Redução do volume ou intensidade do treino: Temporariamente, para permitir que o corpo se recupere.
- Acompanhamento multidisciplinar: Envolvendo médico do esporte, nutricionista, psicólogo e treinador.
- Reparo ósseo: Monitoramento da densidade mineral óssea e possível suplementação.
- Retorno gradual: À plena atividade apenas quando os marcadores de saúde forem restaurados.
A mudança cultural necessária
Combater a RED-S exige uma transformação na cultura esportiva:
- Treinadores que valorizam saúde acima de performance a qualquer custo
- Esportistas que veem o descanso e a nutrição adequada como parte integral do treino
- Competições que não recompensam corpos insustentavelmente magros
- Uma compreensão de que performance ótima requer saúde ótima
Um apelo à escuta corporal
Se você é atleta, treinador, pai de um jovem esportista ou simplesmente alguém que busca excelência física, lembre-se: seu corpo não é uma máquina que pode operar sem combustível. Ele é um sistema biológico complexo que precisa de equilíbrio para prosperar. A verdadeira performance de elite não vem da exaustão, mas da energia abundante. Não da restrição, mas da nutrição estratégica. Não do desrespeito aos limites, mas da sabedoria em reconhecê-los.

Dr. Guilherme Falótico – Ortopedista especialista em cirurgia do quadril (CRM 128925). Formado e professor adjunto na Escola Paulista de Medicina/UNIFESP, é mestre e doutor em Ciências, com Fellowship no Rothman Institute (EUA), onde se especializou em via anterior do quadril e infecções em artroplastias. Certificado em cirurgia robótica (Robô Mako) e membro da SBOT e SBQ, é reconhecido pela atuação de excelência aliada à ciência e à inovação na ortopedia.
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