RED-S e o momento em que o corpo do esportista entra em modo de emergência – por Dr. Guilherme Falótico

RED-S e o momento em que o corpo do esportista entra em modo de emergência – por Dr. Guilherme Falótico

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No mundo do esporte, onde mais é frequentemente confundido com melhor, existe uma condição silenciosa que está minando a saúde de atletas profissionais e amadores: a Deficiência Energética Relativa no Esporte (RED-S). Esta não é simplesmente uma questão de comer pouco, mas sim de um desequilíbrio crítico entre a energia consumida e a energia gasta, um estado em que o corpo, literalmente, começa a se consumir para sobreviver.

O que é RED-S? Uma definição que vai além da nutrição

Anteriormente conhecida como a Tríade da Mulher Atleta Feminina, que englobava distúrbios alimentares, amenorreia (ausência de menstruação) e osteoporose, a RED-S representa uma evolução desse conceito. Hoje, sabemos que essa condição:

  • Afeta homens e mulheres de todas as idades e níveis esportivos
  • Impacta praticamente todos os sistemas do corpo
  • Pode ocorrer mesmo sem diagnóstico de transtorno alimentar

O núcleo do problema é simples na teoria, mas complexo na prática, pois o esportista não consome calorias suficientes para suportar seu gasto energético diário, incluindo as demandas do treino, da recuperação e das funções corporais básicas.

O efeito dominó fisiológico quando o corpo desliga sistemas para sobreviver

Imagine seu corpo como uma empresa em crise financeira. A RED-S é o momento em que o “CEO fisiológico” começa a desligar departamentos não-essenciais para manter as luzes acesas:

  1. Sistema reprodutivo: O primeiro a ser “desligado”
  1. Mulheres: irregularidade ou ausência menstrual
  2. Homens: redução significativa dos níveis de testosterona
  3. Consequência: infertilidade e alterações profundas na libido
  1. Sistema ósseo: Um silêncio perigoso
  1. Redução da densidade mineral óssea
  2. Aumento do risco de fraturas por estresse
  3. Dano que pode ser irreversível em atletas jovens
  1. Sistema endócrino em caos
  1. Cortisol elevado crônico (hormônio do estresse)
  2. Redução do hormônio do crescimento
  3. Resistência à insulina
  4. Tireoide desregulada
  1. Sistema imunológico comprometido
  1. Infecções recorrentes
  2. Resfriados constantes
  3. Recuperação lenta de lesões
  1. Impacto no desempenho: A ironia final
  1. Fadiga precoce
  2. Perda de força e potência
  3. Tempos de reação mais lentos
  4. Maior risco de lesões
  5. Recuperação inadequada entre treinos

Quem está em risco? Mitos e Verdades

Contrariamente à crença popular, a RED-S não afeta apenas:

  • Atletas de esportes estéticos (ginástica, patinação, dança)
  • Atletas de endurance (corredores, ciclistas, triatletas)
  • Atletas com distúrbios alimentares declarados

Ela também pode afetar:

  • Esportistas recreacionais com alta carga de treino
  • Homens que restringem calorias para alcançar definição muscular
  • Adolescentes em fase de crescimento com treinos intensivos
  • Qualquer pessoa com desequilíbrio energético crônico

Os Sinais de Alerta: Reconhecendo antes que seja tarde

A RED-S muitas vezes se instala gradualmente. Fique atento a:

  • Perda de peso não intencional ou dificuldade em ganhar peso
  • Preocupação excessiva com alimentação e composição corporal
  • Frequentes fraturas por estresse ou lesões recorrentes
  • Queda inexplicável no desempenho, apesar do treino consistente
  • Alterações de humor, irritabilidade ou sintomas depressivos
  • Sensação constante de frio
  • Problemas gastrointestinais frequentes

O Caminho para a recuperação: Uma jornada de respeito

Tratar a RED-S não é apenas “comer mais”. É um processo multifacetado:

  1. Ajuste energético imediato: Aumentar a ingestão calórica para atender às necessidades, frequentemente com apoio nutricional especializado.
  2. Redução do volume ou intensidade do treino: Temporariamente, para permitir que o corpo se recupere.
  3. Acompanhamento multidisciplinar: Envolvendo médico do esporte, nutricionista, psicólogo e treinador.
  4. Reparo ósseo: Monitoramento da densidade mineral óssea e possível suplementação.
  5. Retorno gradual: À plena atividade apenas quando os marcadores de saúde forem restaurados.

A mudança cultural necessária

Combater a RED-S exige uma transformação na cultura esportiva:

  • Treinadores que valorizam saúde acima de performance a qualquer custo
  • Esportistas que veem o descanso e a nutrição adequada como parte integral do treino
  • Competições que não recompensam corpos insustentavelmente magros
  • Uma compreensão de que performance ótima requer saúde ótima

Um apelo à escuta corporal

Se você é atleta, treinador, pai de um jovem esportista ou simplesmente alguém que busca excelência física, lembre-se: seu corpo não é uma máquina que pode operar sem combustível. Ele é um sistema biológico complexo que precisa de equilíbrio para prosperar. A verdadeira performance de elite não vem da exaustão, mas da energia abundante. Não da restrição, mas da nutrição estratégica. Não do desrespeito aos limites, mas da sabedoria em reconhecê-los.


Dr. Guilherme Falótico – Ortopedista especialista em cirurgia do quadril (CRM 128925). Formado e professor adjunto na Escola Paulista de Medicina/UNIFESP, é mestre e doutor em Ciências, com Fellowship no Rothman Institute (EUA), onde se especializou em via anterior do quadril e infecções em artroplastias. Certificado em cirurgia robótica (Robô Mako) e membro da SBOT e SBQ, é reconhecido pela atuação de excelência aliada à ciência e à inovação na ortopedia.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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