Zé Roberto – apenas o maior nome do vôlei brasileiro

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José Roberto Guimarães é uma lenda viva do esporte brasileiro. Paulista de Quintana, pequena cidade perto de Marília, Zé Roberto, como é mundialmente conhecido, ajudou a popularizar o voleibol como um dos maiores esportes nacionais. Entre tantas façanhas, ele é o único treinador do planeta que conquistou 3 ouros nos jogos olímpicos com as seleções masculina (Barcelona – 1992) e feminina (Pequim – 2008 e Londres – 2012). Conheça um pouco mais da vida deste grande esportista brasileiro.

Como um garoto do interior paulista chegou ao topo do mundo

Sua trajetória começou aos 6 anos de idade quando sua família se mudou da pequena Quintana para a megalópole São Paulo. Sua infância e adolescência na grande cidade foi marcada por dificuldades, simplicidade e muito trabalho. Sua ligação com o esporte vem de família, seu pai foi jogador de futebol profissional pelo Marilia Atletico Clube, mas não seguiu na carreira, atendendo aos desejos de sua esposa dona Bethe. Aos 12 anos a família Guimarães se mudou para Santo André onde sua longa e bem-sucedida história de amor com o voleibol teve início. (cob.org.br). Nas palavras de Zé Roberto:

“Eu tive a sorte de estudar num colégio de periferia em Santo André, na vila Pires, onde meu professor de Educação Física, Valderbi Romani, era técnico do time da cidade, o Randi Esporte Clube. Posteriormente, ele a viria ser o técnico da seleção olímpica de 1972. Mas eu não queria saber de jogar vôlei. Eu gostava mesmo era de futebol”. Mas os deuses do esporte tinham outros planos para o jovem Zé Roberto e encarregaram cupido para entrar em ação. A paixão pelo vôlei começou pelas mãos de sua namorada. “Eu me apaixonei por uma jogadora de vôlei da escola e comecei a namorar com ela. Passei a assistir os treinos, a catar bola e dar os meus primeiros toques, um amigo meu me viu tocando na bola e falou para eu fazer um teste no time da cidade. Nesse teste conheci meu primeiro treinador, o Lázaro de Azevedo Pinto, que também era técnico da seleção das categorias de base. Esse cara foi quem me ensinou a amar o esporte, a gostar do que eu fazia. Ele foi com a minha cara e, no primeiro treino, já falou que iria me inscrever no Campeonato Paulista. Um mês depois, já estava disputando meu primeiro jogo com a camisa do time. Dois meses mais tarde já jogava na categoria de cima. Ele fez com que eu me apaixonasse de tal jeito pelo vôlei que me levava para todas as competições. Ele me colocou debaixo do braço e saiu comigo pelo mundo, me dando força, me ajudando. Eu não fazia a menor ideia de que eu tinha talento para o vôlei”.   

E como tinha e ainda tem talento para o vôlei e para a vida! Nas categorias de base, com 14 anos foi convocado para a seleção paulista na posição levantador, que é o cérebro de uma equipe de vôlei, ele é o que passa a bola para o atacante fazer o ponto. Ainda como juvenil foi convocado para a seleção brasileira e sua ascensão não parou mais. Com 18 anos, em 1972 foi pela primeira vez convocado para a seleção adulta, onde atuou por 16 anos. Neste período o vôlei brasileiro era amador, os jogadores tinham que ganhar a vida de outra maneira, ou a família tinha que assumir seus compromissos financeiros. A dedicação ao vôlei era por pura paixão ao esporte e para quem podia se sustentar por conta própria. Consequentemente o Brasil não conseguia, internacionalmente, resultados marcantes. Digno de registro foi o 7° lugar obtido nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976 e campeão sul-americano em 1975 e 1977. Mas isso não diminuiu a vontade e a paixão de Zé Roberto pelo esporte, pelo contrário, sentia que essa situação iria mudar e ele queria fazer parte dessa mudança. Defendeu a seleção brasileira principal entre 1972 e 1981.  Viveu a transição para o profissionalismo que resultou na chamada geração de prata, alusão ao vice-campeonato olímpico obtido em Los Angeles-1984. Seguiu atuando por vários clubes no Brasil, como Pirelli, Atlético Mineiro, Banespa, Paulistano e na Itália no Belluno até 1988, quando encerrou sua carreira como jogador, sempre atuando como levantador. Fato curioso relatado por ele próprio: seus pais ficaram muito desapontados, quando decidiu e comunicou que iria fazer faculdade de Educação Física, pois seus genitores gostariam que ele cursasse Medicina ou Engenharia, profissões muito mais valorizadas, na época, do que a de esportistas, jogadores ou treinadores. O amor era grande, mas o retorno financeiro era pouco, quando existia. Zé Roberto se formou em Educação Física e isso foi fundamental quando decidiu encerrar sua carreira de jogador e começar a de técnico de vôlei.

