Uma análise sobre o caso Banco Master e seus tentáculos no Estado Brasileiro

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Dia 18 de novembro de 2025 o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A partir de então, estamos vendo, lendo e ouvindo, dia após dia, que a relação entre instituições financeiras e o poder público continua sendo um ponto bastante nebuloso no Brasil. Em um país marcado por escândalos recorrentes, apenas para citar alguns mais recentes: Mensalão, Lava Jato, Orçamento Secreto, Carbono Oculto, Emendas Parlamentares com desvios de finalidade, qualquer aproximação entre entidades financeiras e empresariais, agentes políticos e decisões governamentais desperta suspeitas, muitas vezes justificadas, outras vezes alimentadas pela falta de transparência, que caracteriza boa parte da administração pública. Estas promiscuas relações, beiram a infâmia. O Brasil convive há séculos com a percepção de que os órgãos de Estado, pagos com dinheiro dos contribuintes, e que deveriam defender os interesses da maioria do povo, na verdade, operam para servir as elites financeiras, empresariais e políticas do país. No caso do Banco Master esta infame relação, aparentemente, chegou a níveis inimagináveis, senão vejamos:

– Tudo indica que o BC (Banco Central) tinha pleno conhecimento, há pelo menos três anos, que o Banco Master estava em condições precárias de liquidez financeira, fazendo operações sem lastro e suspeitas de fraude. Oferecia ao mercado taxas de rentabilidade bem altas, fora dos padrões, para os seus CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) tendo como elemento de venda o FGC (Fundo Garantidor de Crédito), uma entidade privada que efetivamente, em caso de quebra de um banco garante o pagamento ao investidor em CDBs até R$ 250.000,00 por CPF / CNPJ. Isto por si só já deveria ter sido investigado pelo Banco Central. FGC é um fundo de caráter emergencial, não para especular, “tipo compre que o FGC garante”. Por que o BC demorou para agir?  Esta demora merece ser investigada.

– Desde o final de 2024 o Banco Master tenta conseguir investidores, sócios, compradores, com o objetivo de obter uma forte injeção de capital, pois corria o risco de insolvência. Apresenta-se um interessado: BRB (Banco de Brasília) um banco público cujo sócio majoritário é o Governo do Distrito Federal. O BRB pode operar no Brasil todo, em toda e qualquer atividade financeira. e se propõe a comprar o Master, segundo informações, interessado em sua carteira de crédito e de empréstimos consignados. Porque nenhum outro banco privado, com muito mais recursos que o BRB não demonstrou interesse em comprar o Master? Certamente porque não valia a pena. Mas um banco público possivelmente vinculado a alguma liderança política, insiste em comprar algo que seus concorrentes não querem. Este ponto obscuro deveria ser esclarecido, afinal o BRB é público. Em março de 2025, entra em cena o BC, ele deveria aprovar a compra do Master pelo BRB, mas não aprova. A carteira de créditos que o BRB comprou do Master por R$ 12 bi, segundo avaliação do BC teve seu valor superavaliado.

– Assim que se que se tornou pública a liquidação extrajudicial do Master pelo BC, entrou em cena o TCU (Tribunal de Contas da União), dando 72 horas para o BC explicar sua decisão. O BC entre outras funções estatutárias, deve atuar como guardião da moeda nacional e fiscalizar a integridade do sistema financeiro do Brasil. Está perfeitamente dentro de suas atribuições, liquidar entidades bancárias, que não honrando com seus compromissos, colocam em risco todo o sistema financeiro. Até agora não ficou claro o que respaldou a tentativa do TCU de bloquear a liquidação do Master. O que de prático aconteceu foi que houve um retardamento para o Master enviar as informações dos clientes que teriam valores a receber do FGC. Mais um ponto nebuloso: por que o TCU interveio? Com que autoridade constitucional? A quem interessa a não liquidação do Banco Master e por que tentar colocar a culpa nas ações do Banco Central?

– O STF (Supremo Tribunal Federal) interferiu de forma bastante heterodoxa no processo, com práticas pouco republicanas, inclusive impedindo ou não estimulando as investigações e as perícias da PF (Polícia Federal) sobre o caso. Atitudes que causaram constrangimentos e dissabores em diversos órgãos do governo. Além disso colocou sob sigilo, depois liberou, as investigações e depoimentos. Aqui chegamos ao ponto chave deste intrincado caso: quem estabelece os limites da atuação do STF. Certamente a Constituição Federal e/ou a Lei Maior da Magistratura devem ter algum tipo de regimento interno que regula as ações do STF. Como não advogado, não tenho condições de emitir pareceres nesta área, no entanto, tem-se a percepção que alguma medida de maior transparência deveria ser adotada. Um grande número dos ministros do STF tem parentes (esposa, filhos, filhas, ex-esposa) que possuem escritórios de advocacia, o que por si só já me parece questionável. No caso do Banco Master, vários desses escritórios já advogaram ou ainda advogam para os envolvidos e investigados no presente escândalo financeiro. As ligações particulares dos magistrados com pessoas investigadas, também não parecem ser convenientes e no mínimo, não contribuem para a abrandar a suspeição que paira no ar em certos casos.  Fica a pergunta: Por ser um Ministro ou Ministra do STF, este fica acima de qualquer suspeita, em qualquer situação?

