Início do Ano Escolar e Agenda Infantil – por Dra. Vera Resende

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O início do ano escolar é um momento oportuno para refletir sobre o que está acontecendo com a infância e sobre a forma como temos conduzido a vida das crianças. Até alguns anos atrás esse questionamento seria improvável. A infância era marcada pela despreocupação e pelas brincadeiras. Hoje muitas crianças quase não têm tempo para brincar. Suas rotinas estão preenchidas por uma agenda extensa de atividades e quando conseguem um intervalo as brincadeiras se limitam aos jogos de computador, muitas vezes de modo solitário. Surge então a dúvida. Essa nova tendência realmente favorece o desenvolvimento infantil?

Vivemos em uma sociedade que parece não reservar espaço para a criança. Muitas permanecem confinadas em casas pequenas e são mantidas em excesso de compromissos na tentativa de protegê-las da violência das ruas. Em outros casos a intenção é acelerar a preparação para o futuro. Um dos reflexos mais negativos desse modelo é o prejuízo para a sociabilidade. As relações humanas hoje estão marcadas pelo medo e pela desconfiança. A tolerância, a compaixão e a solidariedade aparecem com menos frequência e isso dificulta o enfrentamento de situações que exigem diálogo e negociação.

Uma agenda programada integralmente pelos adultos compromete o desenvolvimento do senso de responsabilidade. A criança não aprende a administrar o próprio tempo porque nunca teve a oportunidade de organizá-lo. Isso gera dificuldades quando ela precisa lidar com tarefas e compromissos assumidos por iniciativa própria. A infância precisa de tempo ocioso. É nesse espaço que a imaginação se desenvolve, que surgem as brincadeiras e que a convivência entre pares se fortalece.

Além da falta de uma rede de amigos criada pelas próprias crianças, muitas têm poucos irmãos ou nenhum e poucos primos. Com isso convivem menos com outras crianças da mesma idade. Essa convivência faria diferença na troca de experiências e ajudaria no distanciamento natural dos assuntos do mundo adulto. É importante observar o contexto que sustenta esse modelo educativo e reconhecer seus efeitos no desenvolvimento da sociabilidade. Em muitas famílias as crianças se tornam depositárias das expectativas dos pais. Muitos adultos projetam nos filhos seus ideais de autorrealização e sucesso. A sociedade atual é competitiva e cria a impressão de que todos precisam demonstrar felicidade e êxito. Esse ambiente não protege as crianças. Ele se torna fonte de ansiedade e interfere no seu bem-estar.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Saiba se você é um alienador ou alienadora parental – por Dra. Vera Resende

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A alienação parental é uma interferência negativa nas relações afetivas entre a criança e uma de suas principais figuras parentais, pai ou mãe, com a finalidade de despertar e alimentar sentimentos de ódio, desprezo ou repulsa. Trata-se de um processo mais amplo do que apenas limitar o acesso ao filho ou impedir o contato físico e visual com o outro genitor. Comentários constantes que desqualificam a imagem pessoal, atitudes hostis, questionamentos infundados sobre hábitos e decisões e críticas recorrentes fazem parte de uma campanha silenciosa que fragiliza a figura paterna ou materna.

Os efeitos da alienação parental se estendem a toda a família e podem dificultar ou até impedir a convivência da criança com avós, tios e primos, sem que haja uma justificativa razoável para isso.

É importante compreender que a alienação parental não ocorre apenas em casos de separação ou divórcio, com ou sem litígio. Esse processo pode se iniciar ainda durante a convivência do casal, integrar as dinâmicas cotidianas da família e, em alguns casos, se estender ao longo de toda a vida. Outros membros familiares também podem assumir comportamentos alienadores ao estimular críticas e comentários depreciativos sobre um dos genitores na presença da criança.

A alienação parental faz parte de um quadro de relacionamento abusivo e patológico, pois promove um verdadeiro sequestro emocional. Ao manipular e desviar o objeto de amor naturalmente escolhido pela criança, cria-se uma ruptura nas relações primárias que sustentam o desenvolvimento psicoafetivo.

Homens e mulheres podem atuar como alienadores. Em geral, a pessoa se percebe como vítima, atribui ao outro genitor a responsabilidade exclusiva pelo fracasso conjugal e orienta suas atitudes por sentimentos de raiva, ciúme e desejo de vingança. Traços patológicos costumam moldar uma postura aparentemente superprotetora, enquanto o alienador se coloca como único modelo possível para a criança. Nesse contexto, o filho é transformado em confidente e, muitas vezes, passa a ocupar um lugar de autoridade em relação ao genitor alienado.