Zé Roberto começou sua vida na beira das quadras, logo após deixar de ser jogador. Em 1988 recebeu um convite para atuar como assistente técnico de Bebeto de Freitas, reconhecido técnico que comandou a “geração de prata” em 1984 quando o Brasil conquistou a medalha de prata com a seleção masculina de vôlei. Zé Roberto, sabia que um bom aluno, além de ter um bom professor tem que ter humildade para obter conhecimento. Passou dois anos vendo, ouvindo, trabalhando, absorvendo as palavras de seu mestre. Declarou “Era minha chance de trabalhar com um dos maiores técnicos do mundo. Eu só queria aprender. E essa experiencia, o fato de estar ali, podendo ouvi-lo, no café da manhã, no almoço e no jantar, nos treinamentos… eu só ficava com a mão no queixo, ouvindo o Bebeto e o Jorge de Barros falando e tentando absorver. Eu pensava se um dia eu iria saber de voleibol como eles, se conseguiria montar um planejamento e escrever como eles. Era muito distante o mundo que eles estavam vivendo. Eu tinha muita vontade de aprender, de estar ali, mas não desejava estar no lugar deles. Estar ali com eles era o máximo. Foram dois anos de aprendizado.”

E Zé Roberto aprendeu, e aprendeu tanto que superou seus mestres, tornou-se o técnico brasileiro de esportes coletivos, mais laureado e certamente um dos maiores do mundo. Em 1991 assumiu as seleções infanto e juvenil femininas. E no ano de sua estreia, as duas categorias se sagraram vice-campeãs mundiais. A sub-17 perdeu para a Coreia e a Sub-19 para a Rússia, países com tradição no voleibol. Sua estrela já estava brilhando, quando no ano seguinte foi convocado pela Confederação Brasileira de Voleibol para ser o técnico da seleção masculina que iria disputar os Jogos Olímpicos de Barcelona. Depois de uma natural hesitação em aceitar o convite, afinal era sua primeira experiencia como técnico da seleção adulta masculina e já havia muita “cobra criada” entre os jogadores, Zé Roberto encarou o desafio levando para a quadra o que tinha de melhor: sua paixão, seu amor; sua grandeza de caráter, sua dedicação, sua humildade, sua entrega ao esporte. O grupo todo se contagiou, como deve ser em qualquer esporte coletivo, principalmente em uma competição de altíssimo nível, todos lutaram por um único objetivo. E ele foi conquistado. O Brasil finalmente havia ganho sua primeira medalha olímpica de ouro em um esporte coletivo. Pelas mãos de José Roberto Guimarães, finalmente o vôlei brasileiro subiu ao mais alto degrau do pódio. A bandeira do Brasil acima das demais, e a execução do Hino Nacional, ainda que não por inteiro, completaram o quadro inesquecível para todos os que viveram aquele momento mágico. Aos 38 anos de idade, o menino de Quintana havia alcançado o topo do mundo. Mas como todo grande vencedor, sabe que a vitória não é apenas do comandante, mas de todos os componentes da delegação. Especificamente, Zé Roberto reconheceu e agradeceu a enorme contribuição que Bebeto de Freitas teve em sua carreira. Durante a disputa dos jogos, em Barcelona, tinha constantes conversas com Bebeto, sempre querendo se aperfeiçoar mais e mais, em todos os aspectos possíveis. Fiel ao seu mantra: ninguém ganha nada sozinho.                              Zé Roberto permaneceu como técnico da seleção masculina até 1996, quando se despediu e desempenhou outras atividades em esportes fora do vôlei.

