As discussões sobre a escala 6 x 1 levantaram questões importantes sobre o direito do ser humano de fazer uso do próprio tempo. Uma das pessoas que se posicionaram contra o direito ao descanso afirmou que esse direito se justificaria para as pessoas de maior renda, porque elas viajam nos dias de folga. Já as pessoas de baixo poder aquisitivo não deveria ter um dia a mais de descanso na semana porque, por não disporem de recursos para viajar, não teriam o que fazer com o tempo livre. Infelizmente, as redes sociais também dão espaço a esse tipo de conteúdo. Mas isso não nos impede de pensar.
Esse tipo de afirmação desconsidera que o lazer e o descanso integram o conjunto das necessidades humanas essenciais à saúde física e mental. Não são privilégios de uma classe social, pois todos necessitamos de abrigo, água, alimentação, sexo, lazer e repouso.
Inúmeras atividades, nem sempre dispendiosas, podem preencher o tempo de descanso, desde atividades culturais, esportivas e familiares até o simples ato de se permitir não fazer nada. Ler um livro, ver um filme, frequentar parques, cinemas e exposições, ir à academia, fazer exercícios ao ar livre e ter contato com a natureza são algumas possibilidades que contribuem para restaurar a saúde emocional, recuperar as forças e tornar a pessoa mais criativa e produtiva.
O domínio sobre o tempo do trabalhador pode ter uma vertente escravista, que mantinha ocupados homens, mulheres e crianças escravizados, impedindo-os de interagir com seus pares e mantendo-os afastados de qualquer forma de lazer ou diversão. Nessas condições, eles não se sentiam, nem eram, donos da própria vida. Impedidos de olhar para si mesmos e para os outros, eram privados da dimensão humana que permite refletir sobre a própria existência e sobre a vida em sociedade.
Sêneca, no livro Sobre a brevidade da vida, afirma que ninguém, em sã consciência, permite que outros invadam e roubem seus bens materiais, seu patrimônio. Em contrapartida, seu tempo, valor único que justificaria a avareza, é distribuído entre muitos e retirado de sua própria existência. Embora o filósofo se refira, nesse texto, aos excessos dos prazeres que encurtam a vida, faço aqui um destaque: o trabalho exaustivo também rouba a existência.
Fazemos campanhas para incentivar os cuidados com a saúde sem que a sociedade ofereça condições para a efetiva promoção da saúde mental. Desfrutar a vida aumenta a vontade de viver. Não há nada de errado com o ócio, tão desejado por todos. Quando ele falta, a pessoa passa a sonhar com a possibilidade de usufruir desse tempo. A pausa serve não apenas para descansar, mas também para refletir, recuperar as forças e, inclusive, tornar a pessoa mais produtiva.
Uma multidão submetida a jornadas exaustivas de trabalho fica ansiosa, perde a capacidade de se divertir, deixa de se interessar pelo próximo e compromete sua capacidade de sentir.
Viajar não é a única forma de lazer ou de aproveitar o tempo livre. A convivência familiar também pode ser uma fonte de prazer e bem-estar. Ouvir as pessoas com quem convivemos, trocar experiências, planejar a aquisição de um bem, organizar as férias da família e acompanhar a vida escolar dos filhos são experiências restauradoras, capazes de modificar a maneira como as pessoas percebem a si mesmas e seu grupo familiar.
A escala 5 x 2 não resolverá todos os problemas humanos da nossa sociedade, mas certamente poderá melhorar a qualidade dos relacionamentos.

Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.
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