A experiência clínica permite identificar formas sutis de alienação parental. A mudança de residência para locais distantes pode gerar um corte profundo na interação entre genitor e filho, criando uma convivência artificial, sem espaço íntimo e contínuo que sustente o vínculo parental. A desvalorização da figura paterna ou materna, apresentada sob a forma de vitimismo, pode levar a criança a assumir responsabilidades que não lhe cabem, tornando-se fonte de ansiedade precoce. Também é comum a tentativa de minimizar ou desqualificar a vida cultural e social do genitor afastado, como estratégia para fortalecer o vínculo exclusivo com quem detém a guarda.

Outro aspecto frequente é a manipulação dos sentimentos da criança, quando se deixa de ensinar o reconhecimento e o agradecimento e se permite o menosprezo às manifestações afetivas do genitor alienado. Esse processo compromete o desenvolvimento do caráter e da empatia. Com o tempo, o genitor afastado passa a ser percebido como alguém estranho.

As repercussões psicológicas desse abuso emocional podem ser profundas e duradouras. Observam-se quadros de depressão, dificuldades na construção da identidade e da autoimagem, sentimentos persistentes de culpa, isolamento, comportamentos hostis, prejuízos na organização emocional, dificuldades de socialização e de estabelecimento de vínculos afetivos. Em situações mais graves, podem surgir tendências à automutilação e comportamentos suicidas. A criança também pode apresentar resistência intensa a regras e responsabilidades compatíveis com sua idade, além de prejuízos no desempenho escolar e no senso de continuidade da própria existência.

É fundamental que os adultos reconheçam seus limites e superem o próprio egoísmo, sem transferir para a criança os conflitos conjugais e as frustrações afetivas. Preservar o direito da criança de amar e conviver com ambos os genitores é um cuidado essencial para sua saúde emocional e para a construção de relações mais saudáveis no futuro.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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A violência de todo dia – por Dra. Vera Resende

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A sociedade está abalada com o aumento dos casos de feminicídio, que se tornam mais frequentes e mais visíveis a cada ano. O que nem sempre percebemos é que convivemos diariamente com outras formas de violência que passam despercebidas. A repetição desses comportamentos acaba por naturalizar gestos, palavras e atitudes agressivas no ambiente familiar, profissional e social, tornando difícil identificar quando a violência se instala.

No campo da cultura, a exposição constante a cenas de agressão também influencia nossa percepção. Filmes exibidos na televisão, mesmo os considerados leves, apresentam tramas marcadas por assassinatos e conflitos físicos. Jogos eletrônicos estimulam disputas baseadas na eliminação do oponente. A convivência com esse cenário contribui para a banalização da violência na vida cotidiana. O mesmo ocorre com agressões verbais, insultos e atitudes de humilhação, que surgem com a mesma frequência da violência física. Sempre há alguém tentando se impor sobre o outro por meio da força.

O problema se agrava quando essa normalização é transportada para a vida concreta. As brigas em bares, boates e ambientes esportivos são exemplos evidentes desse comportamento descontrolado. Infelizmente, a violência também chegou às escolas. Em muitos contextos, parece que perdemos a noção dos limites entre o aceitável e o intolerável.

Na prática clínica, encontro com frequência mulheres que sofrem violência e não reconhecem a gravidade da situação. Algumas mascaram o problema ao justificar a agressividade do parceiro com o uso de álcool ou drogas. Outras acreditam que a violência faz parte do destino, pois cresceram observando mães e avós vivendo relacionamentos marcados por desrespeito e dor. Esse padrão repetido por gerações cria um ciclo de conformismo difícil de quebrar.

A passividade diante de situações agressivas se torna um terreno fértil para o agravamento da violência. Relatos de empurrões, insultos, ameaças e destruição de objetos aparecem com naturalidade, como se fossem episódios passageiros. No entanto, a violência raramente diminui com o tempo. Ao contrário, tende a crescer à medida que a vítima perde a capacidade de reconhecer seus direitos e sua individualidade.

