Reflexões sobre a banalização dos diagnósticos psicológicos – por Dra. Vera Resende

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Temos visto, com frequência, explicações psicológicas sobre situações sociais, violentas ou não, com clara intenção de diagnosticar possíveis patologias nas pessoas envolvidas. Parece que todos os internautas dominam teorias capazes de identificar sintomas e sinais característicos de quadros clínicos complexos que, na verdade, exigem cuidado e atenção profissional.

Muitos buscam informações duvidosas e incompletas em conteúdos divulgados por “profissionais” nem sempre da área da Psicologia, nem sempre qualificados, que descrevem comportamentos típicos de determinadas patologias sem o devido embasamento.

Não por acaso, encontramos cada vez mais pacientes jovens que chegam ao consultório com um diagnóstico pronto e mostram resistência à abordagem terapêutica, pois acreditam que já sabem o que têm e o tratamento que devem seguir. Essa nova tendência traz riscos importantes à saúde mental e emocional. Seus desdobramentos interferem na convivência familiar e, por consequência, na forma como nos relacionamos socialmente.

Um exemplo disso aparece nas distorções conceituais que transformam o ambiente familiar e os primeiros cuidados da infância em causas diretas de todos os problemas mentais. A experiência humana se desenvolve em estágios sucessivos. No primeiro deles, a infância, acontecem vivências boas e ruins que estão fora do controle da criança, pois ela ainda não possui recursos psicológicos para lidar com o que a vida lhe apresenta.

Enquanto o adulto conta com uma área de onipotência que lhe permite algum controle sobre os acontecimentos, por ter capacidade de avaliar e prever situações, a criança ainda está formando essa estrutura. Ela tenta reunir elementos externos para fortalecer o próprio ego, que ainda não é suficientemente organizado para protegê-la das ameaças. Por isso, não consegue se sentir responsável nem pelo que lhe acontece de bom, nem pelo que lhe causa sofrimento.

A criança depende do ego da mãe ou do adulto que a representa, pois é essa presença que a sustenta emocionalmente. Seu desenvolvimento avança do estágio de dependência total até a independência essencial, quando conquista a capacidade de estar só, de assumir compromissos e de sentir culpa de forma saudável. Assim, compreendemos o papel fundamental do ambiente familiar e das interações afetivas. Isso não significa que a criança não possa ser contrariada ou questionada, mas que precisa de uma base segura para aprender a lidar com o mundo e com suas próprias emoções.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Zero Hora Digital.

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Uma homenagem aos Professores – por Dra. Vera Resende

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Quem é o professor na vida de cada um de nós? E na vida dos seus filhos?

Ao compararmos as experiências escolares de diferentes gerações, percebemos uma imensa lacuna entre o período anterior às redes sociais e o atual.

As histórias que ouvíamos sobre a escola nos faziam sonhar com ela. Hoje, infelizmente, escola e professores tornaram-se, muitas vezes, alvos de críticas e desconfiança, reflexos das mesmas fragilidades que afetam toda a sociedade.

Sem a intenção de atribuir à tecnologia a culpa exclusiva pelo enfraquecimento das relações entre professor e aluno, é possível reconhecer que o uso inadequado das redes sociais tem alterado a maneira como a sociedade enxerga o papel da escola e de seus educadores.

Perdeu-se, em parte, o sentido profundo da relação professor/aluno, que antes era tecida por sonhos, expectativas, medos e descobertas levadas nas mochilas no primeiro dia de aula. A escola era percebida como um organismo vivo, um espaço que acolhia a diversidade de habilidades, limites, possibilidades e histórias de vida. Seu propósito ia além do aprendizado teórico: era um ambiente de convivência humana, respeito, pertencimento e inclusão.

A imagem da escola como espaço de crescimento e de relações saudáveis precisa ser resgatada. Como pais e como alunos, precisamos enxergá-la novamente como um lugar vivo, que pulsa e transforma. Só assim poderemos nos reconectar com o melhor de nós, despertando o desejo genuíno de viver em sociedade.

Enquanto adultos, quando levamos nossos filhos à escola, levamos também uma parte de nós mesmos: o sonho de crescer, aprender, descobrir e evoluir. Carregamos conosco a esperança de que nossas aspirações individuais possam contribuir para uma sociedade mais justa e consciente.

Que possamos, portanto, retomar o diálogo, as trocas saudáveis e o respeito mútuo. Que a tecnologia seja usada para aproximar, enriquecer o aprendizado e fortalecer a construção de um mundo mais humano, seguro e tolerante.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Autoridade e Limites – “O desafio de pais e educadores na atualidade” – por Vera Resende

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É comum ouvir queixas de famílias sobre dificuldades em conter e orientar crianças e adolescentes. Muitos acreditam que o problema seja exclusivo da nossa época, resultado das tecnologias e das transformações sociais. No entanto, se resgatarmos nossas próprias experiências na juventude e as compararmos às vividas por nossos pais e avós, veremos que tais desafios sempre existiram. O confronto sempre fez parte das estratégias de algumas famílias.

Tudo se tornaria mais simples se os adultos compreendessem que crianças e adolescentes não apenas acatam, mas questionam normas e regras. Isso não ocorre por desrespeito, mas pelo desejo de compreender o mundo em que vivem e as relações que o regem. As crises surgem porque eles percebem os sentimentos dos adultos e os utilizam para sustentar suas posições. Se os pais não encararem cada episódio como uma batalha, mas mantiverem o controle emocional, será possível contornar as dificuldades sem grandes dramas.

É essencial considerar tanto os sentimentos quanto as circunstâncias. Há emoções que podem trair os pais e comprometer sua autoridade, sendo a culpa a mais perigosa delas. Quando não passam o tempo que acreditam ser ideal com os filhos, muitos tendem a compensar essa ausência com concessões. Se essa atitude se repete ao longo da convivência, os jovens aprendem a se beneficiar dessa fragilidade. O mesmo ocorre em situações de guarda compartilhada, quando o adulto evita impor limites ou exigir responsabilidades para “não estragar” o tempo junto. Nesse cenário, abre-se um vácuo de autoridade que os filhos rapidamente preenchem.

Outro fator que fragiliza a autoridade parental é a insegurança em relação aos próprios valores. Pais que não estão firmes em suas convicções terão mais dificuldade para transmiti-las e para organizar rotinas familiares.

Regras são indispensáveis. Sem elas, não há coordenação possível entre os membros de uma sociedade. Deixar crianças sem regras significa arriscar que se tornem adultos egocêntricos, incapazes de dialogar e cooperar. Os limites não devem ser vistos apenas como proibições ultrapassadas. Pelo contrário, devem ser entendidos como referências positivas: situam a criança, dão consciência de seu lugar na família, na escola e na sociedade.

Atitudes coerentes reduzem resistências. Isso acontece quando o adulto é capaz de refletir sobre as normas que deseja estabelecer: ele próprio as cumpre? Considera-as justas? Elas se baseiam em princípios ou apenas expressam intolerância e preconceito?

A verdadeira autoridade se estabelece no amor e no respeito.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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