Doença de Creutzfeldt-Jakob: o que é e quais são os sintomas

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A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurológica rara, degenerativa e de rápida progressão, voltou a chamar atenção após o diagnóstico do piloto e criador de conteúdo Lito Sousa, conhecido pelo canal Aviões e Músicas.

A doença está relacionada ao acúmulo de formas anormais de proteínas chamadas príons no cérebro. Essas proteínas alteradas comprometem o funcionamento dos neurônios e provocam uma rápida degeneração do sistema nervoso.

Até o momento, não existe cura nem tratamento comprovado capaz de interromper a progressão da doença. Pesquisadores, no entanto, desenvolvem estudos no Brasil e em outros países em busca de alternativas terapêuticas.

Como a doença age no cérebro

A DCJ pertence ao grupo das chamadas doenças priônicas.

De acordo com pesquisadores, quando uma proteína assume uma forma anormal, ela pode induzir outras proteínas saudáveis a também se modificarem, provocando um efeito em cadeia.

Com o acúmulo dessas proteínas, os neurônios passam a ser comprometidos, levando à degeneração progressiva do cérebro.

Na maioria dos casos, ainda não é possível determinar exatamente por que esse processo começa.

Uma pequena parcela está relacionada a alterações genéticas. Também existem formas extremamente raras associadas à exposição a príons durante determinados procedimentos médicos ou ao consumo de produtos contaminados.

Quais são os sintomas?

Os sintomas podem variar conforme as regiões do cérebro afetadas.

Em geral, a doença pode provocar inicialmente alterações na memória e em outras funções cognitivas. Com a progressão do quadro, podem surgir dificuldades de movimentação, comunicação e alterações visuais.

A evolução costuma ser rápida e pode ocorrer ao longo de meses.

A DCJ é mais frequente em pessoas idosas, embora também possa atingir pacientes mais jovens.

Caso de Lito Sousa chamou atenção para doença rara

O diagnóstico de Lito Sousa, piloto e criador do canal Aviões e Músicas, levou a doença a ganhar repercussão nas redes sociais.

Segundo relatos divulgados por familiares, o quadro apresentou evolução rápida, com dificuldades de movimentação, alterações na visão e na fala.

A repercussão também ampliou a procura por informações sobre a DCJ e os estudos científicos que tentam encontrar formas de combater a doença.

Pesquisas buscam possíveis tratamentos

Nos Estados Unidos, pelo menos duas linhas de pesquisa investigam medicamentos que possam reduzir a produção da proteína que serve de base para a formação dos príons anormais.

Uma das pesquisas mais avançadas utiliza uma tecnologia conhecida como oligonucleotídeo antissenso, aplicada por meio de procedimento na região da medula.

Os estudos ainda estão em andamento e os resultados definitivos devem ser divulgados nos próximos anos.

Os pesquisadores avaliam se a redução da produção da proteína poderia retardar a progressão da doença. Até agora, porém, não há comprovação de eficácia clínica capaz de interromper ou curar a DCJ.

Pesquisa brasileira estuda compostos naturais

No Brasil, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com outras instituições, estudam compostos extraídos da moringa oleífera.

Os experimentos iniciais identificaram substâncias que demonstraram potencial, em laboratório, para interferir no processo de formação e acúmulo dos príons.

Entre os compostos analisados estão o ácido clorogênico e o ácido neoclorogênico.

A pesquisa, no entanto, ainda está em fase inicial e os resultados observados em laboratório não significam que exista um medicamento ou tratamento disponível para pacientes.

Os próximos passos envolvem novos testes em células e, posteriormente, estudos em animais e seres humanos.

Diagnóstico é um dos desafios

Um dos exames considerados mais avançados para auxiliar na confirmação da DCJ é o RT-QuIC, que identifica a atividade dos príons a partir de amostras do paciente.

Por envolver agentes capazes de transmitir uma doença grave, o procedimento exige condições específicas de biossegurança.

No Brasil, o exame é realizado pelo Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ.

O diagnóstico da DCJ também pode envolver exames de imagem, análise do líquor e avaliação clínica.

A rapidez no diagnóstico é considerada importante porque a doença apresenta evolução acelerada e pode provocar mudanças significativas no quadro do paciente em pouco tempo.

