Momento Decisivo para a Democracia Brasileira

0 0
Read Time:3 Minute, 27 Second

 O segundo turno das eleições, que ocorrerá no próximo domingo, representa a oportunidade de definição do rumo político, econômico e social do país. Mais do que uma simples etapa do processo eleitoral, o segundo turno é um exercício de maturidade democrática, no qual os cidadãos e cidadãs, são chamados a refletir com profundidade sobre o futuro da nação. O sistema de segundo turno foi criado para garantir que o candidato vencedor alcance uma maioria mais representativa do eleitorado. Quando nenhum concorrente obtém 50% + 1 dos votos válidos na primeira votação, os dois mais votados disputam uma nova rodada eleitoral. Dessa forma, a decisão final passa a refletir uma escolha mais ampla da população. A participação dos eleitores é um dos principais indicadores da vitalidade de uma democracia. No primeiro turno de 2026, o Brasil registrou um número de eleitores aptos a votar superior a 158 milhões de indivíduos. Porém, o comparecimento foi de aproximadamente 125,2 milhões de eleitores, correspondendo a cerca de 79% dos aptos a votar, portanto a abstenção ficou próxima de 21%. Esses números demonstram a dimensão do processo eleitoral brasileiro, considerado um dos maiores do mundo. Embora o voto seja obrigatório para parte da população, a participação da maioria da população revela o reconhecimento da importância do processo democrático e da responsabilidade individual na definição dos destinos do país. Todos os eleitores são conclamados a comparecer para exercer seu dever cívico. O comparecimento elevado reforça a legitimidade dos resultados. Quanto maior a participação popular, maior é a capacidade das eleições de refletirem a vontade coletiva da sociedade. A força da democracia não está apenas nas instituições, mas sobretudo na participação ativa dos cidadãos. O voto é um dos instrumentos mais poderosos de transformação social, pois permite que a população escolha seus representantes de maneira pacífica e legítima. Em um cenário marcado por desafios econômicos, desigualdades sociais, avanços tecnológicos e transformações globais, cada voto contribui para definir prioridades nacionais. A abstenção, por outro lado, reduz a representatividade do resultado e enfraquece o engajamento cívico necessário para a consolidação democrática.

O segundo turno costuma intensificar o debate público. É o momento em que propostas são analisadas com maior atenção e em que os cidadãos podem buscar informações de fontes confiáveis para formar sua opinião. Mais do que defender candidatos específicos, a democracia valoriza o direito de cada pessoa decidir livremente com base em suas convicções. Nesse contexto, é fundamental combater a desinformação, promover o respeito às divergências e incentivar o diálogo. A pluralidade de ideias é uma das maiores riquezas de uma sociedade democrática e deve ser preservada como um valor essencial. Cada eleição representa muito mais do que a escolha de um governante. Trata-se de uma decisão coletiva sobre os caminhos que o país seguirá nos anos seguintes. O segundo turno é, portanto, um momento decisivo para reafirmar o compromisso da população com os princípios democráticos, a participação cidadã e o respeito às instituições. A história democrática brasileira demonstra que grandes transformações ocorrem por meio da participação popular. Ao exercer o direito ao voto, o cidadão não apenas escolhe representantes, mas também reafirma sua confiança no processo democrático como instrumento legítimo para resolver conflitos e promover mudanças.

Em tempos de grandes desafios e mudanças, participar das eleições é exercer um direito conquistado e contribuir para a construção de um Brasil mais democrático, justo, solidário, inclusivo, plural, reduzindo a desigualdade social. Mais do que nunca, o futuro do país passa pelas urnas, e cada voto tem o poder de fazer a diferença. Dia 25 de outubro de 2026, o Brasil definirá seu futuro. Vote consciente. 


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Foto Marcos Oliveira/Ag. Senado

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Não há futuro sem escolas. Não há escolas sem professores.

0 0
Read Time:3 Minute, 0 Second

Dia 15 de outubro, Dia dos Professores. Uma data que nos convida a refletir sobre a extraordinária importância daqueles que dedicam suas vidas à construção do conhecimento, da cidadania e do futuro do país. Mais do que transmitir conteúdos, professores e professoras formam pessoas, estimulam sonhos, incentivam e despertam talentos, ajudam a modificar realidades opressoras em comunidades civilizatórias. As homenagens ao Dia dos Professores são importantes, mas a verdadeira valorização dos educadores deve ir além das palavras e das celebrações anuais. É necessário transformar o reconhecimento em ações concretas que proporcionem melhores condições de trabalho, dignidade profissional e qualidade de vida para aqueles que têm a missão de educar as novas gerações. A sociedade deve reconhecer que os professores, principalmente os de escolas públicas são abnegados, pois, mesmo diante das constantes dificuldades que parecem insuperáveis, seguem todos os dias, firmes em sua missão, movidos por uma força de vontade e pela convicção que a educação é o único caminho para uma transformação social, principalmente, em uma sociedade profundamente desigual.

Para mudar a atual realidade, precisamos de medidas mais urgentes, tais como a garantia de salários compatíveis com a importância social da profissão. A valorização financeira não é apenas uma questão de justiça, mas também uma forma de atrair e manter profissionais qualificados na carreira docente. Por exemplo: por que um professor de escola pública deve ganhar menos que um vereador? Outro ponto fundamental é a melhoria da infraestrutura das escolas públicas. Salas de aula adequadas, bibliotecas atualizadas, laboratórios equipados, acesso à tecnologia e ambientes seguros contribuem para um ensino mais eficiente e para melhores condições de trabalho aos educadores. A formação continuada merece atenção especial. Investir em cursos de atualização, especializações e capacitações permanentes permite que os profissionais acompanhem as transformações tecnológicas, científicas e sociais que impactam a educação contemporânea. Além das dificuldades materiais, os professores e professoras brasileiros, enfrentam muitos outros desafios sociais. Desafios que extrapolam sua função acadêmica. Eles se tornam conselheiros, orientadores, mediadores de conflitos e podem se tornar referências de apoio e acolhimento para aqueles que vivem em situações de vulnerabilidade social. Em uma sociedade que prima pela desigualdade, o professor (a), pode significar a diferença entre desistir e perseverar.

Neste Dia dos Professores, mais do que agradecer, é preciso reconhecer que os educadores da rede pública carregam sobre seus ombros uma das responsabilidades mais nobres da sociedade: formar cidadãos e cidadãs comprometidos com suas comunidades para construir um futuro mais justo, digno, solidário, igualitário. Apesar das dificuldades, eles continuam exercendo sua missão com coragem, dedicação e esperança. Valorizar os professores significa oferecer condições reais para que possam ensinar com qualidade, segurança e dignidade. Quando um país investe em seus educadores, investe também em desenvolvimento, justiça social e cidadania. Afinal, por trás de cada médico, engenheiro, cientista, artista ou trabalhador, existe sempre a marca inesquecível de um professor que acreditou no poder transformador da educação.

É fundamental fortalecer a participação da sociedade na defesa da educação pública de qualidade. Famílias, gestores, empresas e governos devem atuar conjuntamente para criar uma política pública que permita a criação de um ambiente de respeito ao essencial trabalho dos professores. Vivemos em um país onde, constantemente, vemos cortes nos orçamentos da educação pública. Muitos municípios não investem, nem o montante mínimo, estabelecido por lei, no setor educacional. A valorização do magistério não é responsabilidade apenas das autoridades educacionais, mas de toda a sociedade. Um povo só atingirá um nível digno de civilidade quanto investir mais em escolas do que em presídios. Fica a reflexão: qual é o futuro que queremos para o Brasil?

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Foto: Tomaz Silva/ABR

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Primeiro Turno confirma polarização

1 0
Read Time:3 Minute, 27 Second

O resultado do primeiro turno das eleições de 2026, confirmou que o Brasil permanece profundamente polarizado política e ideologicamente. As eleições, do dia 4 de outubro, ocorreram em um clima absolutamente tranquilo e democrático em todo país. O resultado que saiu das urnas, divulgado cerca de 4 horas após o encerramento da votação, foi uma avassaladora vitória dos partidos de direita e de centro que são oposição ao atual governo. Desta vez, não houve nenhuma contestação à legitimidade das urnas eletrônicas. Para Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) avançaram para o segundo turno. Flávio com 47% dos votos válidos e Lula com 45%.

Aqui cabe uma observação: O Brasil tem 158,7 milhões de eleitores aptos a votar. No entanto 33,5 milhões NÃO comparecerem às urnas, o que corresponde a 21,1% do número de eleitores. O total de votos brancos e nulos foi de 6,0 milhões ou 3,8% do total de eleitores registrados. Portanto o total de abstenções mais os votos nulos e brancos é de 25%, ou seja 1 em cada 4 dos eleitores brasileiros optou por não votar em nenhuma opção apresentada para o mais importante cargo da república. As explicações dos analistas políticos giram em torno do desinteresse pela política, pela falta de opção da chamada terceira via, pelo cansaço da polarização, entre outras. No entanto, é extremamente preocupante que a incipiente democracia brasileira já seja desalentadora para boa parte da população.

O resultado, do ponto de vista político, comprova uma consolidação da polarização entre o bolsonarismo e o lulismo. A ida dos dois candidatos ao 2° turno mostra que nenhum dos lados conseguiu formar uma maioria nacional capaz de vencer ainda no 1° turno. Considerando os votos recebidos pelos candidatos em relação ao número de eleitores registrados, o resultado foi 35,4% para Bolsonaro, 34,0% para Lula e 31,6% para quem optou para os demais candidatos, anulou o voto ou decidiu não votar. Tudo indica que a corrida pela presidência continuará intensa, sem um resultado previsível, pois o desânimo com a política brasileira não parece que irá diminuir.

