Do mundo infantil para o universo feminino

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A mãe de uma menina se diz preocupada com alguns hábitos de sua filha, diante dos quais se sente impotente por não conseguir modificá-los. Considera-os uma evolução precoce da vaidade feminina, pois a garota se mostra “fixada” em marcas de produtos caros para pele, cabelo e unhas, prefere escolher pessoalmente suas roupas e revela preocupação excessiva com seu visual ao sair com os pais, parentes ou amigas. A menina prefere passear nos shoppings a atividades ao ar livre e frequenta salões de beleza para fazer “luzes” e esmaltar as unhas. Recentemente, provocou uma crise em seu aniversário porque desejava que a comemoração fosse realizada em um spa, tal como a colega da escola havia feito. Idade da criança: 10 anos.

Este episódio convida a refletir sobre, pelo menos, três temas que não se excluem mutuamente, porque estão interligados pela questão da educação de limites e liberdade: o lugar da infância na sociedade e a perda da autoridade parental diante das dificuldades para impor limites.

A cultura consumista sempre estimulou a precocidade da vaidade feminina. Cabe à família proteger seus filhos de um processo de adultização que se inicia de forma inocente, mas pode contribuir para estratégias de erotização da imagem.

A velocidade com a qual se difundem as informações promove transformações sociais que talvez nos façam esquecer que o desenvolvimento humano requer respeito a etapas sucessivas e preciosas, cuja ultrapassagem pode antecipar a instauração de atitudes e condutas, com prejuízo ao desenvolvimento da personalidade.

Para viver em sociedade, é necessário aprender a adiar ou sacrificar prazeres imediatos e renunciar a impulsos instantâneos. Promover essa educação não é tarefa fácil na sociedade moderna e requer o exercício da autoridade parental.

Ao retroceder no tempo, esta mãe resgata sua própria infância e seus hábitos aos 10 anos. Ela recorda que só brincava, estudava e cuidava de sua higiene corporal, vestia-se e alimentava-se de acordo com a orientação materna. Indaguei sobre eventuais atitudes de sua mãe caso exibisse os mesmos comportamentos de sua filha hoje. Ela foi categórica: jamais sua mãe concordaria.

Neste ponto, questiono: o que mudou? Há um tênue limite entre vaidade infantil e adultização, cabe aos pais proteger e orientar seus filhos


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Não se culpe por não celebrar o Dia das Mães – por Dra. Vera Resende

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Chegamos a maio e, com ele, mais uma data comemorativa que costuma devolver muitas pessoas aos seus dilemas. Celebrar ou não o Dia das Mães pode ser algo inquestionável para a maioria, mas, para outras, essa data é atravessada por dor. Nem sempre isso acontece por perda. Em muitos casos, vem do reconhecimento de que a pessoa que as colocou no mundo não é merecedora de homenagens. Por isso, surgem a culpa e os sentimentos ambíguos. De um lado, a obrigação de amar a mãe idealizada. De outro, a incerteza provocada pela raiva e pelo ressentimento.

A maternidade não cura distúrbios emocionais, nem transtornos de personalidade ou questões de caráter. Pessoas com sofrimento psíquico ou imaturidade emocional, quando não cuidam da própria saúde mental, podem perceber o agravamento desses aspectos após terem filhos.

Muitas mulheres se tornaram mães sem desejar, seja por pressão social, seja por falta de escolha. Em alguns casos, acabam descarregando suas frustrações nos filhos. A diversidade de perfis maternos rompe a ideia de que toda mulher é incapaz de cometer injustiças. A tendência de enxergar os filhos como extensão de si mesmas pode limitar o desenvolvimento e a autonomia deles. Assim, tornam-se controladoras e manipuladoras, gerando sofrimento.

Há também quem utilize a maternidade como instrumento para atender aos próprios interesses. Nesses casos, constroem narrativas distorcidas, recorrem à chantagem, culpam os filhos por erros que não lhes pertencem e desvalorizam conquistas quando eles buscam autonomia. Em situações mais graves, podem recorrer a abusos verbais ou físicos para impor autoridade, justificando comportamentos apenas pelo papel materno.

Outros perfis incluem mães que promovem abandono emocional, priorizando vícios ou interesses pessoais, e aquelas que competem com os próprios filhos, rivalizando com sua juventude ou sucesso. Esse tipo de dinâmica cria ambientes de sabotagem e invalidação.

Trata-se de um tema sensível. O tabu social em torno da maternidade sustenta a ideia de que toda mãe é sagrada, colocando todas sob uma mesma imagem de devoção. Com isso, filhos que se afastam costumam ser rotulados como ingratos, enquanto suas histórias de dor são desconsideradas. No entanto, mulheres têm falhas humanas que precisam ser reconhecidas, não negadas. Esse reconhecimento é parte do amadurecimento emocional.

Filhos e filhas têm o direito de não comemorar o Dia das Mães sem carregar culpa. Também têm o direito de estabelecer limites diante de relações abusivas. Considerar a própria história e as cicatrizes vividas contribui para preservar a saúde mental, o que importa mais do que sustentar aparências em uma data comemorativa.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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A sobrecarga que ninguém vê e que adoece tantas mulheres – por Dra. Vera Resende

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Ao reconhecer que múltiplos fatores contribuem para a deterioração da saúde mental da mulher, percebemos que este não é um tema que possa ficar esquecido em arquivos, retomado apenas ocasionalmente. O bem-estar de uma sociedade depende da saúde integral de seus membros. Trata-se de uma questão de ecologia humana, que envolve equilíbrio emocional e relações saudáveis entre as pessoas.

É fundamental que todos estejam atentos ao problema para que ele seja compreendido em seus vários aspectos e para que os cuidados necessários possam ser discutidos, avaliados e transformados em responsabilidade coletiva. Somente assim políticas públicas efetivas poderão ser construídas.

Entre os fatores mais citados como responsáveis pela quebra do equilíbrio emocional feminino, destaca-se um ponto crítico que exige mudanças profundas na mentalidade da sociedade como um todo: a sobrecarga de tarefas que recai sobre as mulheres. Essa sobrecarga se mantém na forma como se concebe a família e, por consequência, na visão sobre os papéis de homens e mulheres, historicamente definidos.

Apesar de já ser possível perceber mudanças nas relações conjugais, com casais que dividem tarefas domésticas e responsabilidades com os filhos, ainda persiste grande volume de demandas dirigidas à mulher. Essas cobranças são impulsionadas por expectativas sociais sobre o papel feminino, expectativas que continuam vivas no imaginário coletivo. O quadro se agrava porque muitas mulheres, mesmo sem intenção, também reforçam esse imaginário.

Como isso acontece?

Mulheres em posições de liderança podem, por vezes, esquecer o quanto é difícil conciliar trabalho e responsabilidades domésticas. Não é incomum ouvir queixas de falta de empatia ou apoio quando mulheres respondem a outras mulheres em ambientes profissionais. Sendo um problema social, seria desejável que aquelas que ocupam postos de comando contribuíssem para repensar modelos de trabalho e apoiar iniciativas como estruturas adequadas de acolhimento infantil.

Além disso, ainda é frequente que mulheres critiquem outras mulheres que trabalham fora, como se o exercício profissional representasse abandono dos filhos. O zelo excessivo pela manutenção da casa costuma ser mais cobrado por amigas e parentes do que por outras pessoas. O mesmo ocorre com expectativas relacionadas à aparência. Essas exigências acabam sendo internalizadas, levando muitas mulheres a se autocriticarem e se exigirem perfeição e disponibilidade em todas as áreas da vida.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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