A violência nossa de cada dia

0 0
Read Time:3 Minute, 30 Second

Quando ouvimos a palavra violência, logo vem à nossa mente uma violência explícita, aquelas de filmes e series disponíveis nas plataformas digitais, com sangue jorrando, facadas, tiros para todos os lados, mortes em profusão. Infelizmente assaltos, assassinatos, confrontos armados entre as forças de segurança e facções criminosas estão cada vez mais presentes nos noticiários. No entanto, existe uma outra forma de violência menos visível, mas igualmente presente em nosso dia a dia. Ela se manifesta na abissal desigualdade social que nosso país vive e não consegue superar. A violência “invisível” está na fome de milhões de pessoas desassistidas socialmente, no trânsito caótico e selvagem das grandes cidades, no barulho insuportável, onde quer que se esteja, nos transportes públicos superlotados, no atendimento precário de serviços públicos. Esse tipo de violência que já está normalizada pela população, embora não deixe marcas físicas visíveis, afeta nossa saúde mental, emocional, psicológica, podendo deixar marcas profundas e duradouras.

Nossa vida comum está constantemente sendo agredida por fatos cotidianos, que, invariavelmente, levam a uma desumanização em nossos relacionamentos e comportamentos interpessoais. O silêncio tornou-se um objeto de luxo. É insuportável o som estridente de buzinas, sirenes, equipamentos de obras civis, veículos de todas as espécies e tamanhos, eventos diversos que invadem os espaços públicos. O trânsito, não apenas nas grandes cidades, é caótico. Motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres convivem em estado de constante disputa por espaço. Até mesmo deslocamentos simples, são transformados em experiências desgastantes. As cidades, que em sua maioria tiveram um crescimento desordenado, são desumanizadas. Por exemplo, raramente se encontra calçadas bem conservadas, com acessibilidade para idosos e pessoas com deficiência. Transporte insuficiente, torna a mobilidade um grande desafio. O direito de ir e vir, indispensável em qualquer manual de cidadania, acaba comprometido por obstáculos que não deveriam existir. O atendimento aos usuários de órgãos públicos, como hospitais, bancos, escolas, repartições públicas, deveriam ser muito mais humanizados, respeitar a dignidade do cidadão, cidadã, principalmente dos idosos e das pessoas com deficiência de locomoção. Quem utiliza os serviços públicos, geralmente o faz por necessidade e não por diversão e deveria ser tratado com maior solidariedade, respeito e educação possível.

A soma desses problemas cria um ambiente permanente de tensão. Nos acostumamos a viver sob pressão, desenvolvendo sentimentos de frustração, desesperança, irritação e rancor. Quando a violência cotidiana se torna normal, a sociedade perde qualidade de vida, enfraquece os vínculos comunitários e reduz sua capacidade de construir relacionamentos e comportamentos mais solidários. A falta de bem-estar coletivo também impacta a produtividade econômica e aumenta os custos com saúde pública. Não atuamos,voluntariamente, para desenvolver o bem comum. Além das, ultra necessárias e sempre atrasadas, ações governamentais, a população também pode e deve contribuir, adotando atitudes mais respeitosas no trânsito, preservando os espaços públicos, evitando a poluição sonora e exercendo a solidariedade no convívio diário. A violência nas grandes cidades não se limita à criminalidade. Ela também está presente nas pequenas agressões diárias que comprometem a dignidade, a solidariedade e a qualidade de vida das pessoas. O barulho excessivo, os congestionamentos, os transportes lotados, a mobilidade precária e as dificuldades no acesso à saúde formam um conjunto de problemas que afetam milhões de cidadãos. Reconhecer a existência dessa violência cotidiana é o primeiro passo para combatê-la. Exigir medidas e ações do poder público é um dever de toda a população que se julga afetada. Daí a importância do voto consciente em candidatos(as) que se preocupam com o bem comum. Somente por meio de um planejamento urbano, investimentos públicos e participação social será possível construir cidades mais humanas, eficientes, solidárias, justas e acolhedoras para todos. Sem violência, aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Foto de Fauzan Saari na Unsplash

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
50 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
50 %
erro: