Racismo Estrutural, até quando? – por Celso Tracco

Racismo Estrutural, até quando? – por Celso Tracco

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Por que, oficialmente, celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra?

Uma das definições de consciência: Conjunto de valores morais que definem certos julgamentos, ações ou intenções relacionadas com alguém, ou grupo de indivíduos que tem algo em comum. Como os valores e padrões morais, culturais, artísticos, religiosos, da sociedade brasileira são predominantemente europeus e, portanto brancos, ainda hoje os valores da cultura africana, negra, são rejeitados por parte da nossa população. Depois de uma longa luta pelos seus direitos de cidadania plena, a população negra conseguiu em 2011 que o dia 20/11 fosse declarado o Dia Nacional da Consciência Negra. Em 2023, 20/11 foi decretado como feriado nacional. A data é uma homenagem à morte de Zumbi dos Palmares. São visíveis as manifestações contra este feriado, provando que o racismo, mesmo sendo um crime inafiançável e imprescritível, continua ocorrendo diariamente no nosso país. Cito dois exemplos desta semana, que viralizaram nas redes sociais: em um jogo de futebol, Avaí (SC) x Remo (PA), ocorrido em Florianópolis (SC) uma senhora branca, insultou reiteradamente, com gestos e palavras os torcedores do time do Remo, fazendo menção à condição social, pobreza, e a cor da pele deles, preta. Em outro caso ocorrido em São Paulo (SP), um pai de uma menina de 4 anos, que estuda em uma escola municipal, chamou a polícia militar porque a menina estava tendo uma “aula” sobre religião africana. E, lamentavelmente, quatro policiais armados entraram na escola infantil para verificar o ocorrido. Segundo relato, a professora explicou que a atividade não era sobre religião, mas sobre antirracismo, apresentando a cultura afro-brasileira para as crianças. No Brasil, inclusão social, seja no lazer ou na escola é caso de polícia, literalmente.

Durante 350 anos a economia brasileira dependeu do trabalho de pessoas africanas escravizadas. Em 1888, o trabalho escravo, foi oficialmente abolido por lei. Mas o que foi feito para que mais de 3 milhões de seres humanos fossem integrados à sociedade brasileira? Exatamente nada. As consequências dessa falta de política de inclusão social, apesar de terem melhorado recentemente, repercutem ainda hoje. A população preta e parda, é a que possui os mais baixos índices de empregos de qualidade, de salário, de renda, de ascensão social. Em contrapartida é a que mais é morta pelas forças policiais, e representa a maioria da população carcerária. Cabe uma reflexão: o Brasil tirou, por lei, a escravidão da sua sociedade, mas será que a sociedade tirou a escravidão dela mesma? Parece que, para uma parte da sociedade, ainda não. Na história humana, não foi o racismo que criou a escravidão, mas no Brasil a escravidão criou o racismo. E ele se tornou estrutural, faz parte do nosso dia a dia, e as atitudes racistas são normalizadas. Ocorrem em estádios de futebol, shows, empresas, supermercados, condomínios familiares, em qualquer lugar, vemos e ouvimos relatos de atitudes racistas. Pergunto: quando uma pessoa branca pensa em uma empregada doméstica, um gari, lavador de carro, ou um segurança particular, será que ela pensa em uma pessoa de origem europeia? Ou de origem africana?

As políticas públicas são reflexo das pressões vindas da sociedade, uma vez que vivemos em um estado democrático e nossos representantes são eleitos por essa mesma sociedade. A Câmara dos Deputados, o Poder Legislativo por excelência, tem apenas 27% de representantes pretos ou pardos. No entanto, pretos e pardos compõem 56% da população. Não é de estranhar que o Dia Nacional da Consciência Negra, ainda desagrade a tanta gente. A cultura negra faz parte da identidade brasileira, não deve ser apagada.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal.

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