Bets chegam cada vez mais cedo à vida dos jovens

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Relatos de grupos de apoio incluem adolescentes de 14 anos; pesquisas apontam início precoce das apostas e impactos sobre endividamento e educação.

As apostas online estão chegando cada vez mais cedo à vida dos jovens e já levam adolescentes a procurar ajuda para tentar interromper o comportamento compulsivo. Segundo Luiz Carlos, integrante da irmandade Jogadores Anônimos, há relatos de pessoas de 14 anos que chegaram ao grupo acompanhadas por profissionais de saúde.

“Hoje quem chega à irmandade é muito jovem. Já chegou até de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos”, relata.

O avanço das apostas pelo celular facilita o acesso às plataformas e amplia a exposição de crianças e adolescentes. Dados citados pela Agência Brasil apontam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar online até os 11 anos. A partir dos 12 anos, o percentual chega a 78%, segundo dados do Unicef de 2021.

No Brasil, uma pesquisa divulgada neste ano pela Frente Parlamentar Mista de Educação, com 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio, indicou que 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Entre os alunos do terceiro ano do ensino médio entrevistados, quase metade afirmou já ter feito apostas.

Quando a aposta passa a controlar a rotina

A história de Gustavo Pereira mostra como o problema pode evoluir. Aos 24 anos, ele conta que começou a apostar online aos 18 e, ao longo de seis anos, perdeu cerca de R$ 500 mil.

Segundo Gustavo, houve momentos em que conseguiu transformar R$ 10 mil em centenas de milhares de reais, mas também perdeu os valores acumulados. Com o tempo, afirma que passou a perder a dimensão do dinheiro e a pensar cada vez mais nas apostas.

“Eu dormia pensando em apostar e acordava pensando em apostar”, relata.

Atualmente, Gustavo diz estar há cerca de dois meses sem apostar e tenta reconstruir a vida trabalhando com a venda de café nas ruas de Lages, em Santa Catarina. Ele também mantém um perfil nas redes sociais no qual compartilha a rotina de trabalho e a tentativa de evitar recaídas.

A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes são mais vulneráveis a estímulos relacionados à recompensa porque as estruturas cerebrais responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos ainda estão em desenvolvimento.

“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, afirma.

O cassino dentro do celular

Para quem acompanha o problema há décadas, a principal mudança está na facilidade de acesso.

Luiz Carlos, de 71 anos, conta que começou a jogar na década de 1980, quando frequentava estabelecimentos com máquinas de videopôquer. Segundo ele, era necessário sair de casa para jogar.

Hoje, afirma, o cenário é diferente: “Você carrega um cassino dentro do seu bolso”.

A avaliação é compartilhada por outros frequentadores dos Jogadores Anônimos. Carla Xavier, Rogério e Rodrigo relatam períodos de afastamento das apostas, mas também descrevem as consequências financeiras provocadas pela compulsão.

Carla afirma que o grupo tem recebido pessoas já profundamente endividadas e em situações de grande sofrimento. Segundo ela, o acesso permanente às plataformas fez esse tipo de situação crescer.

Apostas também afetam orçamento e estudos

O impacto das bets não aparece apenas nos relatos de dependência. Um relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) citado no levantamento aponta que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, e quase metade ficou endividada.

Para o diretor do IBICT, Tiago Braga, a aposta online não deve ser tratada como investimento, mas como gasto. Segundo ele, quanto mais recursos são destinados às apostas, menor é a disponibilidade de dinheiro para despesas e projetos pessoais.

Os reflexos também chegam à educação. Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) apontou que 34% dos entrevistados disseram que precisariam deixar de gastar com apostas para conseguir iniciar uma graduação em 2026.

Entre estudantes que já estavam no ensino superior, 14% afirmaram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso por causa dos gastos com bets. Outros 34% disseram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado.

O diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, afirma que os dados não permitem generalizar o comportamento dos jovens, mas mostram que, para uma parcela dos entrevistados, o dinheiro destinado às apostas interfere em decisões relacionadas à educação.

Menores de 18 anos não podem apostar

O ambiente digital também passou a ter novas regras de proteção para crianças e adolescentes. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como ECA Digital, entrou em vigor em março de 2026 e estabeleceu novas medidas para ampliar a proteção de menores no ambiente virtual.