– Grandes investidores do Master são fundos de Previdência de estados e prefeituras espalhadas pelo Brasil. Mais uma vez uma grande malversação do dinheiro público. O ex-presidente da Rio Previdência, foi preso pela PF. Certamente haverá um rombo nas finanças destes institutos. Ainda não sabemos se o Master terá recursos para ressarcir esses investidores. Por definição fundos de previdências devem ter um comportamento conservador, pois os recursos são usados para pagamentos de aposentados e pensionistas. Trata-se de uma gestão incompetente ou fraudulenta? Como, em geral, a indicação para esses cargos é política, imediatamente repercutiu no Senado Federal e na Câmara dos Deputados.  Mais uma vez tem-se a percepção de que haverá aquele clima de “muito trovão e pouca chuva”, ou seja, haverá muito barulho, muita investigação, mas ninguém é punido. Estamos em ano eleitoral, onde a eleição ou reeleição é o objetivo maior.  “O vamos investigar a fundo, doa a quem doer” é, na minha opinião, apenas discurso vazio. Lembrando que parlamentares federais, têm foro privilegiado, portanto só podem ser julgados e condenados pelo STF.

– Como ponto positivo, temos a atuação da PF. Apesar de ter sofrido tentativa de interferência em seu trabalho de investigação e análises de provas, por ordem de ministros do STF, seguiu apurando os graves fatos que seguem surgindo junto ao Banco Master e seus controladores. Inclusive abrindo novas frentes com os desdobramentos que vão surgindo, tais como a atuação fora do padrão do BRB no mercado de capitais; REAG investimentos, um gestor de recursos financeiros, parceiro de negócios do MASTER, que também foi liquidado; o grupo empresarial FICTOR que oferecia aplicações via Sociedades em Conta de Participação (SCP), um modelo não regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e sem cobertura do FGC. O grupo fez uma oferta de compra para o MASTER e entrou na Justiça pedindo recuperação judicial; o RIOPREVIDENCIA, cujo ex-presidente foi preso recentemente. Os elementos sugerem que este caso está muito longe de acabar. Veremos até onde os governantes deste país permitirão a liberdade de investigação da Polícia Federal e fiscalização técnica do Banco Central.

 Quero destacar o brilhante papel do jornalismo investigativo, de vários profissionais de diversos órgãos de imprensa, que revelaram e noticiaram muitos dos detalhes que estavam, digamos ocultos. Viva a liberdade de imprensa e de opinião que ainda existe neste país. A democracia resiste. Concluindo, como disse Antônio Carlos Jobim “o Brasil não é para amadores”. Me atrevo a dizer que o próximo escândalo envolvendo autoridades constituídas, governantes, parlamentares, magistrados, empresários, líderes religiosos, e agora o “crime organizado” sempre será o mais surpreendente, o mais audacioso, o mais impactante, o mais corrupto e o mais custoso para o país. A única coisa que não muda, é quem paga tudo isso: sempre o povo, mais pobre, mais endividado, mais sofrido, que luta dia a dia para seu parco sustento e da sua família e que paga mais impostos, relativamente, que os magnatas da corrupção.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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 Foto Destaque: Rovena Rosa/Ag. Brasil

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Por uma cultura de paz – por Celso Tracco

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Em fevereiro retornam ao trabalho o Congresso Nacional, assim como o STF. Teoricamente os nossos deputados e senadores, legitimamente eleitos pelo povo, voltam aos seus afazeres no parlamento para elaborar, regulamentar, discutir, aprovar leis e decretos que, em última análise, deveriam melhorar a vida do povo e o bem-estar geral da nação. Este, pelo menos, é o discurso oficial. Mas, como 2026 é um ano especial, pois teremos eleições para presidente da república, governadores dos estados, senadores, deputados federais e estaduais. A agenda política estará cheia. Os parlamentares estarão, creio eu, preocupados com o futuro de sua vida na política, a qual, obviamente irá depender do resultado da eleição. Apenas como um exercício mental, interpreto o que estaria pensando um ou uma parlamentar, neste momento:

“Será que vale a pena ser candidato à reeleição? Ou posso pensar em voos mais altos? Quem sabe mudar de partido? Como será o financiamento de minha campanha? Quais serão meus potenciais adversários? Qual é minha matriz de ganhos e perdas, nesse jogo? Quais serão meus aliados nessa nova batalha? Lealdade na política é algo raro”.

Na realidade é legitimo pensar que os candidatos se prepararão para uma “sangrenta” batalha eleitoral. E quem vai determinar quem serão os vencedores? Em um regime democrático, serão os eleitores. A quantidade de votos necessários determinará quem será eleito. E o campo de batalha, para a conquista do seu voto será, prioritariamente, nas redes sociais. Quem vencer a batalha nas redes sociais, será eleito. E aqui está o ponto central deste artigo: não deixe essa batalha entrar em sua vida particular. Não leve a discussão política, radicalizada, ideológica para dentro de seu lar, entre os membros de sua família, entre seus colegas de trabalho, de barzinho, de lazer. Já está claro que a narrativa do “nós contra eles” é da campanha política, eles precisam atacar seus adversários, provar que são melhores ou menos ruins. Ultimamente tem sido pura pancadaria. Mas porque, nós precisamos ser agressivos com quem não comunga de nosso pensamento? Creio que faz parte da democracia defender nosso pensamento político, mas não deveríamos nunca chegar a uma ruptura comportamental.