É fundamental prestar atenção ao que se apresenta como normal apenas porque é frequente. A violência psicológica costuma ser o primeiro passo. Ela aparece na desqualificação da vítima, no desprezo por suas ideias, na culpabilização constante e na tentativa de controlar suas escolhas. Quando a mulher deixa de se reconhecer como sujeito com voz e autonomia, o caminho para a agressão física se abre. Um objeto arremessado na parede hoje pode se voltar contra o próprio corpo amanhã. Um ataque verbal que parece pontual pode evoluir para espancamentos. E, em muitos casos, pode tirar a vida.

Romper esse ciclo requer consciência, apoio emocional e acesso a redes de proteção. A mulher não deve acreditar que suporta agressões em nome dos filhos, porque esse comportamento oferece às crianças um modelo de relacionamento marcado pela violência e pela submissão. Reconhecer a situação e buscar ajuda não é motivo de vergonha. É um ato de preservação da vida e da saúde emocional.

A violência cotidiana não começa de forma explícita. Ela nasce no silêncio, na naturalização do desrespeito e na repetição de padrões que precisam ser interrompidos. Falar sobre isso é essencial para quebrar um ciclo histórico e criar espaços mais seguros para todas as mulheres. Se a vida se organiza pelo respeito e pelo cuidado, é nesse caminho que precisamos insistir.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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A sobrecarga que ninguém vê e que adoece tantas mulheres – por Dra. Vera Resende

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Ao reconhecer que múltiplos fatores contribuem para a deterioração da saúde mental da mulher, percebemos que este não é um tema que possa ficar esquecido em arquivos, retomado apenas ocasionalmente. O bem-estar de uma sociedade depende da saúde integral de seus membros. Trata-se de uma questão de ecologia humana, que envolve equilíbrio emocional e relações saudáveis entre as pessoas.

É fundamental que todos estejam atentos ao problema para que ele seja compreendido em seus vários aspectos e para que os cuidados necessários possam ser discutidos, avaliados e transformados em responsabilidade coletiva. Somente assim políticas públicas efetivas poderão ser construídas.

Entre os fatores mais citados como responsáveis pela quebra do equilíbrio emocional feminino, destaca-se um ponto crítico que exige mudanças profundas na mentalidade da sociedade como um todo: a sobrecarga de tarefas que recai sobre as mulheres. Essa sobrecarga se mantém na forma como se concebe a família e, por consequência, na visão sobre os papéis de homens e mulheres, historicamente definidos.

Apesar de já ser possível perceber mudanças nas relações conjugais, com casais que dividem tarefas domésticas e responsabilidades com os filhos, ainda persiste grande volume de demandas dirigidas à mulher. Essas cobranças são impulsionadas por expectativas sociais sobre o papel feminino, expectativas que continuam vivas no imaginário coletivo. O quadro se agrava porque muitas mulheres, mesmo sem intenção, também reforçam esse imaginário.

Como isso acontece?

Mulheres em posições de liderança podem, por vezes, esquecer o quanto é difícil conciliar trabalho e responsabilidades domésticas. Não é incomum ouvir queixas de falta de empatia ou apoio quando mulheres respondem a outras mulheres em ambientes profissionais. Sendo um problema social, seria desejável que aquelas que ocupam postos de comando contribuíssem para repensar modelos de trabalho e apoiar iniciativas como estruturas adequadas de acolhimento infantil.

Além disso, ainda é frequente que mulheres critiquem outras mulheres que trabalham fora, como se o exercício profissional representasse abandono dos filhos. O zelo excessivo pela manutenção da casa costuma ser mais cobrado por amigas e parentes do que por outras pessoas. O mesmo ocorre com expectativas relacionadas à aparência. Essas exigências acabam sendo internalizadas, levando muitas mulheres a se autocriticarem e se exigirem perfeição e disponibilidade em todas as áreas da vida.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Saúde mental feminina e sobrecarga emocional de mulheres – por Dra. Vera Resende

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Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que mais da metade dos brasileiros considera a saúde mental o principal problema de saúde do país. Entre as mulheres, esse número é ainda maior. Esses índices convidam a refletir sobre os fatores que contribuem para tamanha vulnerabilidade emocional.

