A sobrecarga que ninguém vê e que adoece tantas mulheres – por Dra. Vera Resende

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Ao reconhecer que múltiplos fatores contribuem para a deterioração da saúde mental da mulher, percebemos que este não é um tema que possa ficar esquecido em arquivos, retomado apenas ocasionalmente. O bem-estar de uma sociedade depende da saúde integral de seus membros. Trata-se de uma questão de ecologia humana, que envolve equilíbrio emocional e relações saudáveis entre as pessoas.

É fundamental que todos estejam atentos ao problema para que ele seja compreendido em seus vários aspectos e para que os cuidados necessários possam ser discutidos, avaliados e transformados em responsabilidade coletiva. Somente assim políticas públicas efetivas poderão ser construídas.

Entre os fatores mais citados como responsáveis pela quebra do equilíbrio emocional feminino, destaca-se um ponto crítico que exige mudanças profundas na mentalidade da sociedade como um todo: a sobrecarga de tarefas que recai sobre as mulheres. Essa sobrecarga se mantém na forma como se concebe a família e, por consequência, na visão sobre os papéis de homens e mulheres, historicamente definidos.

Apesar de já ser possível perceber mudanças nas relações conjugais, com casais que dividem tarefas domésticas e responsabilidades com os filhos, ainda persiste grande volume de demandas dirigidas à mulher. Essas cobranças são impulsionadas por expectativas sociais sobre o papel feminino, expectativas que continuam vivas no imaginário coletivo. O quadro se agrava porque muitas mulheres, mesmo sem intenção, também reforçam esse imaginário.

Como isso acontece?

Mulheres em posições de liderança podem, por vezes, esquecer o quanto é difícil conciliar trabalho e responsabilidades domésticas. Não é incomum ouvir queixas de falta de empatia ou apoio quando mulheres respondem a outras mulheres em ambientes profissionais. Sendo um problema social, seria desejável que aquelas que ocupam postos de comando contribuíssem para repensar modelos de trabalho e apoiar iniciativas como estruturas adequadas de acolhimento infantil.

Além disso, ainda é frequente que mulheres critiquem outras mulheres que trabalham fora, como se o exercício profissional representasse abandono dos filhos. O zelo excessivo pela manutenção da casa costuma ser mais cobrado por amigas e parentes do que por outras pessoas. O mesmo ocorre com expectativas relacionadas à aparência. Essas exigências acabam sendo internalizadas, levando muitas mulheres a se autocriticarem e se exigirem perfeição e disponibilidade em todas as áreas da vida.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Saúde mental feminina e sobrecarga emocional de mulheres – por Dra. Vera Resende

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Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que mais da metade dos brasileiros considera a saúde mental o principal problema de saúde do país. Entre as mulheres, esse número é ainda maior. Esses índices convidam a refletir sobre os fatores que contribuem para tamanha vulnerabilidade emocional.

A saúde mental feminina é atravessada por múltiplos elementos. Há uma articulação complexa entre aspectos biológicos, papéis sociais e experiências de vida. Mesmo com transformações significativas na sociedade, a mulher permanece submetida à chamada tripla jornada. A rotina envolve responsabilidades profissionais, cuidados com os filhos, gestão da casa e, muitas vezes, a função de apoio emocional da família. Essa sobrecarga não é apenas física. É psíquica.

Além disso, é frequente que essas exigências venham acompanhadas de situações de violência de gênero em suas diversas formas, como críticas recorrentes, desqualificação, desrespeito e pressões que fragilizam sua autoestima. A expectativa social de que a mulher consiga manter o controle de tudo, de maneira impecável, apenas intensifica seu sofrimento.

Cuidar da saúde mental das mulheres exige reconhecer suas especificidades e promover ações que favoreçam acolhimento, acesso a serviços qualificados e políticas públicas que sustentem essa demanda. Também é necessário desconstruir a ideia de que a mulher precisa corresponder a padrões irreais de desempenho, estabilidade emocional e disponibilidade constante.

A construção de um ambiente mais saudável passa pela mudança cultural e pela consciência coletiva de que nenhuma mulher deve carregar sozinha aquilo que pertence a toda a sociedade.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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