É comum ouvir queixas de famílias sobre dificuldades em conter e orientar crianças e adolescentes. Muitos acreditam que o problema seja exclusivo da nossa época, resultado das tecnologias e das transformações sociais. No entanto, se resgatarmos nossas próprias experiências na juventude e as compararmos às vividas por nossos pais e avós, veremos que tais desafios sempre existiram. O confronto sempre fez parte das estratégias de algumas famílias.
Tudo se tornaria mais simples se os adultos compreendessem que crianças e adolescentes não apenas acatam, mas questionam normas e regras. Isso não ocorre por desrespeito, mas pelo desejo de compreender o mundo em que vivem e as relações que o regem. As crises surgem porque eles percebem os sentimentos dos adultos e os utilizam para sustentar suas posições. Se os pais não encararem cada episódio como uma batalha, mas mantiverem o controle emocional, será possível contornar as dificuldades sem grandes dramas.
É essencial considerar tanto os sentimentos quanto as circunstâncias. Há emoções que podem trair os pais e comprometer sua autoridade, sendo a culpa a mais perigosa delas. Quando não passam o tempo que acreditam ser ideal com os filhos, muitos tendem a compensar essa ausência com concessões. Se essa atitude se repete ao longo da convivência, os jovens aprendem a se beneficiar dessa fragilidade. O mesmo ocorre em situações de guarda compartilhada, quando o adulto evita impor limites ou exigir responsabilidades para “não estragar” o tempo junto. Nesse cenário, abre-se um vácuo de autoridade que os filhos rapidamente preenchem.
Outro fator que fragiliza a autoridade parental é a insegurança em relação aos próprios valores. Pais que não estão firmes em suas convicções terão mais dificuldade para transmiti-las e para organizar rotinas familiares.
Regras são indispensáveis. Sem elas, não há coordenação possível entre os membros de uma sociedade. Deixar crianças sem regras significa arriscar que se tornem adultos egocêntricos, incapazes de dialogar e cooperar. Os limites não devem ser vistos apenas como proibições ultrapassadas. Pelo contrário, devem ser entendidos como referências positivas: situam a criança, dão consciência de seu lugar na família, na escola e na sociedade.
Atitudes coerentes reduzem resistências. Isso acontece quando o adulto é capaz de refletir sobre as normas que deseja estabelecer: ele próprio as cumpre? Considera-as justas? Elas se baseiam em princípios ou apenas expressam intolerância e preconceito?
A verdadeira autoridade se estabelece no amor e no respeito.

Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.
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