O próximo presidente, seja ele quem for, terá muitos desafios pela frente. Menciono apenas alguns:

Do ponto de vista econômico, necessariamente terá que fazer um ajuste fiscal, organizar as contas públicas, aumentar a arrecadação sem aumentar impostos, criar um ambiente financeiro que estimule investimentos na direção de fortalecer um crescimento sustentável da economia.

Outro ponto muito importante: o próximo presidente deverá enfrentar um cenário internacional bastante conflitivo, com disputas geopolíticas em várias partes do mundo, avanços tecnológicos acelerados e não disponível para todos, dificuldades de regular empresas de tecnologia, guerras que não terminam e uma competição econômica entre as duas maiores potências do planeta. Isto exigirá do Brasil um enorme e efetivo esforço diplomático e comercial.

Na área social, as desigualdades continuam marcantes no Brasil. O país não está dividido apenas por questões ideológicas, mas também por questões socioeconômicas e essa divisão se reflete na recente votação. Infelizmente este é um problema antigo, até agora sem uma solução viável.

O primeiro turno das eleições evidenciou que o país permanece com uma intensa disputa política. Seria desejável que as diferenças políticas se limitassem dentro dos ideais democráticos e interesses individuais não deveriam se sobrepor ao bem comum. A política deveria construir a governabilidade em um ambiente civilizado, evitando possíveis crises entre os poderes constituídos. Mais do que escolher um presidente, o segundo turno será uma decisão sobre qual versão de mundo, de país, de sociedade, os eleitores brasileiros desejam para o futuro.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Foto: Rafa Neddemeyer/ABR

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
100 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Voto Consciente – Sociedade Mais Justa

1 0
Read Time:4 Minute, 12 Second

O voto é a ferramenta mais importante da democracia. Por meio dele, cidadãs e cidadãos escolhem seus representantes e influenciam diretamente os rumos do país, do estado e do município. No entanto, votar não é apenas cumprir uma obrigação jurídica. Votar é exercer a cidadania de forma responsável. A sociedade brasileira lutou muito, e de várias formas, para chegar ao atual sistema democrático. Ele certamente não é perfeito, mas é muito melhor que qualquer outro tipo de governo. A democracia precisa, e deve, ser preservada. Votar consciente é basear-se na análise das propostas, da trajetória e do compromisso dos candidatos com as reais necessidades da população. Também deve ser avaliado o inegociável apreço com a democracia e com a soberania nacional.  Ao votar de forma consciente, o eleitor e eleitora, contribuem para a escolha de governantes preparados para enfrentar os principais desafios sociais de nosso povo, que são muitos. Entre outros, destaco: o combate à fome, o investimento na educação e na saúde, a melhoria urgente no transporte público, o enfrentamento ao crime organizado com uma política eficaz de segurança pública, o acesso à uma moradia digna para milhões de famílias.

Além das questões sociais que são urgentíssimas, pois apesar de sua imensa riqueza o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo, os candidatos devem manter o compromisso de exercer seu mandato de acordo com a legislação vigente, procurando sempre atuar dentro da Constituição. É fundamental respeitar a dignidade de todos e todas, independente de raça, credo, gênero, condição social. Deve, igualmente, se orientar pelo bem comum, e não apenas para beneficiar grupos específicos, ouvindo as necessidades da população, trabalhando por uma sociedade mais justa, solidária, participativa, igualitária.

As linhas acima podem parecer estranhas, utópicas, dentro de tantos escândalos públicos que lemos e ouvimos todos os dias. Sem dúvida, não é animador saber que a população brasileira vem aumentado o descrédito a respeito de suas Instituições Públicas. Mas, devemos lembrar que a democracia, em todos os países, é um sistema político em contínua construção. Não é uma fórmula acabada, ela admite e até estimula pensamentos e visões diferentes de como se pode viver, visões essas que podem ser contraditórias. A democracia não é apenas o governo da maioria, mas também um governo onde as minorias devem ser representadas e terem voz. A convivência precisa e deve ser fraterna, operativa e respeitosa entre toda a população. O atual clima de polarização política é um desserviço à sociedade brasileira. Não devemos estimular esse imbróglio.  Afinal, de acordo com normas do Estado Democrático de Direito, os eleitos devem governar para todos, e não apenas para aqueles que o elegeram. Todos os brasileiros e brasileiras aptos a votar devem exercer seu direito constitucional, em especial os idosos acima de 70 anos, para quem o voto é facultativo. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) divulgou recentemente que o Brasil tem cerca de 17 milhões de eleitores nesta faixa etária. É uma parcela expressiva da população, com muita vivência, que deve ser ouvida.

Eleitores e eleitoras devem se manifestar através do voto. Depois não adianta reclamar de quem foi eleito ou eleita. É preciso participar e lutar para modificar o que você pensa que está ruim e pode ser melhorado. Se nós, eleitores conscientes, não participarmos e não lutarmos por aquilo em que acreditamos, outros tomarão nossos lugares e decidirão por nós. Apenas reclamar não vai adiantar.  Pratique sua cidadania, vote consciente, escolha quem você acha que pode contribuir para melhorar o futuro da sociedade brasileira. A democracia agradece. Que a eleição seja, realmente, uma festa democrática.

