Relações perigosas. Para quem? – por Celso Tracco

Relações perigosas. Para quem? – por Celso Tracco

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Para a população brasileira. Mesmo acostumada a ver contínuos escândalos financeiros de todos os tipos, fraudes e descaminhos com o dinheiro público, muitas vezes fruto de relações perigosas entre agentes públicos e entidades privadas, a população pagadora de impostos não para de se surpreender. O caso do Banco Master, que segue ganhando projeção nacional, mantém a lógica de tornar privado o que deveria ser público. Este caso vem batendo todos os recordes nessa prática de relações promiscuas entre agentes públicos e o banco privado. O monstruoso escândalo tem potencial, desde que devidamente investigado, de abalar as estruturas da República Brasileira. Já sabemos quem pagará a conta, mas o que poderia ser feito para, pelo menos, tentar evitar novos escândalos?

Primeiro, devemos nos perguntar, por que um banco privado teria tanto interesse em ter laços tão estreitos com autoridades e servidores públicos? Claro que aqui estamos falando de servidores que desempenham altos cargos na administração pública. Até agora, pelo que já saiu na imprensa, sabemos que o dono e principais dirigentes do Banco Master, mantinham estreitas ligações com membros e/ou com parentes do Poder Judiciário, do Poder Legislativo, do Poder Executivo, tanto em âmbito federal, como estadual e municipal, além de autarquias federais, como o Banco Central. Ou seja, a rede de influência dos administradores do Master era imensa. Será que ela se desfez após a liquidação do banco, e a prisão de seu principal acionista?

Devemos sempre ter em conta a máxima de que todos são inocentes até prova em contrário. Acusar alguém antes do já conhecido “trânsito e julgado” seria uma leviandade. O que tento expor neste artigo é a precariedade de controles das instituições públicas brasileiras. Não é de hoje, e sem distinções de governos, que entidades privadas se apropriam do bem público em benefício próprio e em detrimento do interesse coletivo. Esta prática, no mínimo, drena recursos para as reais necessidades da população mais carente da sociedade brasileira. O que transparece na percepção popular é que um banco com forte atuação em setores como crédito consignado, fundos de aposentadoria de servidores púbicos, agressiva venda de produtos financeiros como CDBs, qualquer proximidade com os gestores públicos, pode gerar conflitos de interesse. Cabe aqui a famosa frase atribuída a Júlio César em 62 a.C. quando exercia o cargo Pretor (magistrado e supremo juiz em Roma) “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. A frase continua sendo válida, após 2.000 anos, para qualquer cidadão ou cidadã que exerce cargo público.

Um ponto desastroso desta relação perigosa, é a falta de confiança nas instituições e em especial no sistema financeiro que perpassa para a população em geral. O mínimo que se espera é que haja transparência total em todas as transações envolvendo o sistema financeiro e órgãos públicos. A falta de transparência, como proteger sigilo bancário de investigados pode influenciar, negativamente, a opinião pública, o que seria desastroso. O uso do dinheiro dos impostos pelos órgãos públicos, deveria ser totalmente auditável, por empresas independentes e sem relações com poderes constituídos. Os resultados das auditorias deveriam ser conhecidos da população, e quem sabe, deste modo, se dificultaria que decisões políticas fossem manipuladas por decisões particulares e privadas.

A população não pode nem deve demonizar o sistema financeiro, evidentemente a economia do país não prospera sem ele, mas o que se espera é que os agentes públicos tenham real cuidado com o dinheiro público, afinal eles foram eleitos para serem servidores públicos e não para se servirem do dinheiro público. Aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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