Dia 18 de novembro de 2025 o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A partir de então, estamos vendo, lendo e ouvindo, dia após dia, que a relação entre instituições financeiras e o poder público continua sendo um ponto bastante nebuloso no Brasil. Em um país marcado por escândalos recorrentes, apenas para citar alguns mais recentes: Mensalão, Lava Jato, Orçamento Secreto, Carbono Oculto, Emendas Parlamentares com desvios de finalidade, qualquer aproximação entre entidades financeiras e empresariais, agentes políticos e decisões governamentais desperta suspeitas, muitas vezes justificadas, outras vezes alimentadas pela falta de transparência, que caracteriza boa parte da administração pública. Estas promiscuas relações, beiram a infâmia. O Brasil convive há séculos com a percepção de que os órgãos de Estado, pagos com dinheiro dos contribuintes, e que deveriam defender os interesses da maioria do povo, na verdade, operam para servir as elites financeiras, empresariais e políticas do país. No caso do Banco Master esta infame relação, aparentemente, chegou a níveis inimagináveis, senão vejamos:
– Tudo indica que o BC (Banco Central) tinha pleno conhecimento, há pelo menos três anos, que o Banco Master estava em condições precárias de liquidez financeira, fazendo operações sem lastro e suspeitas de fraude. Oferecia ao mercado taxas de rentabilidade bem altas, fora dos padrões, para os seus CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) tendo como elemento de venda o FGC (Fundo Garantidor de Crédito), uma entidade privada que efetivamente, em caso de quebra de um banco garante o pagamento ao investidor em CDBs até R$ 250.000,00 por CPF / CNPJ. Isto por si só já deveria ter sido investigado pelo Banco Central. FGC é um fundo de caráter emergencial, não para especular, “tipo compre que o FGC garante”. Por que o BC demorou para agir? Esta demora merece ser investigada.
– Desde o final de 2024 o Banco Master tenta conseguir investidores, sócios, compradores, com o objetivo de obter uma forte injeção de capital, pois corria o risco de insolvência. Apresenta-se um interessado: BRB (Banco de Brasília) um banco público cujo sócio majoritário é o Governo do Distrito Federal. O BRB pode operar no Brasil todo, em toda e qualquer atividade financeira. e se propõe a comprar o Master, segundo informações, interessado em sua carteira de crédito e de empréstimos consignados. Porque nenhum outro banco privado, com muito mais recursos que o BRB não demonstrou interesse em comprar o Master? Certamente porque não valia a pena. Mas um banco público possivelmente vinculado a alguma liderança política, insiste em comprar algo que seus concorrentes não querem. Este ponto obscuro deveria ser esclarecido, afinal o BRB é público. Em março de 2025, entra em cena o BC, ele deveria aprovar a compra do Master pelo BRB, mas não aprova. A carteira de créditos que o BRB comprou do Master por R$ 12 bi, segundo avaliação do BC teve seu valor superavaliado.
– Assim que se que se tornou pública a liquidação extrajudicial do Master pelo BC, entrou em cena o TCU (Tribunal de Contas da União), dando 72 horas para o BC explicar sua decisão. O BC entre outras funções estatutárias, deve atuar como guardião da moeda nacional e fiscalizar a integridade do sistema financeiro do Brasil. Está perfeitamente dentro de suas atribuições, liquidar entidades bancárias, que não honrando com seus compromissos, colocam em risco todo o sistema financeiro. Até agora não ficou claro o que respaldou a tentativa do TCU de bloquear a liquidação do Master. O que de prático aconteceu foi que houve um retardamento para o Master enviar as informações dos clientes que teriam valores a receber do FGC. Mais um ponto nebuloso: por que o TCU interveio? Com que autoridade constitucional? A quem interessa a não liquidação do Banco Master e por que tentar colocar a culpa nas ações do Banco Central?
– O STF (Supremo Tribunal Federal) interferiu de forma bastante heterodoxa no processo, com práticas pouco republicanas, inclusive impedindo ou não estimulando as investigações e as perícias da PF (Polícia Federal) sobre o caso. Atitudes que causaram constrangimentos e dissabores em diversos órgãos do governo. Além disso colocou sob sigilo, depois liberou, as investigações e depoimentos. Aqui chegamos ao ponto chave deste intrincado caso: quem estabelece os limites da atuação do STF. Certamente a Constituição Federal e/ou a Lei Maior da Magistratura devem ter algum tipo de regimento interno que regula as ações do STF. Como não advogado, não tenho condições de emitir pareceres nesta área, no entanto, tem-se a percepção que alguma medida de maior transparência deveria ser adotada. Um grande número dos ministros do STF tem parentes (esposa, filhos, filhas, ex-esposa) que possuem escritórios de advocacia, o que por si só já me parece questionável. No caso do Banco Master, vários desses escritórios já advogaram ou ainda advogam para os envolvidos e investigados no presente escândalo financeiro. As ligações particulares dos magistrados com pessoas investigadas, também não parecem ser convenientes e no mínimo, não contribuem para a abrandar a suspeição que paira no ar em certos casos. Fica a pergunta: Por ser um Ministro ou Ministra do STF, este fica acima de qualquer suspeita, em qualquer situação?
– Grandes investidores do Master são fundos de Previdência de estados e prefeituras espalhadas pelo Brasil. Mais uma vez uma grande malversação do dinheiro público. O ex-presidente da Rio Previdência, foi preso pela PF. Certamente haverá um rombo nas finanças destes institutos. Ainda não sabemos se o Master terá recursos para ressarcir esses investidores. Por definição fundos de previdências devem ter um comportamento conservador, pois os recursos são usados para pagamentos de aposentados e pensionistas. Trata-se de uma gestão incompetente ou fraudulenta? Como, em geral, a indicação para esses cargos é política, imediatamente repercutiu no Senado Federal e na Câmara dos Deputados. Mais uma vez tem-se a percepção de que haverá aquele clima de “muito trovão e pouca chuva”, ou seja, haverá muito barulho, muita investigação, mas ninguém é punido. Estamos em ano eleitoral, onde a eleição ou reeleição é o objetivo maior. “O vamos investigar a fundo, doa a quem doer” é, na minha opinião, apenas discurso vazio. Lembrando que parlamentares federais, têm foro privilegiado, portanto só podem ser julgados e condenados pelo STF.
– Como ponto positivo, temos a atuação da PF. Apesar de ter sofrido tentativa de interferência em seu trabalho de investigação e análises de provas, por ordem de ministros do STF, seguiu apurando os graves fatos que seguem surgindo junto ao Banco Master e seus controladores. Inclusive abrindo novas frentes com os desdobramentos que vão surgindo, tais como a atuação fora do padrão do BRB no mercado de capitais; REAG investimentos, um gestor de recursos financeiros, parceiro de negócios do MASTER, que também foi liquidado; o grupo empresarial FICTOR que oferecia aplicações via Sociedades em Conta de Participação (SCP), um modelo não regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e sem cobertura do FGC. O grupo fez uma oferta de compra para o MASTER e entrou na Justiça pedindo recuperação judicial; o RIOPREVIDENCIA, cujo ex-presidente foi preso recentemente. Os elementos sugerem que este caso está muito longe de acabar. Veremos até onde os governantes deste país permitirão a liberdade de investigação da Polícia Federal e fiscalização técnica do Banco Central.
Quero destacar o brilhante papel do jornalismo investigativo, de vários profissionais de diversos órgãos de imprensa, que revelaram e noticiaram muitos dos detalhes que estavam, digamos ocultos. Viva a liberdade de imprensa e de opinião que ainda existe neste país. A democracia resiste. Concluindo, como disse Antônio Carlos Jobim “o Brasil não é para amadores”. Me atrevo a dizer que o próximo escândalo envolvendo autoridades constituídas, governantes, parlamentares, magistrados, empresários, líderes religiosos, e agora o “crime organizado” sempre será o mais surpreendente, o mais audacioso, o mais impactante, o mais corrupto e o mais custoso para o país. A única coisa que não muda, é quem paga tudo isso: sempre o povo, mais pobre, mais endividado, mais sofrido, que luta dia a dia para seu parco sustento e da sua família e que paga mais impostos, relativamente, que os magnatas da corrupção.

Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.
*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo
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