Voltou em 2003 para o vôlei feminino e iniciou mais um ciclo vitorioso em sua vida. Assumindo a seleção feminina adulta em preparação para os jogos olímpicos de Atenas em 2004, onde aconteceu, talvez a maior derrota de sua super vitoriosa carreira. O Brasil perdeu, de virada, a semifinal para a Rússia por 3 sets a 2. O Brasil saiu ganhado os dois primeiros sets, perdeu o 3°, mas no 4° que entrou em quadra a “imponderável possiblidade”. Após fazer 24 a 19, ou seja, faltando “apenas” um único ponto, o time brasileiro perdeu 5 “match-point” e a Rússia fechou o set em 28 a 26. Zé Roberto tentou o que podia, pediu tempo, parou o jogo, fez substituições, mas nada adiantou, perdemos também o 5° set. “Atenas foi devastadora. A nossa seleção era muito boa. Tivemos tudo na mão para vencer aquele jogo. Mas esporte é assim. Se jogássemos aquele jogo dez vezes, teríamos talvez ganhado oito. Mas naquele dia não era para dar certo”. Declarou a futura bicampeã olímpica Fabiana Claudino. O abalo foi muito grande, o time não se recuperou e perdeu a disputa do 3° lugar. Em Atenas o vôlei feminino voltou sem medalha. Zé Roberto, de acordo com seu inigualável caráter, se sentiu culpado pelo que aconteceu, e obviamente isso não era verdade. Incorporou que tinha que trabalhar mais, pesquisar mais, saber mais e principalmente precisava se reerguer. “O time ficou com o estigma de amarelar em momentos decisivos, pois mesmo ganhando várias competições a gente perdia uma ou outra na final. A gente perdeu o Mundial de 2006 para a Rússia por 3 a 2, com 15 a 13, por dois pontos. Vinha aquela coisa: “perderam o Mundial para Rússia de novo. “Bando de amarelonas”. Depois a gente ganhava Grand Prix, Montreaux, mas nos Jogos Panamericanos de 2007, perdemos para Cuba de 3 a 2, com 17 a 15 no tie break. “Bando de amarelonas”. A gente tinha 80% de vitórias no nosso currículo, em quatro anos, mas aí tinha uma ou outra derrota pontual, e vinha à tona aquela derrota de Atenas. Até que veio Pequim”.  No esporte, como na vida, se valoriza quem vence. No Brasil, um país onde nem a educação é prioridade, o que dizer do esporte. O Brasil nunca foi e ainda não é, apesar de ter melhorado muito sua infraestrutura e apoio ao esporte, uma potência olímpica. E aqueles que se destacam em um longo período, tem que se reinventar constantemente, demonstrando muita capacidade, resiliência e foco em sua atividade. Mais uma vez, Zé Roberto mostrou tudo isso e muito mais ao mundo. Incentivou um maior intercambio com as principais equipes do mundo, maior conhecimento das adversárias, maior número de jogos internacionais, melhor preparação física das jogadoras, além de maior conhecimento da parte hormonal, saúde mental, e técnicos brasileiros treinando times europeus. Zé Roberto tinha a convicção do que estava fazendo e os quatro anos de trabalho deram resultados inquestionáveis: o time feminino de vôlei do Brasil foi medalha de ouro em Pequim (2008) e Londres (2012). As “amarelonas” enterram o estigma de Atenas. Agora o amarelo, combinando com o verde, azul e branco representava puro ouro. O vôlei feminino brasileiro era bicampeão olímpico e Zé Roberto o único treinador brasileiro que conquistou o tricampeonato. “A única coisa que pensei foi ajoelhar e agradecer a Deus por ter saído daquela situação, eu não pensei em mais nada. Foi o título mais complicado, o mais suado, o mais complicado”. Descreve o humilde, incansável e vencedor Zé Roberto que evita supervalorizar seus feitos. Ao contrário é muito agradecido ao COI (Comitê Olímpico Brasileiro) por ter incluído seu nome no Hall da Fama. “Estar no Hall da Fama do COI é o significado máximo daquilo que eu sonhava quando era criança, adolescente, quando comecei a praticar esporte e nem imaginava que pudesse chegar, um dia, a estar pertencendo a este mundo. Por isso minha gratidão”.  José Roberto Guimarães mais do que um esportista mundialmente reverenciado é um ser humano com valores que serve de exemplo para todos nós.

