Liberdade! Liberdade! – por Celso Tracco

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A proclamação da “Lei Áurea” em 13 de maio de 1888, nos estimula a refletir sobre a prática do racismo que segue existindo não só no Brasil, como em muitas partes do mundo. Basta ver as campanhas de “Racismo Não” que, por exemplo, se propagam pelas entidades esportivas internacionais. Infelizmente as campanhas têm baixa efetividade. No caso brasileiro vivemos o racismo estrutural, enraizado na nossa sociedade. De fato, não basta dizer que se é antirracista, precisamos e devemos combater de modo exemplar os atos racistas que são praticados quase todos os dias. Atos que não devem ser tolerados ou mitigados, até porque são considerados crimes. Um breve histórico ajuda a entender por que o racismo estrutural ainda persiste entre nós.

O Brasil viveu durante 350 anos do trabalho escravo. Como a tentativa de escravizar os indígenas não deu certo, a Coroa Portuguesa empreendeu, com enorme sucesso, o tráfico de povos africanos escravizados para serem mão de obra em sua promissora colônia. É importante ressaltar que o tráfico de africanos (as), foi um sistema político e econômico multinacional, extremamente lucrativo e que durou séculos. As nefastas viagens que cruzavam o Atlântico, eram financiadas por banqueiros ou mercadores europeus, os donos do sistema financeiro da época. Os africanos, homens e mulheres, eram comprados a “troco de nada” pelos capitães dos navios e vendidos por um alto preço nos mercados de escravizados no Brasil. Fechando a operação econômica, as mercadorias produzidas pela mão de obra escravizada eram exportadas para a Europa. Essa “roda da fortuna”, enriquecia poucos e empobrecia milhões. Assim foi o processo produtivo da economia brasileira entre os séculos XVI e XIX. Os chamados ciclos da cana-de-açúcar, do ouro, do café, e os menos famosos ciclos do tabaco e algodão, foram todos baseados em trabalho de escravizados. A economia brasileira não produzia internamente nem os mais básicos utensílios usados para o dia a dia. Tudo era importado. As tarifas alfandegarias sempre foram uma boa fonte de renda para os governos português e brasileiro. Finalmente, depois de longas décadas de debates, “o fim da escravidão iria “quebrar” o Brasil”, a escravidão foi abolida. Nota: o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão.

Estima-se que cerca de 700.000 pessoas escravizadas ficaram livres a partir de 13 de maio de 1888. Na enorme maioria dos casos isto significou que eles estavam na rua apenas com a roupa do corpo, sem ter o que comer e sem saber para onde ir. A famosa Lei Aurea não previu nenhum tipo de ajuda, de indenização, de orientação, para os agora negros libertos. Foi um gigantesco “vire-se”. Além de não serem tratados como seres humanos, não possuíam documentos não tendo qualquer direito. A enorme maioria era analfabeta, e só sabiam fazer trabalhos de roça e domésticos. Para tentar viver, continuaram na condição de escravizados em troca de um prato de comida e de um monte de palha para dormir. Os que nem isso tiveram, iriam se unir em malocas, favelas, palafitas, em áreas de risco e viver de trabalhos eventuais, subemprego. De uma maneira ou de outra a população negra ou mestiça oriunda da escravidão, não teve nenhum plano governamental, organizado para ser incluída na sociedade brasileira. O estigma da cor da pele, da pobreza, da precariedade social com a população afrodescendente, infelizmente, persiste até hoje.

A escravidão, que existe desde a antiguidade, não é oriunda do racismo. Mas no Brasil a escravidão originou o racismo. Oxalá um dia a liberdade seja realmente igual para todos e a igualdade seja a tônica da sociedade brasileira. Aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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MÃE – por Celso Tracco

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Mãe, mamãe, mainha, manhê. Vários vocábulos para a mesma criatura. Ser mãe é carregar no coração um amor intenso. É transformar noites mal dormidas em dias cheios de esperança, é encontrar forças onde ninguém mais encontraria, é amar antes mesmo de conhecer o rosto, a voz, o gênero. Mãe é ação contínua, é presença que permanece mesmo quando a distância insiste em se impor. O amor materno está nos detalhes: a comida que o filho(a) mais gosta, ainda que preparada às pressas, o conselho repetido mil vezes, o olhar luminoso no encontro e saudoso na despedida. É um amor que educa, orienta, critica, mas é sempre acolhedor, chamando de meu menino ou minha menina quem já passou dos 50 anos. Mãe se reinventa quando percebe que a vida mudou de ritmo ou de rumo. Seu coração se expande de maneiras inesperadas. Passa a enfrentar os novos desafios diários com uma força silenciosa, muitas vezes invisível, mas essencial e amorosa. Mãe é mãe 24 horas, todos os dias de sua nobre vida.