Já temos muitas preocupações em nossas vidas: pagar contas, educar nos filhos, enfrentar desconforto no transporte coletivo, filas para atendimento médico, trânsito caótico, escapar de golpes pela internet, falta de segurança para andar na rua. Além de todos esses problemas, ainda temos que escutar as falcatruas, golpes, roubos, desvios de dinheiro público por políticos eleitos e outros servidores públicos, de vários partidos e ideologias. Já temos muito com que nos preocupar, então por que vou me envolver em novas lutas que não são minhas? Não coloquemos mais lenha nesta fogueira, muitas das mensagens que iremos receber, poderão ser falsas, “fabricadas” por pessoas que ninguém conhece. Essa guerra não merece ser vivida, não crie inimigos dentro de seus relacionamentos por causa da radicalização política. No final, o sistema sempre vence e o povo sempre paga a conta. Em geral os eleitores só são lembrados no período da eleição, e aí deveriam exercer seu real poder: afastar os péssimos políticos e votar consciente de sua escolha, não no menos ruim, mas no melhor. E após a eleição, caso seu candidato tenha sido eleito, cobrar as promessas eleitorais para que não fiquem no esquecimento. A eleição em um regime democrático, deve ser uma festa cívica e não uma batalha. Aproveite, em paz, o seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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Feminicídio: chaga inadmissível – por Celso Tracco

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O feminicídio é a mais execrável violência baseada em gênero. Em 2025, a cada dia, 4 mulheres foram assassinadas no Brasil vítimas deste crime hediondo. A maioria dos assassinatos ocorrem pelo simples fato da vítima ser mulher, geralmente em contextos marcados por desigualdade, controle, abuso e relações de poder profundamente enraizadas na nossa sociedade. Não deve ser visto “apenas” como um crime individual, passional, mas como um fenômeno social que revela como estruturas históricas de machismo, misoginia e autoritarismo ainda moldam comportamentos contemporâneos.

No Brasil, o feminicídio foi reconhecido como crime hediondo em 2015, com punições severas. Ainda assim, os números permanecem alarmantes. A maioria dos assassinos tinha relacionamento próximo com suas vítimas. Muitas destas denunciaram agressões anteriores, o que prova que o feminicídio raramente é um ato isolado: ele costuma ser o desfecho trágico de um ciclo de violência que pode incluir agressões verbais, psicológicas, patrimoniais, sexuais e físicas. Ciclo que poderia ter sido interrompido com proteção efetiva e políticas públicas mais robustas. As raízes dessas práticas criminais estão na desigualdade de gênero, na naturalização da violência doméstica e na ideia equivocada de que o corpo, a vida e as escolhas das mulheres devem ser controladas. Combater o feminicídio exige ações em várias frentes: educação para igualdade de gênero, fortalecimento das redes de apoio, acolhimento humanizado, responsabilização dos agressores e políticas públicas que funcionem na prática, não apenas no papel.

Durante séculos a sociedade reforçou papéis rígidos para homens e mulheres, colocando o homem como figura de autoridade e a mulher como alguém a ser controlada. Essa lógica patriarcal se manifestou em leis, costumes e práticas sociais. Mesmo com avanços significativos em direitos, igualdade e autonomia, resquícios daquela mentalidade ainda moldam comportamentos que geram agressões. Mais do que estatísticas, cada caso representa uma vida interrompida, uma família devastada e uma sociedade que falhou em proteger suas cidadãs. Falar sobre feminicídio é um ato de repulsa ao que acontece em nosso país, essa prática é inaceitável sob qualquer ponto de vista.

Enfrentar o feminicídio é um dever de toda a sociedade e exige ações articuladas e contínuas, tais como: educação visando a igualdade desde a primeira infância, passando por todo o sistema educacional e pelas empresas que devem orientar seus funcionários na derrubada de estereótipos de gênero; ter efetivas redes de apoio, acessíveis a todas as mulheres, de qualquer classe social e qualquer faixa de renda; campanhas de conscientização que previnam a prática de contínuas agressões as mulheres. Acolhimento comunitário e protetivo é fundamental, a violência não deve ser vista como um tema privado, é um tema social. O que se deve pensar, não é em ações isoladas, mas tentar construir um ambiente social onde a violência seja completamente rejeitada e a vida dos mais vulneráveis respeitada, protegida e dignificada. Devemos trabalhar e atuar para impedir a banalização da violência, e não combatê-la com mais violência.

