Adolescentes mentem? – por Dra. Vera Resende

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Recebi a mensagem de uma mãe preocupada em saber como lidar com filhos adolescentes que mentem. Essa questão nos leva a refletir sobre a forma como a comunicação se desenvolve entre os membros da família. Uma distorção nesse processo pode gerar dificuldades desde a infância e tende a se agravar na adolescência.

É fundamental instaurar hábitos de abordagem respeitosa, se o objetivo for o respeito mútuo, com transparência e coerência entre discurso e comportamento. Quem não conversou com a criança dificilmente conseguirá dialogar com o adolescente, nem obterá respostas, se nunca demonstrou interesse sincero pelo cotidiano dos filhos. Já ouvi no consultório jovens manifestarem irritação e estranhamento diante do interesse tardio de pai ou mãe. É na construção do diálogo respeitoso e acolhedor que os pais conseguem distinguir a omissão da verdade da mentira.

Na omissão de um acontecimento ou experiência, o adolescente apenas não relata detalhes ou todo o evento, por inibição, receio ou medo. Isso acontece porque ele começa a construir seu próprio universo e nem todas as experiências serão compartilhadas, já que deseja garantir sua privacidade. Já a mentira envolve a substituição da verdade por uma narrativa inventada, que exige enredos entrelaçados. É mais grave e requer atenção. Daí a importância de estabelecer confiança mútua, por meio de um espaço emocional suficientemente acolhedor para permitir as manifestações do filho.

Vale ressaltar que as mentiras se organizam em torno do sistema de valores da família. Adultos que mentem na frente dos filhos autorizam, ainda que indiretamente, que eles repitam esse comportamento. Envolvê-los em situações mentirosas, mesmo as aparentemente inofensivas, pode gerar atitudes reprováveis no futuro. Crianças percebem, por exemplo, quando adultos dão um “calote” em alguém, ou quando são chamadas à cumplicidade em pequenos delitos dos pais, com frases como:

“Não conte que eu comprei…”
“Não conte que vi ou falei com tal pessoa.”
“Não conte que fui a tal lugar.”
“Me ajude a esconder…”

No outro extremo, a rigidez excessiva também pode obstruir o canal de comunicação. Famílias muito restritivas e autoritárias encontram maior dificuldade para dialogar e, muitas vezes, não sabem ouvir o que o jovem tem a dizer. Nesse contexto, adolescentes podem mentir sobre qualquer experiência pessoal, desde o desempenho escolar até acontecimentos cotidianos.

Adolescentes tendem a mentir quando não confiam nos pais, quando não existe espaço para diálogo e quando, em vez de respeito, sentem medo. O autoritarismo e o desrespeito às individualidades são grandes vilões da interação familiar.

A autoridade paterna existe por si só, não precisa ser conquistada nem imposta. Quando os pais são inseguros, recorrem ao autoritarismo, que se expressa em gritos, punições desproporcionais e indiferença ao estágio de desenvolvimento dos filhos. Essas atitudes promovem distanciamento e confronto.

A adolescência é uma fase natural de questionamento de valores e princípios. Invariavelmente, os pais se sentem desafiados pelas questões colocadas pelos filhos e, muitas vezes, reagem com temor. Nesses casos, é recomendável buscar ajuda profissional antes que a situação fuja ao controle.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Zero Hora Digital.

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Às voltas com a adolescência – por Dra. Vera Resende

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A adolescência é apenas uma das fases do desenvolvimento humano. No entanto, família, escola e sociedade tendem a colocá-la no centro das discussões sempre que problemas sérios envolvem jovens. Em vez de olharem para o indivíduo que rompeu alguma norma, regra ou entrou em conflito com a lei, fazem referências a uma geração inteira, como se todos os adolescentes agissem da mesma forma. Isso não acontece com os adultos. Se o infrator estiver na faixa dos 30 ou 40 anos, não se atribui rebeldia, irresponsabilidade ou agressividade à sua geração.

Há inúmeras hipóteses para explicar esse tipo de atitude. Não pretendo explorá-las em detalhe neste espaço, mas convido o leitor a refletir sobre o universo de pessoas que ainda percebem a adolescência como um símbolo de liberdade. Muitos suspiram de saudade ao lembrar da própria juventude; entretanto, no papel de pais ou educadores, mostram-se ansiosos e até hostis diante da inquietação e dos questionamentos característicos dessa fase.

A expressão “aborrecente”, a meu ver, é agressiva. Ela traduz o descompasso entre as necessidades emocionais do jovem e a predisposição do adulto para acolhê-las, tornando a convivência mais difícil. Além disso, denuncia a dificuldade de muitos pais em assumir seu papel. Mas afinal, qual seria esse papel?

Enquanto etapa do desenvolvimento psicoafetivo, a adolescência exige o acolhimento de um luto: a perda do lugar na infância, do corpo infantil que rapidamente se transforma, da referência dos pais que oscilam entre manter a costumeira proteção e cobrar responsabilidades. A insegurança aumenta porque nada é oferecido em troca: a tão sonhada liberdade de escolha ainda não é plenamente concedida.

Diante disso, o adolescente se sente incompleto, inadequado e, por vezes, incapaz. Sem encontrar seu lugar, pode reagir de forma ruidosa e quase histérica ou, em outras situações, de modo depressivo e silencioso.

Que tal começarmos a ouvir, de fato, nossos adolescentes?


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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