De acordo com notícia amplamente divulgada, um ciclista em Copacabana, Rio de Janeiro, foi acusado sem nenhuma prova, de “roubar “uma bicicleta. Ato contínuo dois seguranças particulares, e outros dois entregadores de aplicativo passaram a procurá-lo. Eles o encontraram sentado calmamente nas escadas de um prédio. Passaram a interrogá-lo e em seguida espancá-lo com pedaços de madeira e chutes, que o levaram à morte. O agredido em nenhum momento reagiu. Pelas imagens de câmeras de segurança, pode-se ver que alguns transeuntes passaram pelo local e não esboçaram nenhuma reação, nem para ajudar quem estava sendo atacado, nem para protestar sobre o linchamento. Simplesmente seguiram seu caminho, como se nada houvesse.
Deixar de indignar-se em um caso como esse, na minha opinião, é aderir à barbárie. Como, em pleno século XXI, alguém por ouvir um boato, tratar a informação como verdade e, sem perder tempo, auxiliado sabe-se lá por quem, resolve do nada, fazer justiça com as próprias mãos. No caso mataram, com crueldade, um inocente. A bicicleta pertencia à irmã da vítima. Ainda que fosse culpado, ninguém tem o direito de agredir e muito menos matar, quem quer que seja. Sabemos, infelizmente, que este não é um caso isolado. O que me leva a pensar, quão desumana é a sociedade na qual vivemos. Quando alguém deixa de ser visto como um ser humano, que tem história, família, passado, direitos, vícios, fragilidades, futuro, pode facilmente tornar-se alvo. A violência deixa de ser um ato extremo e torna-se uma reação “legitima”, na cabeça dos “justiceiros” de plantão. A verdadeira justiça não deve nascer da raiva, de uma atitude impensada, mas de um devido processo legal, fora disso o que temos é barbárie e uma banalização da violência extrema.
Refletindo o caso do ponto de vista social, os linchamentos não são pontos fora da curva, eles têm origem na ausência efetiva do Estado nas comunidades. A percepção de desconfiança nas Instituições do Estado, a sensação de impunidade, da morosidade da Justiça, da falta de segurança pública, da desinformação constante, gera um medo coletivo e insegurança. Com isso parte da população passa a acreditar na solução pela violência, muitas vezes encorajada por agentes governamentais e por notícias espetaculosas. Violência não aumenta a sensação de segurança, ao contrário gera mais violência e nesse círculo vicioso, todos saem perdendo. O linchamento por populares, mostra um problema estrutural: a segurança pública não pode ser substituída por justiçamento. A segurança pública, além do efetivo policiamento, deveria se preocupar com a prevenção, usar da chamada inteligência de todas as polícias, integrar informações, educação, conhecimento do território, políticas públicas e, fundamentalmente, direitos humanos. O linchamento, não deve ser visto como uma estatística, mas como um ato vil contra uma pessoa, que não teve oportunidade de se defender, de falar, de pedir um auxílio. Aquela pessoa, tinha nome, idade, parentes, tinha uma vida, que lhe foi arrancada de forma cruel, injusta e irreversível. A indignação não é apenas pelo crime, mas pelo absurdo de morrer por algo que não fez. A indignação também passa pelo imobilismo coletivo, incapaz de ter compaixão e, pelo menos tentar impedir que um ato bárbaro se consuma.
Temos que trabalhar por uma cultura de paz. Não, às armas. Não, à banalização da violência. Precisamos refletir o que estamos nos tornando como sociedade. Quando a justiça é trocada pela brutalidade, todos estamos em risco. Quando uma suspeita vira acusação e em seguida sentença somos todos culpados. Quando a vida não tem valor, perdemos tudo, inclusive a esperança. Indignação é justa e necessária, mas não basta. Precisamos de paz, não de guerras.

Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.
*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo
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