Evidentemente não há correlação entre o resultado da seleção brasileira e as eleições. Se aprofundarmos a pesquisa veremos que os estelionatos eleitorais, falcatruas e desmandos praticados por políticos de qualquer espectro ideológico, influenciaram muito mais as eleições do que o futebol. Até porque, há muito tempo não somos o país do futebol, já não há mais comoção quando o Brasil perde, a não ser o falso choro de jogadores multimilionários que são mais celebridades do que atletas. Também não somos mais o país do futuro. Mas somos o campeão mundial da corrupção, dos altos impostos, da desigualdade social, dos privilégios da máquina pública, dos escândalos financeiros. Isto sim é a verdadeira vergonha nacional, E somente pelo voto consciente de toda a população, poderemos expulsar esses políticos lesa-pátria de campo. Aqueles que primeiro jogam pelos seus interesses pessoais, antes dos interesses da população. E nem vai precisar do árbitro de vídeo. Aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Foto: Alejandro Zambrana/TSE

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

A violência nossa de cada dia

0 0
Read Time:3 Minute, 30 Second

Quando ouvimos a palavra violência, logo vem à nossa mente uma violência explícita, aquelas de filmes e series disponíveis nas plataformas digitais, com sangue jorrando, facadas, tiros para todos os lados, mortes em profusão. Infelizmente assaltos, assassinatos, confrontos armados entre as forças de segurança e facções criminosas estão cada vez mais presentes nos noticiários. No entanto, existe uma outra forma de violência menos visível, mas igualmente presente em nosso dia a dia. Ela se manifesta na abissal desigualdade social que nosso país vive e não consegue superar. A violência “invisível” está na fome de milhões de pessoas desassistidas socialmente, no trânsito caótico e selvagem das grandes cidades, no barulho insuportável, onde quer que se esteja, nos transportes públicos superlotados, no atendimento precário de serviços públicos. Esse tipo de violência que já está normalizada pela população, embora não deixe marcas físicas visíveis, afeta nossa saúde mental, emocional, psicológica, podendo deixar marcas profundas e duradouras.

Nossa vida comum está constantemente sendo agredida por fatos cotidianos, que, invariavelmente, levam a uma desumanização em nossos relacionamentos e comportamentos interpessoais. O silêncio tornou-se um objeto de luxo. É insuportável o som estridente de buzinas, sirenes, equipamentos de obras civis, veículos de todas as espécies e tamanhos, eventos diversos que invadem os espaços públicos. O trânsito, não apenas nas grandes cidades, é caótico. Motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres convivem em estado de constante disputa por espaço. Até mesmo deslocamentos simples, são transformados em experiências desgastantes. As cidades, que em sua maioria tiveram um crescimento desordenado, são desumanizadas. Por exemplo, raramente se encontra calçadas bem conservadas, com acessibilidade para idosos e pessoas com deficiência. Transporte insuficiente, torna a mobilidade um grande desafio. O direito de ir e vir, indispensável em qualquer manual de cidadania, acaba comprometido por obstáculos que não deveriam existir. O atendimento aos usuários de órgãos públicos, como hospitais, bancos, escolas, repartições públicas, deveriam ser muito mais humanizados, respeitar a dignidade do cidadão, cidadã, principalmente dos idosos e das pessoas com deficiência de locomoção. Quem utiliza os serviços públicos, geralmente o faz por necessidade e não por diversão e deveria ser tratado com maior solidariedade, respeito e educação possível.

A soma desses problemas cria um ambiente permanente de tensão. Nos acostumamos a viver sob pressão, desenvolvendo sentimentos de frustração, desesperança, irritação e rancor. Quando a violência cotidiana se torna normal, a sociedade perde qualidade de vida, enfraquece os vínculos comunitários e reduz sua capacidade de construir relacionamentos e comportamentos mais solidários. A falta de bem-estar coletivo também impacta a produtividade econômica e aumenta os custos com saúde pública. Não atuamos,voluntariamente, para desenvolver o bem comum. Além das, ultra necessárias e sempre atrasadas, ações governamentais, a população também pode e deve contribuir, adotando atitudes mais respeitosas no trânsito, preservando os espaços públicos, evitando a poluição sonora e exercendo a solidariedade no convívio diário. A violência nas grandes cidades não se limita à criminalidade. Ela também está presente nas pequenas agressões diárias que comprometem a dignidade, a solidariedade e a qualidade de vida das pessoas. O barulho excessivo, os congestionamentos, os transportes lotados, a mobilidade precária e as dificuldades no acesso à saúde formam um conjunto de problemas que afetam milhões de cidadãos. Reconhecer a existência dessa violência cotidiana é o primeiro passo para combatê-la. Exigir medidas e ações do poder público é um dever de toda a população que se julga afetada. Daí a importância do voto consciente em candidatos(as) que se preocupam com o bem comum. Somente por meio de um planejamento urbano, investimentos públicos e participação social será possível construir cidades mais humanas, eficientes, solidárias, justas e acolhedoras para todos. Sem violência, aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Foto de Fauzan Saari na Unsplash

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
50 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
50 %

Dia da Árvore – 21 de setembro

0 0
Read Time:3 Minute, 24 Second

O Dia da Árvore no Brasil marca o início da primavera, a mais linda das estações do ano. Porém, o Dia da Árvore, também pode ser marcado por um grande desafio de consciência e responsabilidade. Sem dúvida é um momento para refletirmos sobre a relação entre a sociedade brasileira e o meio ambiente. Em um país que abriga a maior floresta tropical do planeta, extensas áreas nos biomas do Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa, com um dos maiores volumes de água doce do mundo, a preservação da natureza deveria ser uma prioridade permanente. No entanto, a realidade mostra que ainda estamos distantes de desenvolver uma verdadeira cultura ecológica.

O Brasil, ainda enfrenta sérios desafios relacionados ao desmatamento, às queimadas, à poluição dos rios e à degradação de áreas naturais. Todos os anos, apesar de algumas melhorias ocorridas recentemente, milhares de hectares de vegetação nativa são destruídos comprometendo a biodiversidade, alterando o regime de chuvas e contribuindo para o aumento das mudanças climáticas. A perda das florestas não afeta apenas os animais e as plantas; ela ameaça diretamente a qualidade de vida e a sobrevivência da população. As árvores desempenham funções essenciais na manutenção do equilíbrio climático, na proteção dos solos e na formação dos chamados “rios voadores”, responsáveis por transportar umidade da Amazônia para diversas regiões do país. Sem a cobertura florestal, as secas tornam-se mais frequentes, a produção agrícola é prejudicada e o abastecimento de água fica comprometido.

A preservação das fontes de água doce é fundamental. O Brasil possui uma das maiores reservas de água doce do mundo, mas não é inesgotável. A destruição das matas ciliares, o assoreamento dos rios, a ocupação irregular das nascentes e a poluição causada pelo descarte inadequado de resíduos ameaçam a qualidade e a disponibilidade da água. Recuperar as áreas degradadas ao redor de rios e nascentes é um investimento no futuro, garantindo segurança hídrica para as próximas gerações.

Apesar da preocupação ambiental observada nos debates públicos, a cultura ecológica ainda não faz parte do cotidiano dos brasileiros. A preservação é vista como responsabilidade exclusiva do governo ou das organizações ambientais. Entretanto, a construção de uma consciência ecológica depende da participação de todos. Economizar água, separar resíduos para reciclagem, evitar desperdícios, preservar áreas verdes e plantar árvores são atitudes simples que podem gerar impactos significativos quando adotadas coletivamente. Embora governos e empresas possuam grandes responsabilidades, a participação da população é indispensável para promover mudanças reais e duradouras. Pequenas atitudes, como evitar o desperdício de água, economizar energia elétrica, reduzir o consumo de plásticos descartáveis e realizar a separação correta dos resíduos para reciclagem, contribuem significativamente para a proteção dos recursos naturais. O plantio de árvores e a participação em recuperação de áreas degradadas é outro fator fundamental. Árvores ajudam a melhorar a qualidade do ar, protegem os solos e contribuem para a preservação das nascentes e dos rios.

A educação ambiental é uma ferramenta essencial. Pais, professores e líderes comunitários podem incentivar crianças e jovens a compreender a importância da natureza e a adotar hábitos sustentáveis. Uma sociedade bem-informada tende a cobrar políticas públicas mais eficientes e a valorizar práticas de desenvolvimento sustentável. A participação cidadã é indispensável.

A preservação ambiental não depende apenas de grandes decisões políticas. Ela começa nas escolhas individuais e se fortalece por meio das ações coletivas. Somente com o compromisso de toda a sociedade será possível garantir a conservação dos biomas brasileiros, a recuperação dos recursos hídricos e um futuro mais equilibrado para as próximas gerações. Afinal, cuidar da natureza é cuidar da própria vida.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Foto: Rafa Neddemeyer/ABR

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Inteligência Artificial e a Desinteligência Natural

