Envelhecer em uma sociedade que repudia a velhice – por Dra. Vera Resende

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É desconfortável perceber que ainda existem pessoas que consideram negativa a presença de instituições destinadas ao acolhimento e cuidado de idosos em suas proximidades. Mais preocupante ainda é constatar que algumas autoridades acabam legitimando atitudes discriminatórias como essa.

A velhice não é doença. É uma etapa natural da existência humana, cuja trajetória começa no momento do nascimento. Envelhecer traz consigo experiências diversas, como serenidade, memória afetiva e amadurecimento, mas também perdas, medos e, muitas vezes, solidão. Essas questões podem se tornar ainda mais dolorosas quando o ambiente ao redor é hostil, indiferente ou negligente.

A correria da juventude faz com que muitas pessoas esqueçam que o tempo passa rapidamente. Até que, em determinado momento, percebem que o corpo já não responde com a mesma agilidade e que algumas habilidades necessárias à rotina começam a exigir mais esforço.

Os estudos em Psicogerontologia, também conhecida como Psicologia Evolutiva da Velhice, ganharam força a partir da década de 1960, especialmente em razão do aumento da expectativa de vida após a Segunda Guerra Mundial. Entre os principais desafios enfrentados pela população idosa estão a perda da atividade profissional, o enfraquecimento físico, doenças crônicas, alterações cognitivas, redução das atividades prazerosas e o medo da morte. São experiências humanas inevitáveis para aqueles que alcançam a longevidade.

Diante dessa realidade, torna-se indispensável investir na formação de profissionais preparados e na criação de políticas públicas voltadas ao cuidado dos idosos. O objetivo deve ser garantir melhor qualidade de vida tanto para eles quanto para suas famílias, favorecendo um envelhecimento mais digno e acolhido dentro das próprias comunidades.

Também é necessária uma reflexão sobre a ética do cuidado em uma sociedade marcada pelo individualismo, pela competitividade e pelo preconceito. Falta educação emocional e convivência mais respeitosa para que pessoas impacientes e agressivas aprendam a cuidar umas das outras e, consequentemente, estejam mais preparadas para lidar com as demandas da velhice.

O contexto atual de comunicação acelerada, pouca presença afetiva, mensagens curtas e respostas rápidas não pode servir de justificativa para a intolerância e a falta de respeito. Muito menos contra aqueles que chegaram antes de nós e contribuíram para a construção da sociedade em que vivemos.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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A criança que a família vê – por Dra. Vera Resende

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A infância marca um processo por meio do qual o ser humano percorre diferentes fases de crescimento e maturação biopsicossocial. É nesse período que a criança, sob os cuidados da família, se introduz na cultura, assimila códigos sociais, constrói vínculos e desenvolve sua capacidade de se relacionar com o outro. Durante esse percurso, muitas crianças apresentam comportamentos considerados desafiadores enquanto aprendem os limites do que é aceitável. Alterações no desenvolvimento psíquico podem surgir quando há rupturas na transmissão desses códigos culturais pelos adultos ou dificuldades em sua assimilação pela criança.

Essas questões alertam para o risco de se interpretar toda dificuldade infantil como incapacidade da família ou como sinal imediato de anormalidade. Muitas vezes, pais e responsáveis procuram confirmar padrões de normalidade para aliviar suas próprias angústias diante do comportamento dos filhos. Quando observamos uma criança por meio do discurso de terceiros, como pais e professores, percebemos que os relatos frequentemente estão atravessados por expectativas, desejos e frustrações dos adultos. Nesse contexto, a criança pode acabar expressando conflitos familiares por meio de sintomas emocionais ou comportamentais.

As crianças possuem recursos internos para lidar com suas próprias preocupações. No entanto, não devem ser responsabilizadas pelas angústias emocionais dos adultos. Quando os pais dificultam a comunicação de forma rígida, excessivamente crítica ou punitiva, a criança pode recorrer a sintomas físicos como forma de chamar atenção ou estabelecer contato. Em alguns casos, adoecer passa a representar uma maneira de obter cuidado diante de um ambiente emocionalmente inacessível.

Os conflitos psíquicos fazem parte do desenvolvimento humano. Eles surgem da tensão entre as necessidades internas e as exigências do ambiente e acompanham a vida emocional desde os primeiros anos. Quando não encontram espaço para elaboração, não desaparecem. Permanecem em níveis profundos da vida psíquica, mesmo que suas manifestações mais evidentes sejam negadas ou reprimidas. Alguns desses conflitos têm origem na qualidade das relações estabelecidas com os adultos. Outros decorrem da própria etapa do desenvolvimento em que a criança se encontra. Muitos tendem a ser superados naturalmente, desde que não sejam excessivamente valorizados ou cristalizados.

Independentemente da origem do conflito, compreender as circunstâncias em que ele surge e os sentimentos envolvidos permite reduzir seus impactos emocionais. Esse olhar exige que o terapeuta também considere os conflitos do próprio adulto, que frequentemente revive aspectos de sua infância ao se relacionar com a criança. Muitos pais temem lidar com sentimentos ambivalentes, como amor e irritação coexistindo ao mesmo tempo. Na tentativa de evitar frustrações ou conflitos, acabam renunciando à função parental e passam a ocupar apenas o lugar de amigos ou companheiros mais velhos.

É possível pensar em ações preventivas voltadas ao desenvolvimento infantil, mas não existe controle absoluto sobre as relações humanas. Pais e filhos se relacionam de forma espontânea e é justamente essa espontaneidade que sustenta vínculos autênticos. A prevenção deve estar relacionada à remoção de obstáculos ao crescimento emocional saudável. Toda intervenção terapêutica, educativa ou pedagógica na infância pode funcionar como medida preventiva quando favorece o desenvolvimento emocional da criança.

Pais amorosos e emocionalmente disponíveis conseguem estabelecer relações baseadas em respeito, acolhimento e limites consistentes. Por isso, é fundamental distinguir dificuldades próprias do desenvolvimento infantil daqueles quadros que assumem características persistentes e patológicas, exigindo acompanhamento psicoterapêutico.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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