A saúde mental feminina é atravessada por múltiplos elementos. Há uma articulação complexa entre aspectos biológicos, papéis sociais e experiências de vida. Mesmo com transformações significativas na sociedade, a mulher permanece submetida à chamada tripla jornada. A rotina envolve responsabilidades profissionais, cuidados com os filhos, gestão da casa e, muitas vezes, a função de apoio emocional da família. Essa sobrecarga não é apenas física. É psíquica.

Além disso, é frequente que essas exigências venham acompanhadas de situações de violência de gênero em suas diversas formas, como críticas recorrentes, desqualificação, desrespeito e pressões que fragilizam sua autoestima. A expectativa social de que a mulher consiga manter o controle de tudo, de maneira impecável, apenas intensifica seu sofrimento.

Cuidar da saúde mental das mulheres exige reconhecer suas especificidades e promover ações que favoreçam acolhimento, acesso a serviços qualificados e políticas públicas que sustentem essa demanda. Também é necessário desconstruir a ideia de que a mulher precisa corresponder a padrões irreais de desempenho, estabilidade emocional e disponibilidade constante.

A construção de um ambiente mais saudável passa pela mudança cultural e pela consciência coletiva de que nenhuma mulher deve carregar sozinha aquilo que pertence a toda a sociedade.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Reflexões sobre a banalização dos diagnósticos psicológicos – por Dra. Vera Resende

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Temos visto, com frequência, explicações psicológicas sobre situações sociais, violentas ou não, com clara intenção de diagnosticar possíveis patologias nas pessoas envolvidas. Parece que todos os internautas dominam teorias capazes de identificar sintomas e sinais característicos de quadros clínicos complexos que, na verdade, exigem cuidado e atenção profissional.

Muitos buscam informações duvidosas e incompletas em conteúdos divulgados por “profissionais” nem sempre da área da Psicologia, nem sempre qualificados, que descrevem comportamentos típicos de determinadas patologias sem o devido embasamento.

Não por acaso, encontramos cada vez mais pacientes jovens que chegam ao consultório com um diagnóstico pronto e mostram resistência à abordagem terapêutica, pois acreditam que já sabem o que têm e o tratamento que devem seguir. Essa nova tendência traz riscos importantes à saúde mental e emocional. Seus desdobramentos interferem na convivência familiar e, por consequência, na forma como nos relacionamos socialmente.

Um exemplo disso aparece nas distorções conceituais que transformam o ambiente familiar e os primeiros cuidados da infância em causas diretas de todos os problemas mentais. A experiência humana se desenvolve em estágios sucessivos. No primeiro deles, a infância, acontecem vivências boas e ruins que estão fora do controle da criança, pois ela ainda não possui recursos psicológicos para lidar com o que a vida lhe apresenta.

Enquanto o adulto conta com uma área de onipotência que lhe permite algum controle sobre os acontecimentos, por ter capacidade de avaliar e prever situações, a criança ainda está formando essa estrutura. Ela tenta reunir elementos externos para fortalecer o próprio ego, que ainda não é suficientemente organizado para protegê-la das ameaças. Por isso, não consegue se sentir responsável nem pelo que lhe acontece de bom, nem pelo que lhe causa sofrimento.

A criança depende do ego da mãe ou do adulto que a representa, pois é essa presença que a sustenta emocionalmente. Seu desenvolvimento avança do estágio de dependência total até a independência essencial, quando conquista a capacidade de estar só, de assumir compromissos e de sentir culpa de forma saudável. Assim, compreendemos o papel fundamental do ambiente familiar e das interações afetivas. Isso não significa que a criança não possa ser contrariada ou questionada, mas que precisa de uma base segura para aprender a lidar com o mundo e com suas próprias emoções.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Uma homenagem aos Professores – por Dra. Vera Resende

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Quem é o professor na vida de cada um de nós? E na vida dos seus filhos?

Ao compararmos as experiências escolares de diferentes gerações, percebemos uma imensa lacuna entre o período anterior às redes sociais e o atual.

As histórias que ouvíamos sobre a escola nos faziam sonhar com ela. Hoje, infelizmente, escola e professores tornaram-se, muitas vezes, alvos de críticas e desconfiança, reflexos das mesmas fragilidades que afetam toda a sociedade.

Sem a intenção de atribuir à tecnologia a culpa exclusiva pelo enfraquecimento das relações entre professor e aluno, é possível reconhecer que o uso inadequado das redes sociais tem alterado a maneira como a sociedade enxerga o papel da escola e de seus educadores.

Perdeu-se, em parte, o sentido profundo da relação professor/aluno, que antes era tecida por sonhos, expectativas, medos e descobertas levadas nas mochilas no primeiro dia de aula. A escola era percebida como um organismo vivo, um espaço que acolhia a diversidade de habilidades, limites, possibilidades e histórias de vida. Seu propósito ia além do aprendizado teórico: era um ambiente de convivência humana, respeito, pertencimento e inclusão.

A imagem da escola como espaço de crescimento e de relações saudáveis precisa ser resgatada. Como pais e como alunos, precisamos enxergá-la novamente como um lugar vivo, que pulsa e transforma. Só assim poderemos nos reconectar com o melhor de nós, despertando o desejo genuíno de viver em sociedade.

Enquanto adultos, quando levamos nossos filhos à escola, levamos também uma parte de nós mesmos: o sonho de crescer, aprender, descobrir e evoluir. Carregamos conosco a esperança de que nossas aspirações individuais possam contribuir para uma sociedade mais justa e consciente.

Que possamos, portanto, retomar o diálogo, as trocas saudáveis e o respeito mútuo. Que a tecnologia seja usada para aproximar, enriquecer o aprendizado e fortalecer a construção de um mundo mais humano, seguro e tolerante.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Adolescentes mentem? – por Dra. Vera Resende

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Recebi a mensagem de uma mãe preocupada em saber como lidar com filhos adolescentes que mentem. Essa questão nos leva a refletir sobre a forma como a comunicação se desenvolve entre os membros da família. Uma distorção nesse processo pode gerar dificuldades desde a infância e tende a se agravar na adolescência.

É fundamental instaurar hábitos de abordagem respeitosa, se o objetivo for o respeito mútuo, com transparência e coerência entre discurso e comportamento. Quem não conversou com a criança dificilmente conseguirá dialogar com o adolescente, nem obterá respostas, se nunca demonstrou interesse sincero pelo cotidiano dos filhos. Já ouvi no consultório jovens manifestarem irritação e estranhamento diante do interesse tardio de pai ou mãe. É na construção do diálogo respeitoso e acolhedor que os pais conseguem distinguir a omissão da verdade da mentira.

Na omissão de um acontecimento ou experiência, o adolescente apenas não relata detalhes ou todo o evento, por inibição, receio ou medo. Isso acontece porque ele começa a construir seu próprio universo e nem todas as experiências serão compartilhadas, já que deseja garantir sua privacidade. Já a mentira envolve a substituição da verdade por uma narrativa inventada, que exige enredos entrelaçados. É mais grave e requer atenção. Daí a importância de estabelecer confiança mútua, por meio de um espaço emocional suficientemente acolhedor para permitir as manifestações do filho.

Vale ressaltar que as mentiras se organizam em torno do sistema de valores da família. Adultos que mentem na frente dos filhos autorizam, ainda que indiretamente, que eles repitam esse comportamento. Envolvê-los em situações mentirosas, mesmo as aparentemente inofensivas, pode gerar atitudes reprováveis no futuro. Crianças percebem, por exemplo, quando adultos dão um “calote” em alguém, ou quando são chamadas à cumplicidade em pequenos delitos dos pais, com frases como:

“Não conte que eu comprei…”
“Não conte que vi ou falei com tal pessoa.”
“Não conte que fui a tal lugar.”
“Me ajude a esconder…”

No outro extremo, a rigidez excessiva também pode obstruir o canal de comunicação. Famílias muito restritivas e autoritárias encontram maior dificuldade para dialogar e, muitas vezes, não sabem ouvir o que o jovem tem a dizer. Nesse contexto, adolescentes podem mentir sobre qualquer experiência pessoal, desde o desempenho escolar até acontecimentos cotidianos.

Adolescentes tendem a mentir quando não confiam nos pais, quando não existe espaço para diálogo e quando, em vez de respeito, sentem medo. O autoritarismo e o desrespeito às individualidades são grandes vilões da interação familiar.

A autoridade paterna existe por si só, não precisa ser conquistada nem imposta. Quando os pais são inseguros, recorrem ao autoritarismo, que se expressa em gritos, punições desproporcionais e indiferença ao estágio de desenvolvimento dos filhos. Essas atitudes promovem distanciamento e confronto.