1 0
Read Time:3 Minute, 25 Second

A ministra Carmen Lúcia do STF, durante um debate na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) disse a seguinte frase: “Eu não tenho medo da inteligência artificial. Mas da desinteligência natural”. O debate sobre o acesso e uso da tecnologia digital está em alta em vários países do mundo. No Brasil não podia ser diferente. As plataformas digitais, que estão entre as empresas mais valiosas do planeta, obviamente querem o menor número de restrições possíveis. Para as “big-techs”, tudo o que é publicado pelas plataformas, caem na vala comum da “liberdade de expressão”. Para elas quem deve restringir os conteúdos é o próprio usuário. Mas, isto está mudando. Recentemente a Meta, dona do Instagram, Facebook e WhatsApp, foi condenada, nos Estados Unidos, a pagar 17 bilhões de dólares, para encerrar um processo movido por dezenas de estados americanos. Uma das acusações foi que o Facebook e o Instagram viciavam crianças e adolescentes. A Meta também se comprometeu a desenvolver e implementar uma serie de restrições ao uso de suas plataformas, por faixa de idade. Outros processos contra as empresas de tecnologia continuam a correr em outros países. Por outro lado, o relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2025, revelou que cerca de 48% dos alunos brasileiros usam Inteligência Artificial (IA) pelo menos uma vez por semana para estudar. O Pisa é realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Pessoalmente penso que a IA veio para ficar, não tem volta. E “muita água ainda vai passar por debaixo da ponte”, até que se chegue a regras que sejam aceitas e aplicáveis para todos e por todos. É inegável que a IA democratiza e facilita o acesso à informação. As ferramentas inteligentes oferecem explicações rápidas, resumos e exemplos que ajudam os estudantes a revisar conteúdos complexos. Em determinadas situações, como por exemplo, a pressão por bons resultados nos vestibulares, essa agilidade se torna um diferencial. Outro ponto que pode ser destacado é a personalização. A IA ajuda a aclarar lacunas de conhecimento e sugerem exercícios sob medida. Para alunos com dificuldades específicas, isso representa uma oportunidade de avançar no próprio ritmo, sem depender exclusivamente do tempo disponível em sala de aula. Além disso, o contato frequente com IA estimula habilidades valorizadas no mercado de trabalho, como pensamento crítico, criatividade e domínio de ferramentas digitais, competências cada vez mais valorizadas em carreiras tecnológicas e científicas.

Apesar dos benefícios, o uso indiscriminado da IA acende alertas. Professores relatam que alguns estudantes passaram a depender das ferramentas para produzir redações, resolver problemas matemáticos ou elaborar trabalhos escolares. A consequência é direta: perda de autonomia e dificuldade em desenvolver raciocínio próprio. Outro risco é a desinformação. Modelos de IA podem apresentar erros, dados desatualizados ou interpretações equivocadas. Sem checagem em fontes confiáveis, estudantes podem reproduzir informações incorretas em provas e trabalhos. A ética acadêmica também entra em pauta. O plágio, agora facilitado por textos gerados automaticamente, preocupa escolas. Muitas instituições já discutem políticas específicas para orientar o uso da tecnologia e preservar a autoria dos estudantes.

Como tudo na vida, o desejável equilíbrio, deve ser o futuro do uso da IA por todos. Educadores defendem que a IA deve ser vista com uma ferramenta de auxilio ao estudante. Ele ou ela devem usar a IA para revisar conteúdos, para pesquisas, para enriquecer seu conhecimento sobre determinado tema. Mas a leitura, a prática da escrita redacional, e o esforço intelectual continuam indispensáveis. Este artigo foi escrito com a ajuda da Inteligência Artificial. Gostou? Escreva para nós, não precisa de IA.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Imagem: Gerada por IA/Freepik

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

7 de setembro – Independência????

1 0
Read Time:3 Minute, 27 Second

A Semana da Pátria, oficialmente celebrada entre dia 1° e 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, é marcada por desfiles militares, hasteamento de bandeiras nas escolas, afirmação de identidade nacional e  diversas manifestações cívico-patriotas. Principalmente em ano eleitoral, políticos e candidatos a cargos eletivos, não perderão a oportunidade de proclamar eloquentes discursos enaltecendo a magna data. Mas, apesar das festividades cívicas, fica uma pergunta incómoda: onde está o povo na construção dos destinos da nação?  A resposta, como veremos, é desalentadora, pois a realidade histórica mostra um modelo consistente de afastamento da enorme maioria da população brasileira dos processos decisórios que moldaram o país, desde sua independência política até os dias atuais.

O “grito de Ipiranga” eternizado no quadro de Pedro Américo, denominado “Independência ou Morte” foi pintado entre 1886 e 1888 em Florença na Itália. A obra foi encomendada pelo agonizante governo imperial brasileiro para enaltecer a figura de D. Pedro I como um herói nacional. O quadro não retrata a realidade dos fatos históricos. Na prática a independência do Brasil foi um pacífico acerto familiar entre D. João VI, então rei de Portugal, e o seu filho D. Pedro. O Brasil independente nasceu preservando todas as estruturas de poder já existentes. A nobreza escravocrata, conservadora, elitista, que mantinha o poder político e econômico permaneceu intacta. O povo, majoritariamente analfabeto, escravizado e sem direitos civis, sequer foi ouvido e muito menos participou da decisão. Apesar de haver uma Constituição desde 1824, o voto, no período imperial, era apenas para quem tinha determinada soma de recursos, e, portanto, excludente. Por lei os pobres, mulheres, escravizados, libertos, estrangeiros estavam fora da vida pública.