Neste Dia das Mães, queremos homenagear não apenas a figura materna idealizada, mas todas as formas reais, diversas e possíveis de ser mãe. Celebramos as mães biológicas, adotivas, de coração, as avós que viram mães novamente, as tias que acolhem, as madrastas que edificam novas famílias, as mulheres que criam, educam, inspiram e protegem. Cada uma delas carrega uma história única, marcada por coragem, entrega e uma capacidade extraordinária de transformar vidas, através do amor. No coração dos filhos, mãe não morre nunca.  Com alegria, todos os dias, lembro de minha adorável mãe, a incansável D. Helena, que apesar de todos os seus afazeres, nunca me recusou ajuda nas redações escolares. Gratidão eterna. Tenham um feliz Dia das Mães.

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Lição de Coisas’


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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Autismo. A importância da conscientização – por Celso Tracco

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Abril é reconhecido como o mês de conscientização do autismo. Mais do que uma campanha, é também um alerta para que a sociedade reflita e discuta sobre a diversidade, equidade e inclusão.  Podemos e devemos ampliar o debate refletindo sobre o respeito aos direitos humanos, para todos os cidadãos brasileiros. A chamada à conscientização do autismo, também representa um movimento global que busca alargar o entendimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), combater estigmas e promover uma convivência mais justa e acolhedora para todas as pessoas autistas. A data foi instituída pela ONU em 2007 e, desde então, tornou-se um marco anual de mobilização social. No Brasil, o mês é marcado por ações educativas, debates públicos, eventos culturais e iniciativas governamentais que reforçam a importância de enxergar o autismo como parte da diversidade humana. É muito necessário promover estas iniciativas todos os meses do ano e não apenas em abril.

O Transtorno do Espectro Autista é uma condição da neurodiversidade, caracterizada por diferenças na comunicação, na interação social e na forma como a pessoa percebe e processa estímulos. O termo “espectro” é essencial: ele reconhece que cada pessoa autista é única, com habilidades, desafios e necessidades específicas. Segundo especialistas no tema, o foco deve ser no suporte adequado, no acolhimento e no desenvolvimento do potencial individual da pessoa autista, não na “cura”. As necessidades de cada pessoa, podem variar amplamente, algumas precisam de suporte intenso, outras de apoio simples. Compreender e aceitar a neurodiversidade, é reconhecer que a diferença não é um problema, mas um grande potencial de crescimento para todos. Todos os seres humanos merecem respeito, acessibilidade, compreensão, principalmente em uma sociedade que pretende ser diversa, equitativa e inclusiva, facilitando a convivência e não a invisibilidade, a injustiça e a exclusão social de qualquer grupo que tenha habilidades diferentes da maioria.

Felizmente, várias cidades brasileiras têm avançado na criação de centros especializados, capacitação de profissionais e campanhas de conscientização. O principal fundamento é a humanização. Toda vida tem valor, este lema sintetiza e ganha força nas campanhas, lembrando que as pessoas autistas não precisam ser “consertadas”, mas compreendidas; que a comunicação pode acontecer de muitas formas; diferenças não são defeitos. O principal recado para todos é: a dignidade humana é inegociável. Humanizar o olhar sobre o autismo significa abandonar estereótipos e ouvir as próprias pessoas autistas, que têm reivindicado protagonismo nas discussões sobre suas vidas. Significa também reconhecer que inclusão não é um favor, mas um direito.

A conscientização precisa ser contínua e isto significa: buscar informação de qualidade; apoiar famílias e cuidadores; promover ambientes acolhedores; combater preconceitos diariamente; ouvir e amplificar vozes das pessoas altistas, elas têm muito a colaborar com o restante da sociedade, pois elas sabem suas verdadeiras necessidades. A inclusão efetiva acontece nos gestos simples, comuns e no cotidiano, nas políticas públicas consistentes e na disposição de aprender com a diversidade.

A conscientização do TEA deve ser vista como um movimento de transformação social. Ele nos convida a repensar nossas práticas, ampliar nosso entendimento e construir uma sociedade onde todas as pessoas, autistas ou não, possam viver com dignidade, respeito e oportunidades. Conscientizar é humanizar. E humanizar é reconhecer que toda vida tem valor. Aproveite seu dia.

Para informações complementares sobre autismo acesse:  www.autistas.org.br


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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CAOS, DOR, SOFRIMENTO – por Celso Tracco

