Em 9 de novembro de 1889, a agonizante monarquia brasileira organizou um baile em homenagem aos oficiais do navio chileno Almirante Cochrane. Um baile grandioso, um exagero de comidas e bebidas sem limites, para mais de 4.000 participantes, amigos da Corte, entre convidados e penetras. Ocorreu na ilha Fiscal, na baia da Guanabara, pois lá se localizava a sede da alfândega, onde se arrecadava dinheiro (impostos sobre importação e exportação) para o Erário Público. O nome do navio chileno era em honra a um mercenário escocês, Thomas A. Cochrane, que vendeu suas habilidades navais para as incipientes marinhas do Brasil e do Chile no período da independência política desses países. A ilha antes da construção da Alfândega era conhecida como a ilha dos Ratos. Seis dias após o baile, a monarquia terminou. (cf. GOMES, Laurentino, 1889, ed. Globo). Como último ato público de um regime moribundo, a monarquia, gastou dinheiro do contribuinte com uma dispendiosa festa, para homenagear marinheiros de um outro país, cujo nome do navio era de um estrangeiro mercenário e oportunista. Creio que a ilha deveria continuar se chamando Ilha dos Ratos.
O regime político mudou, desde 1889 o Brasil é uma República, mas a essência do baile e dos ratos, segue atual. Recentemente, políticos postaram nas redes sociais que antigos correligionários, todos eleitos democraticamente, “agiam como ratos e oportunistas”, ou seja, o desprezível roedor, que aliás se reproduz em escala exponencial, continua designando os “inimigos e opositores” de ocasião. Ratos também são conhecidos pelo seu voraz poder de destruição. Estamos vendo, dia sim e outro também, maus políticos e “servidores” públicos delapidando o erário público em “bailes” diários cada vez mais dispendiosos. E o povo como fica? Ele, em geral, apenas entra para pagar a conta. Isso pode mudar? Há várias respostas para essa pergunta. Arrisco algumas:
- Golpe de Estado e intervenção militar. Hipótese bastante discutida recentemente. Rasga-se a Constituição Federal e começamos de novo. Obviamente que isso não daria certo. A história mostra que, nos quase 136 anos de República, houve vários golpes de estado, além de tentativas fracassadas. Isto nunca levou a uma necessária transformação social. No início pode-se ter uma sensação de melhora no ambiente político. Mas, passado algum tempo, tudo volta ao “normal”. Não creio em solução de força bruta.
- Eleger os “líderes” carismáticos de plantão, os salvadores da pátria, os que tem a certeza de resolver todos os nossos centenários males. Não importa a ideologia política, o importante é vender ilusões, uma vez eleito tudo será diferente. Não creio em “salvadores da pátria”.
- Tentar algo novo. As mudanças que transformam se iniciam com novas ideias e ideais. Nunca devemos renunciar à democracia, mudanças devem ser feitas pelo voto. Apenas pelo voto. Votar em candidatos íntegros, comprometidos com as reais necessidades do povo. Tais como: investir em educação básica de qualidade; priorizar a redução da escandalosa desigualdade social; trabalhar por taxa de crescimento econômico sustentável, legislar por uma economia baseada na transição ecológica, implementar reformas que levem a um equilíbrio fiscal justo e duradouro.
Posso ter a certeza de que esses candidatos, se eleitos, vão fazer as ações que o país precisa? Não, não posso. Mas tenho certeza de que se o povo for realmente opinativo, vigilante e cobrar ações de seus candidatos, podemos entrar em uma nova era de prosperidade. Caso contrário, permaneceremos sendo o país do déficit fiscal e o “baile” continuará para a alegria dos “ratos” oportunistas.

Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.
*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Zero Hora Digital.
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