A política brasileira, desde seu início até hoje, seguiu marcada por decisões tomadas de “cima para baixo”.  A Proclamação da República, foi outra mudança de regime político sem nenhuma participação popular. Não houve mobilização popular significativa. Não foi um movimento social amplo, foi mais um golpe militar articulado por elementos do Exército e das elites agrárias descontentes com a libertação dos escravizados, apoiados por alguns intelectuais republicanos. O povo, mais uma vez foi um mero espectador. Na República, igualmente o sistema político presidencialista não incentivava a participação popular. De 1894 a 1945, apenas homens, maiores de 18 anos alfabetizados podiam votar. O voto era proibido para mulheres e para analfabetos, lembrando que mais da metade da população brasileira era analfabeta.  Nunca foi prioridade dos governos de então proporcionar uma educação ampla e de qualidade para todos. Na verdade, as mulheres só puderam votar a partir de 1945. Após os 21 anos da ditadura militar (1964-1985), período marcado pelas restrições democráticas, uma nova Constituição foi promulgada, e o Brasil finalmente deu passos importantes rumo à participação popular. Fatos importantes tais como: voto secreto e universal, liberdade de expressão, movimentos sociais fortalecidos, conselhos de políticas públicas, são praticados pelo nossa democracia. No entanto, o desalento com a política ainda persiste, pois: há uma baixa participação popular em debates públicos; cresce a desconfiança nas instituições; não há uma educação política; é crescente a polarização que substitui o diálogo pelo conflito. Infelizmente, ainda estamos distante de uma ativa participação popular que decidi o destino da nação. .

O 7 de setembro de 1822, marcou o início formal da autonomia política brasileira, mas não proporcionou uma  independência social, econômica, cidadã. A verdadeira independência, que envolve participação popular, justiça social e uma democracia integral, ainda está sendo construída. Celebrar a Semana da Pátria é importante, refletir sobre ela é fundamental. A nação só será independente de fato quando o povo for protagonista de sua própria história.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Foto: José Cruz/Ag. Brasil

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

SESSENTA E TRÊS PAULADAS

0 0
Read Time:3 Minute, 27 Second

De acordo com notícia amplamente divulgada, um ciclista em Copacabana, Rio de Janeiro, foi acusado sem nenhuma prova, de “roubar “uma bicicleta. Ato contínuo dois seguranças particulares, e outros dois entregadores de aplicativo passaram a procurá-lo. Eles o encontraram sentado calmamente nas escadas de um prédio. Passaram a interrogá-lo e em seguida espancá-lo com pedaços de madeira e chutes, que o levaram à morte. O agredido em nenhum momento reagiu. Pelas imagens de câmeras de segurança, pode-se ver que alguns transeuntes passaram pelo local e não esboçaram nenhuma reação, nem para ajudar quem estava sendo atacado, nem para protestar sobre o linchamento. Simplesmente seguiram seu caminho, como se nada houvesse.

Deixar de indignar-se em um caso como esse, na minha opinião, é aderir à barbárie. Como, em pleno século XXI, alguém por ouvir um boato, tratar a informação como verdade e, sem perder tempo, auxiliado sabe-se lá por quem, resolve do nada, fazer justiça com as próprias mãos. No caso mataram, com crueldade, um inocente. A bicicleta pertencia à irmã da vítima. Ainda que fosse culpado, ninguém tem o direito de agredir e muito menos matar, quem quer que seja. Sabemos, infelizmente, que este não é um caso isolado. O que me leva a pensar, quão desumana é a sociedade na qual vivemos. Quando alguém deixa de ser visto como um ser humano, que tem história, família, passado, direitos, vícios, fragilidades, futuro, pode facilmente tornar-se alvo. A violência deixa de ser um ato extremo e torna-se uma reação “legitima”, na cabeça dos “justiceiros” de plantão. A verdadeira justiça não deve nascer da raiva, de uma atitude impensada, mas de um devido processo legal, fora disso o que temos é barbárie e uma banalização da violência extrema.

Refletindo o caso do ponto de vista social, os linchamentos não são pontos fora da curva, eles têm origem na ausência efetiva do Estado nas comunidades. A percepção de desconfiança nas Instituições do Estado, a sensação de impunidade, da morosidade da Justiça, da falta de segurança pública, da desinformação constante, gera um medo coletivo e insegurança. Com isso parte da população passa a acreditar na solução pela violência, muitas vezes encorajada por agentes governamentais e por notícias espetaculosas. Violência não aumenta a sensação de segurança, ao contrário gera mais violência e nesse círculo vicioso, todos saem perdendo. O linchamento por populares, mostra um problema estrutural: a segurança pública não pode ser substituída por justiçamento. A segurança pública, além do efetivo policiamento, deveria se preocupar com a prevenção, usar da chamada inteligência de todas as polícias, integrar informações, educação, conhecimento do território, políticas públicas e, fundamentalmente, direitos humanos. O linchamento, não deve ser visto como uma estatística, mas como um ato vil contra uma pessoa, que não teve oportunidade de se defender, de falar, de pedir um auxílio. Aquela pessoa, tinha nome, idade, parentes, tinha uma vida, que lhe foi arrancada de forma cruel, injusta e irreversível. A indignação não é apenas pelo crime, mas pelo absurdo de morrer por algo que não fez. A indignação também passa pelo imobilismo coletivo, incapaz de ter compaixão e, pelo menos tentar impedir que um ato bárbaro se consuma.