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Dentre todas as espécies conhecidas, o ser humano foi a que melhor desenvolveu o cérebro e com isso passa a raciocinar, a prever, a ter estratégias para enfrentar e se adaptar a qualquer situação, por mais inesperada e difícil que pareça. Infelizmente, também usa suas habilidades cognitivas, para fazer o que mais aprecia: guerrear, matar, conquistar territórios, escravizar prisioneiros, expandir domínios, eliminar possíveis ameaças, destruir a natureza. Isso não é de hoje, o famoso livro A Arte da Guerra, atribuído ao estrategista Sun Tzu, foi escrito na China há 2.500 anos. Um dos mais antigos tratados sobre o tema “guerra”. A obra tem 13 capítulos e fala da estratégia militar, planejamento, conhecimento do inimigo e flexibilidade tática. A Ilíada e a Odisseia poemas escritos pelo poeta grego Homero, são ainda mais antigos. Homero viveu entre os anos de 750 e 650 a.C. Os poemas enaltecem os guerreiros e heróis gregos, reais ou imaginários, mas sempre combatentes. Essa obra é considerada fundamental para se entender a cultura ocidental. Portanto, não é de hoje que a humanidade, no ocidente ou oriente, adora, admira, e deseja guerras. A maneira de convivência das diversas culturas humanas, certamente mudou muito nos últimos 30 séculos, mas a cobiça, a arrogância, a ganância, o desejo de conquistar, de acumular poder, de ser “o rei dos reis”, a indiferença pela vida dos outros, a exploração dos inimigos, não mudou. Continuamos com o título da mais cruel, sanguinária, bárbara, impiedosa espécie que já surgiu na face da Terra. Gostamos de enaltecer aqueles ou aquelas que a sociedade atual classifica como vencedores, atribuindo-lhes o título de: “águia ou falcão, leão ou tigre, tubarão”. Não importa onde seja: no ar, terra ou água, imitamos os maiores predadores.

Certamente ficamos indignados, vendo crianças sendo mortas em salas de aula, cidades destruídas, instalações civis de infraestrutura sendo deliberadamente bombardeadas. A intenção do atacante é clara: deixar a população inimiga padecer de fome e de sede. E isso é feito em nome de Deus, matar inocentes em nome de Deus! Deixando claro que isso acontece com qualquer dos lados em litígio. O Deus pode ser Jesus Cristo, Alá ou Javé. Pode ser chamada de cruzada ou guerra santa, o importante é que a matança de inocentes, segundo os senhores da guerra, é obra de Deus. É inacreditável que uma raça conhecida pela sua capacidade cognitiva, racional, mesmo depois de 40 séculos de história, comprovadamente recheada de genocídios sangrentos, ainda cultive uma cultura de guerra, de morte e destruição, em detrimento de uma cultura de paz, de entendimento mútuo, de compreensão. A marcha da insensatez humana não tem fim.

Há 120 anos, os Estados Unidos da América, alcançaram o posto da maior potência econômica e militar do mundo, e permanecem assim até hoje. Baseado na teoria do manda quem pode, nos últimos 80 anos o Estados Unidos já interferiu militarmente em dezenas de países, sempre com o pretexto de “proteger a democracia” e seus próprios interesses. Destaco alguns: Coreia (1950-1953); Vietnã (1955-1975); Kuwait (1991); Iraque (2003-2005); Afeganistão (2001- 2022). Essas intervenções deixaram milhões de vítimas, entre civis e militares. As baixas militares americanas, são estimadas em torno de 104.000 mortos e 305.000 feridos. Vietnã, Iraque e Afeganistão, são intervenções classificadas como verdadeiros fracassos. Os Estados Unidos, apesar de todo seu poderio econômico e militar, não alcançaram os objetivos iniciais que levaram o país à guerra. Será que valeu a pena? E agora, valerá a pena? Não tenho essa resposta, o que sei é que o caos, a dor e o sofrimento, para todos os envolvidos, já estão assegurados.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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Mulheres e a estúpida hostilidade masculina

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Dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. A data lembra 08/03/1857, quando 129 mulheres operárias em uma tecelagem de Nova York entraram em greve exigindo melhores condições de trabalho e a redução da jornada de 16 horas diárias para “apenas” 10 horas. Elas não conseguiram êxito em suas reivindicações. A sociedade altamente machista e misógina daquela época, considerava a mulher um ser humano de segunda categoria, descartável. O tempo passou, novas mulheres que não se conformaram em serem apenas observadoras e seguidoras das vontades masculinas, persistiram batalhando pela causa. Perceberam que uma causa dessa magnitude, ainda que seja meritória, se vence a longo prazo. Principalmente quando a causa implica na mudança de uma cultura milenar, onde a mulher era vista como um objeto, como uma “máquina” reprodutora da espécie e cuidadora de suas crias, de seu lar, de sua família e agregados.

A Revolução Industrial, acrescentou mais um fardo para a mulher, pois ela passa a ter um valor econômico, é mão de obra barata para as fábricas em expansão. Agora, além de ser reprodutora, cuidar da casa e de seus filhos, era explorada pelo novo sistema econômico. Mostrando a resiliência e a perseverança das mulheres pela sua causa, apenas em 1910, 63 anos após aquela greve em Nova York, em um congresso feminista na Dinamarca o dia 08/03 foi escolhido como o Dia Internacional da Mulher e somente em 1975 a data foi oficializada pela ONU. Neste período, milhares de mulheres pelo mundo pagaram com suas vidas na luta pela melhoria das condições de trabalho, pela igualdade salarial, pela adoção de creches, contra abusos sexuais e psicológicos, entre outras reivindicações sociais e econômicas que hoje são leis em muitos países.

No Brasil, as mulheres também lutam pelos seus direitos cívicos e sociais há muito tempo. Cá como lá a resistência é forte por parte da sociedade machista. Algumas conquistas: apenas em 1932 foi aceito o voto feminino; em 1962, pasmem, a mulher casada deixou de ser considerada incapaz pelo Código Civil Brasileiro. Antes disso precisava da autorização expressa do marido para alienar seus próprios bens e exercer determinadas profissões. Em 2006, foi promulgada a lei Maria da Penha que defende a mulher contra a violência doméstica e em 2015 a lei do feminicídio (homicídio das mulheres em contexto de violência familiar ou de gênero).

Mas a desigualdade persiste entre homens e mulheres: a renda média das mulheres é menor que a dos homens, em praticamente todas as atividades econômicas. Cada vez mais mulheres alcançam graduações e pós-graduações universitárias, são empreendedoras e criativas, mas raras vezes atingem os mais altos níveis da administração privada ou pública. A plena igualdade de oportunidades ainda é uma utopia. Elas representam 52% da população, mas ocupam menos de 20% dos cargos públicos eletivos. Apesar dos partidos políticos serem obrigados a ter uma cota mínima de candidatas mulheres, procuram cumprir a norma, mas raramente apoiam as candidaturas femininas. Finalizando, em 2025 quatro mulheres foram assassinadas por dia no Brasil, pelo crime de feminicídio.

A sociedade seria muito mais humanizada, se homens e mulheres, pudessem viver de acordo com sua capacidade financeira, física, emocional, comportamental, exercendo a atividade que desejam de forma digna e respeitosa com todos os demais. Infelizmente a luta que começou há 170 anos, com uma greve ainda não terminou. A causa continua justa e civilizatória, e apenas com uma vida plena para todos, independente do gênero, cor, etnia, crença teremos uma sociedade pacificada. Aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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Corrupção é o flagelo da civilidade – por Celso Tracco

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Passadas as emoções carnavalescas, voltamos a falar de nossa dura realidade e suas recorrentes máculas. Infelizmente, o que é bom dura pouco. Vida que segue. Vamos lá! Recentes pesquisas de opinião, afirmam que o principal problema do Brasil, apontado por mais de 50% dos entrevistados, é a corrupção. Em segundo lugar, está a (in)segurança pública. Este resultado não causa espanto para ninguém, dado que, praticamente todos os dias somos “bombardeados” com algum novo caso de corrupção envolvendo algum agente ou entidade pública.

Comprovando esta preocupante percepção da população brasileira, a ONG Transparência Internacional (www.transparenciainternacional.org.br) divulgou recentemente um estudo realizado em 182 países e territórios, denominado Índice de Percepção de Corrupção (IPC). O IPC de 2025 mede os níveis de percepção da corrupção no setor público, baseando-se em 13 fontes independentes de informação, usando uma escala que vai de 0 (altamente corrupto) a 100 (altamente íntegro). A média global foi 42, o Brasil alcançou apenas 35, ficando na 107ª posição. Os três países menos corruptos no mundo são: Dinamarca (89), Finlândia (88) e Singapura (84). Além de estar abaixo da média global, o mais preocupante no caso brasileiro é que desde 2012, quando começou a divulgação deste índice, a posição do Brasil não se alterou significantemente, demonstrando que a corrupção é um problema antigo, endêmico em nossa sociedade. Abaixo algumas análises e recomendações, extraídas do relatório IPC 2025, publicado pela Transparência Internacional.

O relatório indica que “há uma estreita ligação entre corrupção e perda da liberdade democrática, quanto menos democrático é o sistema de governo, maior é a percepção de corrupção. Pesquisas e a experiência prática mostram que um modelo de poder em favor do bem comum, combatem de forma mais eficaz a corrupção. Os governos devem tomar medidas para fortalecer seus sistemas de justiça, assegurar a fiscalização independente dos processos decisórios e gastos públicos; garantir a transparência no financiamento de partidos e campanhas eleitorais e proteger a liberdade dos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, é necessário que as autoridades colaborem entre si na hora de enfrentar seus desafios em comum – por exemplo, através do fechamento de canais que possibilitam a corrupção transnacional, que inclui a lavagem de dinheiro e a ocultação de verbas desviadas”.

Em um sistema político como o brasileiro, democrático ainda que tenha muitos vícios e falhas, em última análise quem decide quem vai governar é o voto popular. A sociedade, como um todo, é que elege seus governantes. Devemos procurar conhecer mais os candidatos que desejam mandatos públicos e se eles estão realmente comprometidos a fortalecer a transparência e fiscalização dos serviços públicos e, principalmente, a gestão das verbas públicas. Como opinião pessoal, parece que o governo brasileiro, institucionalmente, tem muito a fazer nesta área. Igualmente, em vista dos últimos acontecimentos, estamos muito longe de prevenir, detectar e punir a corrupção em larga escala, entre os agentes econômicos e os agentes públicos. Persiste uma percepção de impunidade para as camadas mais altas da sociedade, principalmente quando se trata de crimes financeiros. Precisamos ter sempre em mente que o dinheiro público desviado pela corrupção, no final vai significar menos verbas para saúde, educação, mobilidade urbana, moradias para quem realmente precisa. A corrupção é mais um fator que aumenta a vergonhosa desigualdade social no Brasil.

Combater a corrupção é um dever cívico, para toda a sociedade brasileira. Comprar produtos pirateados, por exemplo, é mais um elo que fortalece a corrente da corrupção. Nesta corrente, a sociedade deve ser parte da solução e não do problema.    


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A natural ilusão do carnaval – por Celso Tracco

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Já na antiguidade, várias civilizações como a babilônica, grega e romana, celebravam festas populares. Por vários motivos: festejar a fertilidade da terra, da colheita abundante, para homenagear seus deuses ou deusas, ou o início da primavera. Uma característica comum, dessas festas, era uma liberalidade dos costumes e das regras de comportamento em tais civilizações. Nessas ocasiões, poderiam festejar senhores e escravizados, homens e mulheres, ricos e pobres, todos em igualdade de condições. Podemos dizer que nesses dias festivos, não havia distinções sociais, ou de poder ou de gênero, todos eram iguais. Até uma razoável liberalização dos costumes era permitida. Extravasar sentimentos e desejos era aceitável. Em geral as festas duravam de 3 a 5 dias, passada a festa tudo voltava ao normal, sob o império da lei e da ordem social estabelecida.

Com o fim do Império Romano, a população europeia ficou, em termos de comportamentos social, sob a leis e normas da Igreja Cristã. Este é o período que a História denomina de Cristandade. Algumas daquelas festas populares continuaram e foram se adequando ao calendário religioso. Uma delas tinha o nome latino de “carnis levale”, ou seja, adeus a carne, pois a partir do fim da festa a população estava obrigada a uma grande abstinência deste alimento. No final do século VI, a Igreja determinou que o “carnis levale” fosse celebrado justo antes do período da quaresma. Cada lugar e região festejava o “carnis levale” a seu modo, geralmente de uma forma propositadamente extravagante, exagerando no consumo de comidas, bebidas e com muita música e animação. O uso de máscaras, fantasias, a valorização do ridículo, eram ingredientes comuns na celebração. Portanto, podemos dizer que o Carnaval (nome aportuguesado de carnis levale) se oficializou como uma festa de origem pagã pelo Cristianismo. A diversão estava liberada antes da quaresma, período de 40 dias religiosamente dedicado à meditação, orações, jejum, silêncio e penitência.

Os colonizadores portugueses trouxeram o carnaval para o Brasil. Essa festa tinha o nome entrudo e basicamente era uma “batalha” popular de se jogar saquinhos de água cheirosa em outras pessoas. Com o passar do tempo, a população, substituiu a água cheirosa por farinha, lama, águas malcheirosas. A “brincadeira” ficou fora de controle. As autoridades proibiram a “festa” do entrudo e a população, educadamente, substituiu por “batalhas” de confete e serpentinas. Esta prática identificada como Carnaval, teve grande popularidade no Rio de Janeiro, a partir da segunda metade do século XIX. 

A partir daí o Carnaval se popularizou pelo país inteiro. Incorporou a cultura africana, com suas danças, gingados, sons de batuques e atabaques, tornando o Carnaval cada vez mais popular. Como na antiguidade, no carnaval brasileiro, não há distinções de etnia, cor, gênero, ou condição social. É tudo junto e misturado. O popular Carnaval de rua passou por cordões, corsos de carros de passeio, blocos, e escolas de samba. O Carnaval passou a dominar o Brasil inteiro de Norte a Sul. Claro que o mais famoso segue sendo o do Rio de Janeiro, mas expressões populares acontecem em milhares de cidades brasileiras como, por exemplo, em Santana de Parnaíba, tradicionalíssimo e já centenário. Desde a antiguidade, muita coisa mudou em termos sociais, costumes, comportamentos, mas a essência do Carnaval, segue sendo a mesma: são dias dedicados à alegria, ao exagero, ao esquecimento das agruras do dia a dia, à felicidade ilusória. Divirtam-se, com muita paz, muita festa, animação, até com certa extravagância. Porque terminado o “reinado de Momo”, tudo volta ao normal.   


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Uma análise sobre o caso Banco Master e seus tentáculos no Estado Brasileiro

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Dia 18 de novembro de 2025 o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A partir de então, estamos vendo, lendo e ouvindo, dia após dia, que a relação entre instituições financeiras e o poder público continua sendo um ponto bastante nebuloso no Brasil. Em um país marcado por escândalos recorrentes, apenas para citar alguns mais recentes: Mensalão, Lava Jato, Orçamento Secreto, Carbono Oculto, Emendas Parlamentares com desvios de finalidade, qualquer aproximação entre entidades financeiras e empresariais, agentes políticos e decisões governamentais desperta suspeitas, muitas vezes justificadas, outras vezes alimentadas pela falta de transparência, que caracteriza boa parte da administração pública. Estas promiscuas relações, beiram a infâmia. O Brasil convive há séculos com a percepção de que os órgãos de Estado, pagos com dinheiro dos contribuintes, e que deveriam defender os interesses da maioria do povo, na verdade, operam para servir as elites financeiras, empresariais e políticas do país. No caso do Banco Master esta infame relação, aparentemente, chegou a níveis inimagináveis, senão vejamos:

– Tudo indica que o BC (Banco Central) tinha pleno conhecimento, há pelo menos três anos, que o Banco Master estava em condições precárias de liquidez financeira, fazendo operações sem lastro e suspeitas de fraude. Oferecia ao mercado taxas de rentabilidade bem altas, fora dos padrões, para os seus CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) tendo como elemento de venda o FGC (Fundo Garantidor de Crédito), uma entidade privada que efetivamente, em caso de quebra de um banco garante o pagamento ao investidor em CDBs até R$ 250.000,00 por CPF / CNPJ. Isto por si só já deveria ter sido investigado pelo Banco Central. FGC é um fundo de caráter emergencial, não para especular, “tipo compre que o FGC garante”. Por que o BC demorou para agir?  Esta demora merece ser investigada.

– Desde o final de 2024 o Banco Master tenta conseguir investidores, sócios, compradores, com o objetivo de obter uma forte injeção de capital, pois corria o risco de insolvência. Apresenta-se um interessado: BRB (Banco de Brasília) um banco público cujo sócio majoritário é o Governo do Distrito Federal. O BRB pode operar no Brasil todo, em toda e qualquer atividade financeira. e se propõe a comprar o Master, segundo informações, interessado em sua carteira de crédito e de empréstimos consignados. Porque nenhum outro banco privado, com muito mais recursos que o BRB não demonstrou interesse em comprar o Master? Certamente porque não valia a pena. Mas um banco público possivelmente vinculado a alguma liderança política, insiste em comprar algo que seus concorrentes não querem. Este ponto obscuro deveria ser esclarecido, afinal o BRB é público. Em março de 2025, entra em cena o BC, ele deveria aprovar a compra do Master pelo BRB, mas não aprova. A carteira de créditos que o BRB comprou do Master por R$ 12 bi, segundo avaliação do BC teve seu valor superavaliado.

– Assim que se que se tornou pública a liquidação extrajudicial do Master pelo BC, entrou em cena o TCU (Tribunal de Contas da União), dando 72 horas para o BC explicar sua decisão. O BC entre outras funções estatutárias, deve atuar como guardião da moeda nacional e fiscalizar a integridade do sistema financeiro do Brasil. Está perfeitamente dentro de suas atribuições, liquidar entidades bancárias, que não honrando com seus compromissos, colocam em risco todo o sistema financeiro. Até agora não ficou claro o que respaldou a tentativa do TCU de bloquear a liquidação do Master. O que de prático aconteceu foi que houve um retardamento para o Master enviar as informações dos clientes que teriam valores a receber do FGC. Mais um ponto nebuloso: por que o TCU interveio? Com que autoridade constitucional? A quem interessa a não liquidação do Banco Master e por que tentar colocar a culpa nas ações do Banco Central?

– O STF (Supremo Tribunal Federal) interferiu de forma bastante heterodoxa no processo, com práticas pouco republicanas, inclusive impedindo ou não estimulando as investigações e as perícias da PF (Polícia Federal) sobre o caso. Atitudes que causaram constrangimentos e dissabores em diversos órgãos do governo. Além disso colocou sob sigilo, depois liberou, as investigações e depoimentos. Aqui chegamos ao ponto chave deste intrincado caso: quem estabelece os limites da atuação do STF. Certamente a Constituição Federal e/ou a Lei Maior da Magistratura devem ter algum tipo de regimento interno que regula as ações do STF. Como não advogado, não tenho condições de emitir pareceres nesta área, no entanto, tem-se a percepção que alguma medida de maior transparência deveria ser adotada. Um grande número dos ministros do STF tem parentes (esposa, filhos, filhas, ex-esposa) que possuem escritórios de advocacia, o que por si só já me parece questionável. No caso do Banco Master, vários desses escritórios já advogaram ou ainda advogam para os envolvidos e investigados no presente escândalo financeiro. As ligações particulares dos magistrados com pessoas investigadas, também não parecem ser convenientes e no mínimo, não contribuem para a abrandar a suspeição que paira no ar em certos casos.  Fica a pergunta: Por ser um Ministro ou Ministra do STF, este fica acima de qualquer suspeita, em qualquer situação?