Falar sobre feminicídio é um ato político necessário. É recusar o silêncio que protege agressores e invisibiliza vítimas. É reconhecer que a violência contra a mulher não é um problema individual, mas uma responsabilidade coletiva. Construir um futuro sem feminicídio significa transformar mentalidades, fortalecer políticas públicas, tornar a sociedade mais igualitária, humanizada, solidária e, acima de tudo, reafirmar que a vida das mulheres, assim como de todo ser humano, importa e importa muito. Aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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SÃO PAULO. 472 ANOS – por Celso Tracco

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Fundada em 25 de janeiro de 1554 por padres missionários jesuítas, entre eles Manuel da Nobrega e José de Anchieta (canonizado santo pelo Papa Francisco em 2014), a vila de São Paulo foi erguida com o objetivo de evangelizar os indígenas que ali viviam. A data é celebrada na Igreja Católica pela Conversão de Saulo (Paulo) de Tarso ao cristianismo. Construíram um pequeno colégio, uma capela e alojamentos para alguns poucos colonos que cultivavam a terra para subsistir. Durante 300 anos, São Paulo teve um baixo desenvolvimento econômico e populacional. Em 1850 sua população beirava os 30.000 habitantes, pobres e sem importância para o país. Porém a partir da segunda metade do século XIX, seu status econômico mudou drasticamente devido à consolidação da cultura cafeeira. O café, produto de exportação, se espalhou pelo interior da província, trazendo riqueza e prestígio aos fazendeiros/barões do café. Para escoar a produção agrícola, ferrovias foram construídas, encurtando as distâncias, aumentando o comércio, criando cidades. A roda da fortuna, finalmente, girava na até então aprazível cidade de São Paulo.

E continuou girando, com maior intensidade, nas décadas seguintes. Devido à imigração estrangeira e doméstica, a industrialização, as novas formas de cultura, locais para feiras e negócios, tecnologia e logística, tornaram São Paulo a megalópole cosmopolita que conhecemos hoje. Sua principal força motriz está na mescla das etnias indígena, africana, europeia, asiática. É a terra dos imigrantes, dos que vieram para viver, criar seus filhos e netos, desenvolver, mesclando suas culturas, enriquecendo. São Paulo passa a ser vista, e realmente é, uma terra de oportunidades. Onde se ganha muito dinheiro. A ótica do capitalismo liberal se estabeleceu e persiste.

Porém, a roda da fortuna não gira na mesma velocidade para todos. A cidade e sua região metropolitana, é o retrato vivo de um sistema político econômico, excludente, elitista, aristocrático. Alguns exemplos: a cidade dispõe de hospitais, privados e públicos, que são referências internacionais, mas ao lado existem filas de muitos meses para marcar um exame ou cirurgia em hospitais municipais; ao lado de uma das maiores frotas de helicópteros privados do mundo, temos um sistema de transporte público altamente deficiente; ao lado de edifícios elegantes e caros, temos enormes favelas e moradias precárias; é uma das cidades que mais blinda carros no mundo e que também possui um elevado número de roubo e furto de celulares; existe uma fartura de comida, mas as dezenas de milhares dos moradores de rua precisam da ajuda de igrejas e voluntários para se alimentarem. A cidade sofre, constantemente com chuvas, enchentes, queda de árvores, recolhimento de lixo, trânsito caótico. Não há agente público que zele, que cuide da cidade. Parece que a incompetência é normal, entre as autoridades públicas.

Criado em 1917 o lema da bandeira da cidade em latim non ducor, duco – significa não sou conduzido, conduzo. Creio que esse lema deveria ser repensado. Se conduzo, tenho uma meta, um objetivo, tem um sentido de independência, de altivez, de caráter. Qual é o objetivo? Conduzo para onde? Se for para manter e fortalecer privilégios dos novos “barões” e “baronesas”, então está sendo muito eficaz. As desigualdades sociais permanecem abissais. Mas se for para termos uma cidade mais humanizada, solidária, justa, minimamente igualitária, este lema não representa a realidade.

Parabéns a todos os habitantes desta megacidade que todos os dias se levantam para trabalhar pensando e tendo esperança de dias melhores.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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Paz e Harmonia – por Celso Tracco

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Tradicionalmente janeiro é um tempo de renovar esperanças e expectativas para o ano que se inicia. Novos desejos, agradáveis pensamentos, um otimismo para levantar o astral, desmantelado pela correria do final do ano que terminou. Ano novo, vida nova! Infelizmente não tenho tanto otimismo. Pelas guerras que estão acontecendo mundo afora, nada nos assegura que teremos paz e harmonia em nosso cotidiano. Deixo claro, estimado leitor, estimada leitora, que não foi minha intenção ter um título enganoso. Minha intenção é refletir que mesmo vivendo em um mundo caótico, não devemos perder a esperança em proporcionar paz e harmonia, no mínimo à nossa volta. Vejamos:  