Zé Roberto e suas paixões além do vôlei: família e sua relação com Barueri

José Roberto é casado com a empresária Alcione Guimarães há mais de 40 anos. O casal tem duas filhas Anna Carolina e Maria Fernanda e cinco netos. É totalmente dedicado à família, declaradamente seus maiores amores. A família Guimarães leva uma vida familiar discreta, longe dos holofotes e das badalações. Esposa e filhas trabalham com o esporte, sempre ligadas aos projetos desenvolvidos pelo Zé Roberto.  Alcione muito mais do que esposa é sua companheira de vida. Ela é a voz feminina que interage, atua, explica, aconselha, quem trabalha há décadas com um time feminino de vôlei. Pode-se imaginar que não é fácil. Zé Roberto em sua peculiar humildade soube reconhecer que precisa de uma equipe de auxiliares do mais alto gabarito, para continuar a se manter no topo. Ninguém faz nada sozinho, seu mantra continua ecoando nas quadras e na sua vida. Alcione tem uma grande parcela de responsabilidade nisso tudo e principalmente na estreita ligação da família Guimarães com a cidade de Barueri. Barueri foi a cidade que escolheu para viver há mais de 30 anos. Construiu um Centro de Treinamento (SportVille) inaugurado em 1994. Desenvolve um programa de formação de jogadoras para as categorias de base, usando a estrutura do CT e toda a logística que a prefeitura de Barueri oferece. Segundo, Zé Roberto, Barueri possui uma das melhores estruturas físicas esportistas do país, com um ginásio que comporta uma lotação de 5.400 espectadores. Zé Roberto também destaca que a população sempre comparece para dar apoio e incentivo aos jogos. Um dos projetos que participou foi a criação do Barueri Volleyball Clube iniciado em 2016 com quatro categorias, sub 17, sub 19, sub 21 e adulta.  Este seu trabalho durou até 2023, quando se transferiu para a Turquia, treinando um clube de Istambul denominado THY, entre 2024 e 2025. Voltou para a Barueri retomar o projeto do vôlei Barueri agora com a parceria do tradicional Clube Paulistano. Zé Roberto é o grande condutor deste projeto que visa revelar jogadoras de vôlei.  O vínculo com Barueri nasceu de algo maior que uma simples parceria esportiva. Para ele, Barueri se tornou um projeto de vida, onde pode unir sua paixão pelo vôlei ao desejo de formar atletas, desenvolver talentos e criar uma estrutura sólida para o esporte feminino. O município por sua vez, encontrou no Zé Roberto uma figura capaz de trazer visibilidade, profissionalismo e ambição esportiva. A relação se fortaleceu porque o técnico vencedor e a cidade empreendedora, buscavam algo em comum: crescimento sustentável, oportunidades para os jovens e protagonismo nacional.

Ao mesmo tempo continua como técnico da seleção brasileira feminina de vôlei.  Desenvolver e revelar atletas é sempre um motivo de muito orgulho para Zé Roberto. Barueri Vôlei é um espaço de formação e revelação de atletas, muitas jovens encontram no clube sua primeira oportunidade profissional. Sua preocupação social é que as jogadoras tenham oportunidades para progredirem na vida, através do esporte, que é uma ferramenta de transformação social. Treinamento rigoroso, acompanhamento psicológico, incentivo ao estudo, ajudam a formar o caráter dentro ou fora do esporte. ou fora dele.  O legado de José Roberto Guimarães ultrapassa e muito toda a grandiosidade que ele conquistou como técnico de vôlei, deixa um ensinamento para a vida, pela sua disciplina, foco em resultados, lealdade, espírito comunitário, e principalmente humildade.

Parabéns, José Roberto Guimarães, pelos 60 anos de sua vida, dedicados ao voleibol brasileiro e que sua vocação de transformar vidas através do esporte perdure por muito tempo.

*Este texto foi escrito com base em informações de www.cob.org.br ; vivadigitalsa.com.br; wikipedia José Roberto Guimarães

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Foto: Wander Roberto/COB

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