Entre as regras está a proibição de apostas online para menores de 18 anos. O texto também prevê mecanismos de verificação de idade e amplia as responsabilidades relacionadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

O advogado especialista em direito digital Felipe Moreira destaca que a mudança busca superar o modelo anterior, no qual a confirmação da idade podia depender apenas da informação digitada pelo próprio usuário.

A psicóloga Mariana Kehl também chama atenção para a publicidade feita por influenciadores. Segundo ela, quando uma aposta é apresentada por uma pessoa acompanhada diariamente pelo jovem, a mensagem pode ser percebida mais como recomendação do que como publicidade tradicional.

O desafio, portanto, envolve mais do que impedir o acesso de menores às plataformas. Os relatos e pesquisas citados apontam para uma questão que envolve educação financeira, saúde, comportamento, regulação e prevenção.

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Foto: Joédson Alves/ABR

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SUS amplia para 100 mil atendimentos mensais a pessoas viciadas em apostas

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O Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou para até 100 mil teleatendimentos por mês a capacidade de atendimento a pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas online. A expansão entrou em vigor nesta terça-feira (4) e busca atender ao aumento da procura pelo serviço.

Disponível por meio do aplicativo Meu SUS Digital, o atendimento é remoto, sigiloso e oferece acolhimento profissional para pessoas que apresentam sinais de dependência em apostas. A iniciativa é realizada em parceria com o Ministério da Fazenda e a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).

Procura pelo serviço aumentou

O serviço começou a ser oferecido em março deste ano e realizava, em média, cerca de 600 teleatendimentos mensais.

Segundo o Ministério da Saúde, a ampliação foi necessária devido ao crescimento da demanda por apoio especializado.

Além do acolhimento inicial, o atendimento funciona como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (Raps), responsável pelo acompanhamento de pessoas com transtornos relacionados à saúde mental.

Mais de 1 milhão pediram bloqueio em sites de apostas

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde mostram que mais de 1 milhão de pessoas solicitaram a autoexclusão do CPF de plataformas de apostas por meio da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, disponível no Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas.

Segundo a pasta, 35% dos usuários informaram que recorreram ao bloqueio por terem perdido o controle sobre as apostas.

Quais são os sinais de alerta?

O Ministério da Saúde orienta que alguns comportamentos podem indicar que o jogo deixou de ser uma forma de entretenimento e passou a representar um problema de saúde.

Entre os principais sinais estão:

  • mudanças no sono, na alimentação ou no humor;
  • mentir para familiares e amigos sobre as apostas;
  • sentimento frequente de culpa ou vergonha;
  • ansiedade, irritabilidade ou inquietação quando não consegue jogar;
  • dificuldade para reduzir ou interromper as apostas;
  • utilização dos jogos como forma de aliviar estresse ou frustrações;
  • prejuízo nas relações familiares, sociais ou profissionais;
  • aumento do consumo de álcool ou outras drogas;
  • comprometimento do orçamento pessoal ou familiar.

Fatores que aumentam o risco

O Ministério da Saúde também destaca fatores que podem favorecer o desenvolvimento da dependência em jogos de apostas.

Entre eles estão:

  • contato precoce com jogos de aposta;
  • facilidade de acesso às plataformas digitais;
  • busca por alívio emocional;
  • histórico de depressão, ansiedade ou outros transtornos mentais;
  • impulsividade;
  • influência social e cultural favorável às apostas;
  • isolamento social;
  • vulnerabilidade socioeconômica.

Como buscar ajuda

O atendimento pode ser solicitado pelo aplicativo Meu SUS Digital e é realizado de forma remota, preservando o sigilo do paciente.

Caso seja necessário, o usuário é encaminhado para acompanhamento presencial na Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que integra os serviços especializados do Sistema Único de Saúde.

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Foto: Tânia Rêgo/Ag. Brasil

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Apostas online comprometem renda de quase metade de apostadores, diz Procon

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Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira (21) pelo Procon-SP revelou que 48% das pessoas que afirmam jogar e fazer apostas online já comprometeram boa parte da renda com a atividade, o que as levou a pedir dinheiro emprestado e/ou retirar dinheiro de aplicações financeiras para poder continuar jogando.

