Dezembro me traz lindas e agradáveis lembranças, do meu tempo de criança/adolescente. Que maravilha, primeira semana de dezembro! Férias escolares. O dia todo para brincar, livre na rua. A rua era um verdadeiro parque de diversões, jogo de peão, taco, bolinha de gude, carrinho de rolimã, futebol onde o gol era marcado por pedras ou um par de chinelos. Bons tempos! Praticamente não havia carros nos bairros periféricos da grande cidade. Quando algum se aproximava, o motorista gentilmente buzinava e todos corriam para os lados. Após a passagem do veículo todos voltavam para os lugares que estavam e a brincadeira continuava. Uma pausa momentânea. Além disso tinha a preparação para o Natal. Ainda era uma festa cristã e católica por excelência. Obrigatório ir à missa na igreja da paróquia. Missa do Galo, começando à meia-noite do dia 24, as crianças podiam dormir tarde nessa noite, ou nem dormiam, porque na manhã do dia 25 começava a busca dos presentes, que os pais e parentes, escondiam pela casa toda. A diversão era achar seus presentes, embaixo de camas, dentro de armários ou em cima de alguma árvore do quintal. Uma experiência inesquecível. A vida era bela, agradável, feliz. Sim, felicidade existia e morava no meu endereço. Bons tempos, que deixaram muitas saudades. Nem sabia o que era estresse, esse vocábulo “gringo”, aportuguesado. Era feliz e ponto.
Agora, já avançado na idade, sinto uma certa pena dos adultos responsáveis que têm tantas obrigações e deveres nesta época do ano. Primeiro, aos que impõem promessas sobre seus ombros, que por várias razões não puderam cumprir durante o ano que está findando. Não se sintam culpados, fracassados, frustrados por” falharem”, vocês não falharam, apenas colocaram o sarrafo em uma altura, não compatível com o seu salto. O pior verdugo é a sua consciência. Segundo, quanta correria com data marcada: fazer sacolinhas para crianças necessitadas, preparar reuniões com diversos amigos e parentes, organizar visitas a algumas pessoas, comprar presentes, amigo secreto no trabalho, na escola, no trabalho voluntário. Ufa, o mundo vai acabar amanhã e não vai dar tempo para tudo. Quanto estresse. Ah, sem falar do trânsito, lembra daquela rua sem carro? Hoje ela não existe nem no Polo Norte. Mas não vamos reclamar, hoje temos a internet e podemos comprar quase tudo por celular! Tranquilo? Mais ou menos, e os golpes diurnos e noturnos, as falsificações, as entregas erradas, a clonagem do cartão? Você está exagerando, as coisas não são bem assim, dizem meus amigos otimistas. Talvez não sejam mesmo, talvez eu seja pessimista demais e só vejo o lado ruim das coisas. Exemplo: no ano passado, em dezembro, eu e minha esposa levamos nossos netos, num sábado, para um passeio em um conhecido Shopping Center de São Paulo. Levei uma hora, dentro do estacionamento para achar uma vaga, e só achei porque fui ajudado por um colega de infortúnio. Um idoso que estava indo em direção ao seu carro estacionado, viu meu desânimo, se aproximou e disse:
– Amigo, está procurando vaga, temos que nos ajudar, siga-me.
Pensei, será que mereço essa sorte. Quem se preocupa com o outro? O nobre senhor, fez a gentileza de retirar o seu carro, de modo que nenhum outro ocupasse a vaga que ele me destinou. Agradeci de todo coração. Meu anjo da guarda estava atento e de plantão naquele fim de semana. Nem preciso dizer como estava o Shopping, filas pelos corredores para ir ao banheiro. Vida moderna, tudo à mão e tão distante, um estresse para cada dia. A vida pode ser bela, mesmo em dezembro, depende de você.

Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.
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