Parece evidente que o mundo está caminhando para uma nova desordem internacional, agora de forma explícita, sem subterfúgios e sem maior cerimônia. Voltamos para a política do quem pode mais, manda mais. A lei da selva. Líderes de grandes nações agem como antigos e sanguinários imperadores romanos. Os exemplos que estamos assistindo, inclusive na América do Sul, reforçam a tese de que leis do direito internacional, que visavam proteger a soberania dos países, não são respeitadas. Voltamos à época dos impérios, onde países pequenos e sem poder bélico, eram simplesmente vassalos de algum tirano maluco que deveriam satisfazer suas vontades. Para isso não tinham dúvidas em invadir outros reinos, sem maiores explicações. Bastava ter algo para servir de pretexto para invadir, matar, ocupar, roubar, destruir, aniquilar o mais fraco. As organizações humanitárias que as nações, com muito esforço, construíram após o horror da Segunda Guerra Mundial, estão ruindo como um castelo de cartas. As leis internacionais estão sendo literalmente rasgadas pelas grandes potências militares, em prol de seus objetivos políticos e econômicos. A famosa frase de Luiz XIV, rei francês entre 1643 e 1715 que afirmava, “O Estado Sou Eu”, soa bem contemporânea. Significativamente o dito Rei também era conhecido como Rei Sol. Apenas ele poderia brilhar. A história mostra como milhões de seres humanos perderam a vida pela insensatez desses tiranos. Pedir ou desejar paz e harmonia entre as nações, neste contexto, além de utópico soa insensato.

Apesar dessas guerras estarem ainda distante do nosso país, sem dúvida, elas nos afetam indiretamente. Estamos em mundo conectado, o que nos permite ver ataques, assassinatos, operações militares diariamente. Lutar pela paz em uma cultura de guerra, não é tarefa para fracos e covardes. Sejamos fortes e corajosos, e essa força deve vir de nós mesmos.

Para isso construir bons relacionamentos é fundamental para uma vida de paz e harmonia. A menos que nossa escolha seja morar isolados do mundo, pessoas estão à nossa volta o tempo todo. A qualidade dos nossos relacionamentos, em casa ou no trabalho, influencia muito nossa qualidade de vida. Nossa paz e harmonia, então, mais ainda! Construir bons relacionamentos é uma arte, parecida com a dança: precisamos prestar atenção ao parceiro, sentir seus movimentos, conduzir em alguns momentos e deixar-se conduzir em outros, manter-se flexível e saber dançar conforme a música. Será fácil e tranquilo? Claro que não. Vai exigir muita entrega, muita paciência, muito cuidado pelo outro. Sempre é bom lembrar que temos, geralmente, expectativas e visões de vida diferentes dos demais. É muito bom termos nossa individualidade, afinal ainda não somos um algoritmo, mas para conviver em paz e harmonia, muitas vezes é preciso ceder. Deixar prá lá é uma arte para a boa convivência. Ato contrário é agir com tirania, guerreando o tempo todo.

Mais do que nunca, desejo um Feliz Ano, cheio de Paz e Harmonia, para todos nós.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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Mais um fim de ano! – por Celso Tracco

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UFA! 2025 finalmente está terminando. Depois de tantos altos e baixos, em escala planetária, tais como guerras que não terminam, tarifaços econômicos, escândalos diários proporcionados por integrantes dos mais diversos órgãos de governo, fraudes financeiras inimagináveis, eventos climáticos extremos, uma cultura de ódio e não de paz, 2025 está nos deixando. Creio que, para a maioria das pessoas, não vai deixar muitas saudades. Apesar disso, para mim particularmente um fato superpositivo transcendeu sobre todos os outros: minha estreia como colunista nesta plataforma de notícias Hora de S. Paulo (www.horasp.com.br). E quero agradecer a cada um (a) dos leitores (as) que me honraram com sua leitura e comentários. Gratidão eterna a todos vocês. Apenas por isso ter vivido 2025 já valeu muito a pena. Espero que nossa conexão fique mais forte, a cada ano, vencendo todos os possíveis obstáculos.

E o que esperar de 2026?  Sinceramente, penso que será um ano com muitos desafios, ou seja, um ano muito difícil, principalmente para a população mais necessitada, que é a imensa maioria da população brasileira. E por que eu digo isso? Porque, além de 2026 herdar todo o manancial de problemas que vem do passado, vai se defrontar com dois fatos que impactam fortemente nossa vida. O primeiro é a Copa do Mundo de Futebol, com início em 11/06/2026 e término em 19/07/2026. Futebol ainda é o esporte mais popular do mundo, e no Brasil, apesar da queda em sua popularidade, ainda arrasta multidões. A pátria de chuteiras, como dizia Nelson Rodrigues, creio que já ficou no passado, mas ainda irá movimentar a mídia, o noticiário, as conversas de botequim, o imaginário popular. Certamente, a vida, quer você seja um torcedor ou não, será afetada. Então prepare-se, da maneira mais adequada de acordo com suas atividades para esse evento. Ele é efêmero, emocional, apaixonante. Dura pouco, mas enquanto dura é intenso.  O segundo evento, são as eleições em outubro, que sem dúvida são muito mais importantes para a vida de nosso país. Não são levadas muito a sério, mas nelas deveríamos por toda a nossa racionalidade, pois efetivamente podem significar o êxito ou o fracasso de toda uma nação. Teremos a eleição para presidente da República, Governadores dos Estados, Senadores, Deputados Federais e Estaduais. Suas ações, ou a ausência delas, seu governo ou desgoverno, sua honestidade ou desonestidade, influenciarão nossas vidas, pelos próximos anos. Por isso devemos dar muito valor ao nosso voto. Temos a tendencia de sempre culpar os políticos, não que seja errado, mas esquecemos que, em uma democracia, eles estão lá porque foram legitimamente eleitos por nós. No final, a sociedade é responsável pela qualidade dos políticos que ela elege. Pense nisso quando decidir o seu voto.

Finalizando, período de festa, de alegria e confraternização. Deixe os problemas de lado, teremos 365 novos dias para resolvê-los. Desejo um Feliz e Santo Natal a todos os leitores e leitoras e suas famílias. Que seja um Natal de paz, harmonia, alegria, solidariedade. Que a boa vontade e compreensão permaneçam presentes em todas as celebrações. E que o Ano Novo nos revigore para continuarmos a construir uma sociedade que cultive a paz e não a guerra, que construa pontes e não muros, que seja mais justa, solidária, equalitária com todos os seus membros. Boas festas e, se Deus quiser, nos vemos em Janeiro.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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Breve história do Natal – por Celso Tracco

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O mundo todo sabe que o Natal é uma festa litúrgica da religião cristã. Ela celebra o nascimento de Jesus Cristo. As informações que temos sobre o nascimento de Jesus, estão restritas aos Evangelhos Sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas). E em nenhum deles, há uma data claramente definida sobre este fato. Como os Evangelhos foram escritos dezenas de anos após a morte de Jesus, certamente marcar uma data precisa de seu nascimento, não era relevante. Além disso, as primitivas comunidades cristãs reuniam-se na clandestinidade e foram violentamente perseguidas, torturadas e assassinadas pelo Império Romano até o início do século IV. Apenas em 313 d.C. os cristãos puderam celebrar livremente sua religião, quando o Imperador Constantino emitiu uma ordem tornando livre de perseguições, qualquer manifestação religiosa, inclusive a cristã. Por volta do ano 336 os cristãos de Roma passaram a celebrar o dia 25 de dezembro como a data de nascimento de Jesus Cristo. A data escolhida foi para substituir uma festa pagã chamada Sol Invictus. O Sol era reverenciado pois sempre brilhava após as trevas. Como Jesus é a luz do mundo, a associação foi imediata. Convencionou-se que esta seria a data do nascimento de Jesus. Em 380 o Imperador Teodósio decretou o cristianismo como religião oficial do Império Romano e o Natal passou a ser comemorado, oficialmente, em todo o Império no dia 25 de dezembro. Finalmente em 449 o Papa Leão I decretou, 25 de dezembro para a comemoração do nascimento de Jesus como a segunda mais importante festa litúrgica da Igreja Católica. A partir de então o 25 de dezembro fixou-se como a festa que congrega milhões de cristãos e é comemorado, inclusive por muitos não cristãos. Com o passar do tempo as comunidades cristãs em todo o mundo foram adaptando a festa aos seus costumes locais. Por exemplo o presépio foi criado por São Francisco de Assis no século XIII e incorporado as festividades religiosas do Natal.

Após a revolução industrial, com o crescimento da economia capitalista e o aumento contínuo da urbanização, a sociedade consumista tornou o Natal uma festa de aspectos profanos, mais identificada com interesses econômicos, comerciais, compras de Natal, celebrações mundanas que, em geral, não são nem um pouco comedidas.

Apesar da data ter perdido parte de seu aspecto religioso, espiritual e teológico, a mensagem de Jesus segue sendo fundamental para a nossa evolução como seres humanos. Uma mensagem de amor, de paz, de perdão, de compaixão pelo próximo. Nunca se falou tanto de Deus, mas parece que estamos cada vez mais distante Dele, personificado pelo seu Filho, Jesus Cristo! O Deus Cristão sempre defendeu os mais necessitados, os pobres e esquecidos, os pecadores e pecadoras. Em um mundo dilacerado por guerras, Ele sempre foi contra a violência, proclamando que devemos perdoar nossos inimigos. Em uma sociedade que ainda persegue e mata mulheres, devemos lembrar que Ele, salvou e perdoou uma adúltera que seria apedrejada até a morte. Deu de comer a quem tinha fome, curou os enfermos em qualquer dia da semana pois a vida de um ser humano é mais importante que uma lei injusta. Tudo que Ele fez foi por amor ao próximo, não importando qual era sua religião ou sua origem.

Que tenhamos uma alegre, abundante, harmoniosa comemoração de Natal. Não devemos nos esquecer do aniversariante, mesmo que por alguns segundos vamos trazê-lo para o meio de nós. Um Feliz e Santo Natal a todos.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Dezembro, pura emoção! – por Celso Tracco