O questionário foi respondido por 1.533 consumidores que acessaram o site e as redes sociais do Procon-SP entre 3 de dezembro de 2024 e 8 de janeiro de 2025. A pesquisa na íntegra está disponível aqui.

O Procon considera os dados preocupantes, já que entre os apostadores, 71% disseram ter mais perdas financeiras do que ganhos e 39% afirmaram possuir dívidas em razão da atividade. O valor gasto em apostas online supera R$ 1.000 mensais para 18% dos apostadores entrevistados. 4% deles disseram gastar até R$ 100; 26%, entre R$ 100 e R$ 500; 8% entre R$ 500 e R$ 1.000.

Entre os entrevistados, 89% declararam receber ofertas de jogos ou apostas em suas redes sociais ou celular; e 52% declararam que as publicidades com “celebridades” os influenciaram na decisão de jogar ou apostar.

Apostas online e direitos do consumidor

63% dos apostadores informaram na pesquisa que já enfrentaram problemas com a empresa que oferta os jogos. As principais questões apontadas foram: recusa da empresa em efetuar o pagamento do prêmio (57%); envio constante de mensagens incentivando a jogar e apostar (14%); e falta de clareza nas regras do jogo, formas de aposta e valor do prêmio.

Neste grupo, apenas metade disse ter tomado alguma atitude, entre elas: deixaram de se relacionar com a empresa, denunciaram aos órgãos competentes ou fizeram contrapropaganda da empresa em redes sociais, para amigos e familiares. A Procon-SP registrou cerca de 2.300 reclamações relacionadas a apostas online desde janeiro de 2024, cerca de 90% se referem à não devolução de valores ou não pagamento de prêmios.

Procon-SP fará ação de conscientização sobre apostas online

O Procon-SP fará ação de conscientização em meios digitais para alertar os consumidores sobre os riscos das apostas online e para orientar sobre como solicitar ajuda dos órgãos de defesa do consumidor em casos de infração.

No site oficial do Procon-SP, é possível consultar quais empresas de apostas online têm autorização do Ministério da Fazenda para operar no Brasil. É fundamental que o consumidor saiba de todas as regras e também dos riscos de cada modalidade de jogos e apostas ofertadas online e autorizadas a atuar no mercado nacional.

A legislação assegura aos apostadores todos os direitos dos consumidores previstos no Código de Defesa do Consumidor: direito à informação adequada e clara sobre como jogar, as condições e os requisitos para acerto de prognóstico lotérico, resgate dos valores, aferição do prêmio (sendo proibida a utilização de escrita dúbia, abreviada ou que induza a erro); informações sobre os riscos de perda dos valores das apostas e aos transtornos de jogo patológico (ludopatia); além da proteção dos dados pessoais conforme a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.

A Lei 14.790 publicada em 2023 dispõe sobre apostas e as publicações de Portarias do Ministério da Fazenda estabelecem as regras a serem seguidas para operar no Brasil, lembrando que estas empresas para funcionarem devem, dentre vários requisitos, ter sede em território nacional.

Leia também: Fundação Pró-Sangue de SP reforça campanha de doação para antes e durante o Carnaval


Fonte/foto: Governo de SP

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Ministério da Saúde compara vício em “bets” à dependência de outras drogas

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O Ministério da Saúde comparou o vício em jogos on-line ao uso desenfreado de outras drogas, como o álcool.

Segundo o parecer da Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, a ludopatia, como é conhecido o vício em jogos, exige uma mudança na estrutura de atendimento à população. Seria necessário, por exemplo, guiar o tratamento no mesmo molde do que, hoje, é ofertado a quem é dependente em álcool ou outras drogas.

A pasta ainda afirma que é preciso que toda a rede de atenção psicossocial seja qualificada para o atendimento das demandas relacionadas ao jogo.

Em um despacho ao Supremo Tribunal Federal, a pasta defendeu o fortalecimento da estrutura para tratar os apostadores crônicos.

O posicionamento da pasta busca contribuir para o julgamento de uma ação que já tramita no STF. O processo, movido pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, questiona o impacto da regulamentação das bets na saúde e na renda dos brasileiros.

Leia também: Defesa de Deolane Bezerra recorre ao STF para barrar depoimento da influenciadora em CPI


Fonte: TV Cultura – Foto: Joadson Alves/Ag. Brasil

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