– Grandes investidores do Master são fundos de Previdência de estados e prefeituras espalhadas pelo Brasil. Mais uma vez uma grande malversação do dinheiro público. O ex-presidente da Rio Previdência, foi preso pela PF. Certamente haverá um rombo nas finanças destes institutos. Ainda não sabemos se o Master terá recursos para ressarcir esses investidores. Por definição fundos de previdências devem ter um comportamento conservador, pois os recursos são usados para pagamentos de aposentados e pensionistas. Trata-se de uma gestão incompetente ou fraudulenta? Como, em geral, a indicação para esses cargos é política, imediatamente repercutiu no Senado Federal e na Câmara dos Deputados.  Mais uma vez tem-se a percepção de que haverá aquele clima de “muito trovão e pouca chuva”, ou seja, haverá muito barulho, muita investigação, mas ninguém é punido. Estamos em ano eleitoral, onde a eleição ou reeleição é o objetivo maior.  “O vamos investigar a fundo, doa a quem doer” é, na minha opinião, apenas discurso vazio. Lembrando que parlamentares federais, têm foro privilegiado, portanto só podem ser julgados e condenados pelo STF.

– Como ponto positivo, temos a atuação da PF. Apesar de ter sofrido tentativa de interferência em seu trabalho de investigação e análises de provas, por ordem de ministros do STF, seguiu apurando os graves fatos que seguem surgindo junto ao Banco Master e seus controladores. Inclusive abrindo novas frentes com os desdobramentos que vão surgindo, tais como a atuação fora do padrão do BRB no mercado de capitais; REAG investimentos, um gestor de recursos financeiros, parceiro de negócios do MASTER, que também foi liquidado; o grupo empresarial FICTOR que oferecia aplicações via Sociedades em Conta de Participação (SCP), um modelo não regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e sem cobertura do FGC. O grupo fez uma oferta de compra para o MASTER e entrou na Justiça pedindo recuperação judicial; o RIOPREVIDENCIA, cujo ex-presidente foi preso recentemente. Os elementos sugerem que este caso está muito longe de acabar. Veremos até onde os governantes deste país permitirão a liberdade de investigação da Polícia Federal e fiscalização técnica do Banco Central.

 Quero destacar o brilhante papel do jornalismo investigativo, de vários profissionais de diversos órgãos de imprensa, que revelaram e noticiaram muitos dos detalhes que estavam, digamos ocultos. Viva a liberdade de imprensa e de opinião que ainda existe neste país. A democracia resiste. Concluindo, como disse Antônio Carlos Jobim “o Brasil não é para amadores”. Me atrevo a dizer que o próximo escândalo envolvendo autoridades constituídas, governantes, parlamentares, magistrados, empresários, líderes religiosos, e agora o “crime organizado” sempre será o mais surpreendente, o mais audacioso, o mais impactante, o mais corrupto e o mais custoso para o país. A única coisa que não muda, é quem paga tudo isso: sempre o povo, mais pobre, mais endividado, mais sofrido, que luta dia a dia para seu parco sustento e da sua família e que paga mais impostos, relativamente, que os magnatas da corrupção.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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 Foto Destaque: Rovena Rosa/Ag. Brasil

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Por uma cultura de paz – por Celso Tracco

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Em fevereiro retornam ao trabalho o Congresso Nacional, assim como o STF. Teoricamente os nossos deputados e senadores, legitimamente eleitos pelo povo, voltam aos seus afazeres no parlamento para elaborar, regulamentar, discutir, aprovar leis e decretos que, em última análise, deveriam melhorar a vida do povo e o bem-estar geral da nação. Este, pelo menos, é o discurso oficial. Mas, como 2026 é um ano especial, pois teremos eleições para presidente da república, governadores dos estados, senadores, deputados federais e estaduais. A agenda política estará cheia. Os parlamentares estarão, creio eu, preocupados com o futuro de sua vida na política, a qual, obviamente irá depender do resultado da eleição. Apenas como um exercício mental, interpreto o que estaria pensando um ou uma parlamentar, neste momento:

“Será que vale a pena ser candidato à reeleição? Ou posso pensar em voos mais altos? Quem sabe mudar de partido? Como será o financiamento de minha campanha? Quais serão meus potenciais adversários? Qual é minha matriz de ganhos e perdas, nesse jogo? Quais serão meus aliados nessa nova batalha? Lealdade na política é algo raro”.

Na realidade é legitimo pensar que os candidatos se prepararão para uma “sangrenta” batalha eleitoral. E quem vai determinar quem serão os vencedores? Em um regime democrático, serão os eleitores. A quantidade de votos necessários determinará quem será eleito. E o campo de batalha, para a conquista do seu voto será, prioritariamente, nas redes sociais. Quem vencer a batalha nas redes sociais, será eleito. E aqui está o ponto central deste artigo: não deixe essa batalha entrar em sua vida particular. Não leve a discussão política, radicalizada, ideológica para dentro de seu lar, entre os membros de sua família, entre seus colegas de trabalho, de barzinho, de lazer. Já está claro que a narrativa do “nós contra eles” é da campanha política, eles precisam atacar seus adversários, provar que são melhores ou menos ruins. Ultimamente tem sido pura pancadaria. Mas porque, nós precisamos ser agressivos com quem não comunga de nosso pensamento? Creio que faz parte da democracia defender nosso pensamento político, mas não deveríamos nunca chegar a uma ruptura comportamental.