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Dezembro me traz lindas e agradáveis lembranças, do meu tempo de criança/adolescente. Que maravilha, primeira semana de dezembro! Férias escolares. O dia todo para brincar, livre na rua. A rua era um verdadeiro parque de diversões, jogo de peão, taco, bolinha de gude, carrinho de rolimã, futebol onde o gol era marcado por pedras ou um par de chinelos. Bons tempos! Praticamente não havia carros nos bairros periféricos da grande cidade. Quando algum se aproximava, o motorista gentilmente buzinava e todos corriam para os lados. Após a passagem do veículo todos voltavam para os lugares que estavam e a brincadeira continuava. Uma pausa momentânea. Além disso tinha a preparação para o Natal. Ainda era uma festa cristã e católica por excelência. Obrigatório ir à missa na igreja da paróquia. Missa do Galo, começando à meia-noite do dia 24, as crianças podiam dormir tarde nessa noite, ou nem dormiam, porque na manhã do dia 25 começava a busca dos presentes, que os pais e parentes, escondiam pela casa toda. A diversão era achar seus presentes, embaixo de camas, dentro de armários ou em cima de alguma árvore do quintal. Uma experiência inesquecível. A vida era bela, agradável, feliz. Sim, felicidade existia e morava no meu endereço. Bons tempos, que deixaram muitas saudades. Nem sabia o que era estresse, esse vocábulo “gringo”, aportuguesado. Era feliz e ponto.   

Agora, já avançado na idade, sinto uma certa pena dos adultos responsáveis que têm tantas obrigações e deveres nesta época do ano. Primeiro, aos que impõem promessas sobre seus ombros, que por várias razões não puderam cumprir durante o ano que está findando. Não se sintam culpados, fracassados, frustrados por” falharem”, vocês não falharam, apenas colocaram o sarrafo em uma altura, não compatível com o seu salto. O pior verdugo é a sua consciência. Segundo, quanta correria com data marcada: fazer sacolinhas para crianças necessitadas, preparar reuniões com diversos amigos e parentes, organizar visitas a algumas pessoas, comprar presentes, amigo secreto no trabalho, na escola, no trabalho voluntário. Ufa, o mundo vai acabar amanhã e não vai dar tempo para tudo. Quanto estresse. Ah, sem falar do trânsito, lembra daquela rua sem carro? Hoje ela não existe nem no Polo Norte. Mas não vamos reclamar, hoje temos a internet e podemos comprar quase tudo por celular! Tranquilo? Mais ou menos, e os golpes diurnos e noturnos, as falsificações, as entregas erradas, a clonagem do cartão? Você está exagerando, as coisas não são bem assim, dizem meus amigos otimistas. Talvez não sejam mesmo, talvez eu seja pessimista demais e só vejo o lado ruim das coisas. Exemplo: no ano passado, em dezembro, eu e minha esposa levamos nossos netos, num sábado, para um passeio em um conhecido Shopping Center de São Paulo. Levei uma hora, dentro do estacionamento para achar uma vaga, e só achei porque fui ajudado por um colega de infortúnio. Um idoso que estava indo em direção ao seu carro estacionado, viu meu desânimo, se aproximou e disse:

– Amigo, está procurando vaga, temos que nos ajudar, siga-me.

Pensei, será que mereço essa sorte. Quem se preocupa com o outro? O nobre senhor, fez a gentileza de retirar o seu carro, de modo que nenhum outro ocupasse a vaga que ele me destinou. Agradeci de todo coração. Meu anjo da guarda estava atento e de plantão naquele fim de semana. Nem preciso dizer como estava o Shopping, filas pelos corredores para ir ao banheiro. Vida moderna, tudo à mão e tão distante, um estresse para cada dia. A vida pode ser bela, mesmo em dezembro, depende de você.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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60+ Viva a Vida! – por Celso Tracco

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A sociedade brasileira está vivenciando uma boa e silenciosa revolução cultural, a quebra do paradigma que após os 60 anos a vida produtiva acabou. Segundo os últimos dados disponíveis mais de 8 milhões de cidadãos e cidadãs brasileiras com mais de 60 anos, estão no mercado de trabalho formal. Ou seja, exercem uma atividade sistemática e remunerada. Lembro que há alguns anos, tinha-se a convicção que havia pouquíssima chance de uma pessoa empregar-se após os 60 anos. A enorme maioria das ofertas de emprego, na descrição das qualidades requeridas para a vaga, deixava muito claro a restrição de idade. Hoje, pode-se dizer que é o contrário. Inúmeras empresas financeiras, industriais e comerciais, de vários setores da economia fazem questão de não restringir a idade do candidato à vaga, ou até, para certos trabalhos, dão preferência para os 60+, a geração ativa e “prateada”. Com o natural envelhecimento da população, a tendência é de que cada vez mais pessoas na faixa dos 60+ busquem uma colocação no mercado de trabalho, prolongando sua vida ativa e trazendo enormes benefícios para a sociedade como um todo, como veremos a seguir.

  • Ajuda a retardar o colapso do sistema previdenciário, mantendo o trabalhador ativo por mais tempo, oferecendo uma grande contribuição para as empresas em função de sua experiencia e excelência de trabalho.
  • Para os idosos que estão no mercado de trabalho, faz com que se mantenham atualizados com novas tendências profissionais; se interessem pelas novas tecnologias digitais, aumentem sua rede de contatos; desenvolvam novas habilidades; sirvam de exemplo e estímulo para outros. Não se trata “apenas” de ganhar dinheiro, que continua muito importante principalmente em um país política e economicamente instável, como o Brasil, mas proporciona à quem já cuidou durante a sua vida de muitas pessoas, possa se dedicar mais tempo a si próprio. Isso aumenta a autoestima, a dignidade e sem dúvida, contribui para uma saudável saúde mental.  
  • As empresas que adotam uma política efetiva de contratar colaboradores 60+, também nada tem a reclamar, ou seja, estão ganhando com isso. Os idosos agregam, além de suas competências técnicas, outras competências emocionais, cada vez mais importante atualmente, tais como: estabilidade, comprometimento, relacionamentos interpessoais, sabedoria em situações mais complexas, e podem acrescentar diversidade de pensamento, resultantes de sua experiência de vida.