Temos que trabalhar por uma cultura de paz. Não, às armas. Não, à banalização da violência. Precisamos refletir o que estamos nos tornando como sociedade. Quando a justiça é trocada pela brutalidade, todos estamos em risco. Quando uma suspeita vira acusação e em seguida sentença somos todos culpados. Quando a vida não tem valor, perdemos tudo, inclusive a esperança. Indignação é justa e necessária, mas não basta. Precisamos de paz, não de guerras.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Imagem: Frame/Reprodução

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Prioridades Humanas

1 0
Read Time:3 Minute, 4 Second

Estamos a menos de dois meses de mais uma eleição. Em outubro vamos eleger Presidente da República, Governadores dos estados, Senadores, Deputados Federais e Estaduais. O resultado desta eleição popular, irá influenciar a vida de todos os brasileiros pelos próximos 4 anos. Penso que as prioridades, de qualquer plano de governo, devem ser nas áreas da Educação e da Saúde. Fundamentais para o desenvolvimento do Brasil não apenas pela visão da tecnocracia, mas, e principalmente, por serem uma necessidade humana, social e econômica que influenciará o futuro do país. Investir nessas áreas significa investir na própria capacidade do Brasil de garantir dignidade, competitividade e bem-estar para sua população. Este artigo reflete sobre esta importância sob uma perspectiva humanista, social e econômica.

A visão humanista coloca o ser humano no centro das políticas públicas. Sob essa perspectiva, Educação e Saúde não são apenas serviços: são direitos fundamentais permitindo que cada pessoa desenvolva todo o seu potencial, dignamente. A Educação amplia horizontes, possibilita novos conhecimentos, fortalece a autonomia, enseja novas e constantes reflexões, permite que indivíduos compreendam e transformem o mundo ao seu redor. A Saúde assegura aos cidadãos condições físicas e mentais para viver plenamente, trabalhar, estudar e participar da vida comunitária. Sem esses dois pilares, a promessa de cidadania plena se torna incompleta. Um país que negligencia Educação e Saúde públicas compromete a própria humanidade de seu povo. Infelizmente essa negligência é recorrente em nosso país, pois o orçamento público para Educação e Saúde, sempre é alvo de cortes.

Investir nessas áreas é uma estratégia de fortalecimento social. A Educação pública de qualidade reduz desigualdades, rompe ciclos de pobreza e amplia oportunidades reais de ascensão social. Ela cria ambientes seguros, comunidades engajadas e cidadãos mais preparados para participar da vida democrática. Do ponto de vista meramente econômico, o investimento em Educação pública é um dos mais rentáveis que um país pode fazer, pois: aumenta a produtividade da mão-de-obra; estimula a inovação e a capacidade tecnológica; atrai investimentos internacionais; reduz custos com desemprego, violência e assistência social. O investimento consistente em Educação pública produz ganhos econômicos duradouros, construindo uma base sólida de capital humano.

A Saúde pública, por sua vez, promove equidade ao garantir que todos, independentemente de renda, etnia, gênero ou região, tenham acesso a cuidados essenciais. Sistemas de saúde funcionais reduzem mortalidade infantil, ampliam expectativa de vida e fortalecem a coesão social ao diminuir disparidades regionais e socioeconômicas. Sabidamente, trabalhadores saudáveis produzem mais, faltam menos e permanecem ativos por mais tempo; um sistema de Saúde pública eficiente reduz gastos públicos com doenças evitáveis, fortalece a economia ao evitar crises sanitárias que paralisam setores inteiros, como ocorreu durante a pandemia.

Sem dúvida o Brasil enfrenta desafios históricos: desigualdade social, péssima distribuição de renda, disparidades regionais, infraestrutura insuficiente, mas também possui grandes oportunidades: um sistema de Saúde pública robusto, o SUS, que é uma referência internacional; uma rede educacional ampla que, com os investimentos adequados, podem elevar o país a novos patamares de desenvolvimento.

A decisão de investir em Educação e Saúde públicas é urgentíssima. Sob uma perspectiva humanista, é reconhecer o valor intrínseco de cada cidadão / cidadã. Sob uma perspectiva social, é construir um país mais justo e igualitário. Sob uma perspectiva econômica, é garantir crescimento sustentável para todas as classes sociais, e não apenas para os privilegiados. Portanto, quando Educação e Saúde avançam juntas, a sociedade se torna mais igualitária, integrada, resiliente, mais humanizada.

O Brasil só alcançará seu potencial pleno quando colocar o ser humano no centro de suas prioridades, e isso começa com uma Educação e Saúde públicas fortes, acessíveis e de qualidade. Pense nisso quando for eleger seus representantes.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Foto: Benjamim Sepulvida/PMB

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %
1 2 3 … 7
erro: