Abra a mãozinha, levante o bracinho, calce o sapatinho, tome a sopinha… Essa fala infantilizada, quando dirigida às crianças, sugere que é possível reduzir o tamanho do mundo para que ele caiba nelas. É artificial, não demonstra carinho e não contribui para o desenvolvimento infantil. De forma equivocada, a mesma fórmula é utilizada, com muita frequência, na comunicação com pessoas com mais de sessenta anos.
Esse comportamento é sustentado pela crença de que, ao envelhecer, as pessoas voltam a ser crianças. Esse pensamento, ironicamente, esconde o preconceito em relação a essa fase da vida.
A espécie humana, responsável por guerras, massacres e assassinatos em massa, além do extermínio de outras espécies e de constantes agressões à natureza, esforça-se para esconder e controlar sua principal característica. Ao nascer, é a mais frágil e desamparada entre todas as espécies do reino animal.
Vem ao mundo desprovida dos recursos mínimos para sobreviver em seu habitat e depende integralmente de outro ser humano até alcançar a vida adulta. Cria uma sociedade tão complexa que dificulta a conquista da autonomia e retarda, cada vez mais, a entrada de seus filhos na vida social responsável, enquanto observa outras espécies adquirirem, naturalmente, as habilidades necessárias para sobreviver, desde que não sejam abatidas pelo próprio ser humano.
Incapazes de contemplar a natureza e o desenvolvimento dos próprios filhos, muitos se deparam com o envelhecimento de pais, avós e tios. Percebem que a permanência dessas pessoas na sociedade complexa que construíram pode ficar comprometida. Habilidades e competências desenvolvidas na juventude podem deixar de estar disponíveis em razão das fragilidades adquiridas ao longo da vida. Tais fragilidades não infantilizam ninguém. Não existe uma volta à infância. As necessidades de abrigo, cuidado e proteção são próprias da condição humana. Talvez não fossem tratadas como exceção se a sociedade, em vez de apenas complexa, fosse também mais humana, respeitosa e igualitária.

Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.
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