A adolescência é uma fase natural de questionamento de valores e princípios. Invariavelmente, os pais se sentem desafiados pelas questões colocadas pelos filhos e, muitas vezes, reagem com temor. Nesses casos, é recomendável buscar ajuda profissional antes que a situação fuja ao controle.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Às voltas com a adolescência – por Dra. Vera Resende

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A adolescência é apenas uma das fases do desenvolvimento humano. No entanto, família, escola e sociedade tendem a colocá-la no centro das discussões sempre que problemas sérios envolvem jovens. Em vez de olharem para o indivíduo que rompeu alguma norma, regra ou entrou em conflito com a lei, fazem referências a uma geração inteira, como se todos os adolescentes agissem da mesma forma. Isso não acontece com os adultos. Se o infrator estiver na faixa dos 30 ou 40 anos, não se atribui rebeldia, irresponsabilidade ou agressividade à sua geração.

Há inúmeras hipóteses para explicar esse tipo de atitude. Não pretendo explorá-las em detalhe neste espaço, mas convido o leitor a refletir sobre o universo de pessoas que ainda percebem a adolescência como um símbolo de liberdade. Muitos suspiram de saudade ao lembrar da própria juventude; entretanto, no papel de pais ou educadores, mostram-se ansiosos e até hostis diante da inquietação e dos questionamentos característicos dessa fase.

A expressão “aborrecente”, a meu ver, é agressiva. Ela traduz o descompasso entre as necessidades emocionais do jovem e a predisposição do adulto para acolhê-las, tornando a convivência mais difícil. Além disso, denuncia a dificuldade de muitos pais em assumir seu papel. Mas afinal, qual seria esse papel?

Enquanto etapa do desenvolvimento psicoafetivo, a adolescência exige o acolhimento de um luto: a perda do lugar na infância, do corpo infantil que rapidamente se transforma, da referência dos pais que oscilam entre manter a costumeira proteção e cobrar responsabilidades. A insegurança aumenta porque nada é oferecido em troca: a tão sonhada liberdade de escolha ainda não é plenamente concedida.

Diante disso, o adolescente se sente incompleto, inadequado e, por vezes, incapaz. Sem encontrar seu lugar, pode reagir de forma ruidosa e quase histérica ou, em outras situações, de modo depressivo e silencioso.

Que tal começarmos a ouvir, de fato, nossos adolescentes?


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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Outras formas de se roubar a infância – por Dra. Vera Resende

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Ultimamente, temos nos escandalizado com denúncias de violência contra crianças, especialmente pela exposição abusiva e sexualizada delas. Diversos segmentos da sociedade manifestaram indignação, e autoridades perceberam a necessidade de criar leis que aumentem a proteção à infância. Seria ideal supor que todo adulto tivesse alguma responsabilidade pela criança que estivesse ao alcance de seu campo de visão, independentemente de laços de parentesco. Talvez assim a omissão fosse banida e muitas situações de abandono, violência e negligência pudessem ser evitadas.

A percepção de uma infância consumidora e já articulada ao mundo adulto pode aumentar sua vulnerabilidade, pois retira a criança do lugar em que antes era vista como símbolo de despreocupação e brincadeiras. O lúdico representava um dos mais sagrados direitos da infância, permitindo explorar a fantasia, extrair informações do mundo exterior e preparar-se para as etapas futuras da vida.

Atualmente, é comum que crianças não tenham tempo nem espaço para brincar. Suas agendas estão superlotadas de atividades, voltadas para um preparo precoce para o futuro, com a ilusão de protegê-las da violência das ruas. No entanto, acabam privadas da experiência única de conquistar autonomia, já que seu tempo permanece subordinado a horários e atividades impostos por outras pessoas, associados a compromissos, e não por elas mesmas.

Quando lhes sobra algum tempo livre, ele é frequentemente preenchido por jogos eletrônicos e redes sociais. Nesse espaço, a criança descobre precocemente o supérfluo e o integra em sua experiência, de tal modo que passa a fazer tanta falta quanto o essencial.

Assim, consolida-se um novo conceito que tolera um silencioso processo de adultização, que rouba a infância em nome de uma responsabilidade precoce. É preciso ter cuidado com o desejo de acelerar o desenvolvimento infantil, suprimindo oportunidades de fantasiar, brincar, criar e imaginar, na ilusão de forçar o crescimento e “colocar para frente” etapas que deveriam ser vividas no tempo certo.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


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