Enfim, a sociedade brasileira, a exemplo do que já acontece com vários países mais avançados que o nosso, está aprendendo que os idosos, não são necessariamente um estorvo, um peso, um custo para seus familiares, e podem ser, com sua experiencia acumulada uma fonte de lucro para si, sua família, e seu local de trabalho. É certo que nem tudo são flores, ainda há preconceito contra os idosos, o chamado etarismo, mas tal qual outras minorias, quem quer faz acontecer. Afinal quem já venceu tantas dificuldades, situações adversas, não irá esmorecer, por estupidez preconceituosa. Vai à luta e vence!

Desenvolver em nós a arte de mudar para melhor é a maneira mais eficiente de trabalhar para um amanhã mais enriquecedor do que o hoje. A geração dos 60+ comprova na prática, que o importante na vida é o que se busca, e não o que se tem. Aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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Racismo Estrutural, até quando? – por Celso Tracco

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Por que, oficialmente, celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra?

Uma das definições de consciência: Conjunto de valores morais que definem certos julgamentos, ações ou intenções relacionadas com alguém, ou grupo de indivíduos que tem algo em comum. Como os valores e padrões morais, culturais, artísticos, religiosos, da sociedade brasileira são predominantemente europeus e, portanto brancos, ainda hoje os valores da cultura africana, negra, são rejeitados por parte da nossa população. Depois de uma longa luta pelos seus direitos de cidadania plena, a população negra conseguiu em 2011 que o dia 20/11 fosse declarado o Dia Nacional da Consciência Negra. Em 2023, 20/11 foi decretado como feriado nacional. A data é uma homenagem à morte de Zumbi dos Palmares. São visíveis as manifestações contra este feriado, provando que o racismo, mesmo sendo um crime inafiançável e imprescritível, continua ocorrendo diariamente no nosso país. Cito dois exemplos desta semana, que viralizaram nas redes sociais: em um jogo de futebol, Avaí (SC) x Remo (PA), ocorrido em Florianópolis (SC) uma senhora branca, insultou reiteradamente, com gestos e palavras os torcedores do time do Remo, fazendo menção à condição social, pobreza, e a cor da pele deles, preta. Em outro caso ocorrido em São Paulo (SP), um pai de uma menina de 4 anos, que estuda em uma escola municipal, chamou a polícia militar porque a menina estava tendo uma “aula” sobre religião africana. E, lamentavelmente, quatro policiais armados entraram na escola infantil para verificar o ocorrido. Segundo relato, a professora explicou que a atividade não era sobre religião, mas sobre antirracismo, apresentando a cultura afro-brasileira para as crianças. No Brasil, inclusão social, seja no lazer ou na escola é caso de polícia, literalmente.

Durante 350 anos a economia brasileira dependeu do trabalho de pessoas africanas escravizadas. Em 1888, o trabalho escravo, foi oficialmente abolido por lei. Mas o que foi feito para que mais de 3 milhões de seres humanos fossem integrados à sociedade brasileira? Exatamente nada. As consequências dessa falta de política de inclusão social, apesar de terem melhorado recentemente, repercutem ainda hoje. A população preta e parda, é a que possui os mais baixos índices de empregos de qualidade, de salário, de renda, de ascensão social. Em contrapartida é a que mais é morta pelas forças policiais, e representa a maioria da população carcerária. Cabe uma reflexão: o Brasil tirou, por lei, a escravidão da sua sociedade, mas será que a sociedade tirou a escravidão dela mesma? Parece que, para uma parte da sociedade, ainda não. Na história humana, não foi o racismo que criou a escravidão, mas no Brasil a escravidão criou o racismo. E ele se tornou estrutural, faz parte do nosso dia a dia, e as atitudes racistas são normalizadas. Ocorrem em estádios de futebol, shows, empresas, supermercados, condomínios familiares, em qualquer lugar, vemos e ouvimos relatos de atitudes racistas. Pergunto: quando uma pessoa branca pensa em uma empregada doméstica, um gari, lavador de carro, ou um segurança particular, será que ela pensa em uma pessoa de origem europeia? Ou de origem africana?

As políticas públicas são reflexo das pressões vindas da sociedade, uma vez que vivemos em um estado democrático e nossos representantes são eleitos por essa mesma sociedade. A Câmara dos Deputados, o Poder Legislativo por excelência, tem apenas 27% de representantes pretos ou pardos. No entanto, pretos e pardos compõem 56% da população. Não é de estranhar que o Dia Nacional da Consciência Negra, ainda desagrade a tanta gente. A cultura negra faz parte da identidade brasileira, não deve ser apagada.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


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