Já temos muitas preocupações em nossas vidas: pagar contas, educar nos filhos, enfrentar desconforto no transporte coletivo, filas para atendimento médico, trânsito caótico, escapar de golpes pela internet, falta de segurança para andar na rua. Além de todos esses problemas, ainda temos que escutar as falcatruas, golpes, roubos, desvios de dinheiro público por políticos eleitos e outros servidores públicos, de vários partidos e ideologias. Já temos muito com que nos preocupar, então por que vou me envolver em novas lutas que não são minhas? Não coloquemos mais lenha nesta fogueira, muitas das mensagens que iremos receber, poderão ser falsas, “fabricadas” por pessoas que ninguém conhece. Essa guerra não merece ser vivida, não crie inimigos dentro de seus relacionamentos por causa da radicalização política. No final, o sistema sempre vence e o povo sempre paga a conta. Em geral os eleitores só são lembrados no período da eleição, e aí deveriam exercer seu real poder: afastar os péssimos políticos e votar consciente de sua escolha, não no menos ruim, mas no melhor. E após a eleição, caso seu candidato tenha sido eleito, cobrar as promessas eleitorais para que não fiquem no esquecimento. A eleição em um regime democrático, deve ser uma festa cívica e não uma batalha. Aproveite, em paz, o seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S.

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Feminicídio: chaga inadmissível – por Celso Tracco

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O feminicídio é a mais execrável violência baseada em gênero. Em 2025, a cada dia, 4 mulheres foram assassinadas no Brasil vítimas deste crime hediondo. A maioria dos assassinatos ocorrem pelo simples fato da vítima ser mulher, geralmente em contextos marcados por desigualdade, controle, abuso e relações de poder profundamente enraizadas na nossa sociedade. Não deve ser visto “apenas” como um crime individual, passional, mas como um fenômeno social que revela como estruturas históricas de machismo, misoginia e autoritarismo ainda moldam comportamentos contemporâneos.

No Brasil, o feminicídio foi reconhecido como crime hediondo em 2015, com punições severas. Ainda assim, os números permanecem alarmantes. A maioria dos assassinos tinha relacionamento próximo com suas vítimas. Muitas destas denunciaram agressões anteriores, o que prova que o feminicídio raramente é um ato isolado: ele costuma ser o desfecho trágico de um ciclo de violência que pode incluir agressões verbais, psicológicas, patrimoniais, sexuais e físicas. Ciclo que poderia ter sido interrompido com proteção efetiva e políticas públicas mais robustas. As raízes dessas práticas criminais estão na desigualdade de gênero, na naturalização da violência doméstica e na ideia equivocada de que o corpo, a vida e as escolhas das mulheres devem ser controladas. Combater o feminicídio exige ações em várias frentes: educação para igualdade de gênero, fortalecimento das redes de apoio, acolhimento humanizado, responsabilização dos agressores e políticas públicas que funcionem na prática, não apenas no papel.

Durante séculos a sociedade reforçou papéis rígidos para homens e mulheres, colocando o homem como figura de autoridade e a mulher como alguém a ser controlada. Essa lógica patriarcal se manifestou em leis, costumes e práticas sociais. Mesmo com avanços significativos em direitos, igualdade e autonomia, resquícios daquela mentalidade ainda moldam comportamentos que geram agressões. Mais do que estatísticas, cada caso representa uma vida interrompida, uma família devastada e uma sociedade que falhou em proteger suas cidadãs. Falar sobre feminicídio é um ato de repulsa ao que acontece em nosso país, essa prática é inaceitável sob qualquer ponto de vista.

Enfrentar o feminicídio é um dever de toda a sociedade e exige ações articuladas e contínuas, tais como: educação visando a igualdade desde a primeira infância, passando por todo o sistema educacional e pelas empresas que devem orientar seus funcionários na derrubada de estereótipos de gênero; ter efetivas redes de apoio, acessíveis a todas as mulheres, de qualquer classe social e qualquer faixa de renda; campanhas de conscientização que previnam a prática de contínuas agressões as mulheres. Acolhimento comunitário e protetivo é fundamental, a violência não deve ser vista como um tema privado, é um tema social. O que se deve pensar, não é em ações isoladas, mas tentar construir um ambiente social onde a violência seja completamente rejeitada e a vida dos mais vulneráveis respeitada, protegida e dignificada. Devemos trabalhar e atuar para impedir a banalização da violência, e não combatê-la com mais violência.

Falar sobre feminicídio é um ato político necessário. É recusar o silêncio que protege agressores e invisibiliza vítimas. É reconhecer que a violência contra a mulher não é um problema individual, mas uma responsabilidade coletiva. Construir um futuro sem feminicídio significa transformar mentalidades, fortalecer políticas públicas, tornar a sociedade mais igualitária, humanizada, solidária e, acima de tudo, reafirmar que a vida das mulheres, assim como de todo ser humano, importa e importa muito. Aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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