O que se sabe até agora

A Doença de Creutzfeldt-Jakob continua sendo um dos grandes desafios da neurologia.

A ciência já avançou na compreensão do papel dos príons e no desenvolvimento de métodos de diagnóstico, mas ainda não existe uma terapia comprovada capaz de deter a doença.

As pesquisas em andamento representam possibilidades futuras, mas os próprios cientistas ressaltam que ainda são necessários estudos clínicos para determinar se os tratamentos experimentais são seguros e eficazes.

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Foto: Reprodução/Instagram/@Lito

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Estudo da USP mostra alta prevalência de depressão, ansiedade e estresse após a COVID-19

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Em estudo feito com 425 pacientes que se recuperaram das formas moderada e grave da COVID-19, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) observaram uma alta prevalência de déficits cognitivos e transtornos psiquiátricos. As avaliações foram conduzidas no Hospital das Clínicas entre seis e nove meses após a alta hospitalar.

Mais da metade (51,1%) dos participantes relatou ter percebido declínio da memória após a infecção e outros 13,6% desenvolveram transtorno de estresse pós-traumático. O transtorno de ansiedade generalizada foi diagnosticado em 15,5% dos voluntários, sendo que em 8,14% deles o problema surgiu após a doença. Já o diagnóstico de depressão foi estabelecido para 8% dos pacientes – em 2,5% deles somente após a internação.

Os resultados completos da pesquisa, que contou com apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foram divulgados na revista General Hospital Psychiatry.

Um dos principais achados é que nenhuma das alterações cognitivas ou psiquiátricas observadas nesses pacientes se correlaciona com a gravidade do quadro. Também não vimos associação com a conduta clínica adotada no período de hospitalização ou com fatores socioeconômicos, como perda de familiares ou prejuízos financeiros durante a pandemia de COVID-19”, conta Rodolfo Damiano, médico residente do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM-USP) e primeiro autor do artigo.

O estudo integra um projeto mais amplo, coordenado pelo professor da FM-USP Geraldo Busatto Filho, no qual um grande grupo de pessoas atendidas no Hospital das Clínicas entre 2020 e 2021 vem sendo acompanhado por profissionais de diversas áreas, entre elas otorrinolaringologia, fisiatria e neurologia, a fim de avaliar eventuais sequelas deixadas pelo SARS-CoV-2.

Durante meu doutorado, eu coordenei a avaliação neuropsiquiátrica, cujos resultados preliminares foram descritos neste artigo”, conta Damiano à Agência FAPESP. O trabalho foi orientado pelo professor da FM-USP Eurípedes Constantino Miguel Filho.

Uma de nossas preocupações era entender se esse vírus e a doença por ele causada têm impacto no longo prazo, produzindo manifestações tardias no sistema nervoso central”, conta E. Miguel.

Para o pesquisador, o fato de não ter sido encontrada uma correlação clara entre a condição psiquiátrica e a magnitude da doença na fase aguda ou fatores psicossociais – incluindo os de natureza socioeconômica ou vivências traumáticas – corrobora a hipótese de que alterações tardias relacionadas à infecção pelo SARS-CoV-2 (como processos inflamatórios associados a alterações imunológicas, danos vasculares associados a coagulopatias ou a própria presença do vírus no cérebro) teriam papel na origem dos transtornos.

A presença de manifestações clínicas, como perdas cognitivas, cefaleias, anosmia [perda do olfato] e outras alterações neurológicas nesses pacientes contribuem com evidências adicionais de que essas alterações psiquiátricas possam refletir a ação do SARS-CoV-2 no sistema central.


Leia também: Dose de reforço aumenta a proteção contra os sintomas graves da Covid-19


Metodologia

Todos os participantes foram submetidos a uma bateria de testes cognitivos para avaliação de habilidades como memória, atenção, fluência verbal e orientação espaço-temporal.

Observamos bastante perda cognitiva. Em um teste que mede a velocidade de processamento, por exemplo, os pacientes demoravam em média duas vezes mais do que o esperado para a idade [com base em valores médios descritos na literatura científica para a população brasileira]. E isso foi observado para todas as idades”, conta Damiano. “Além disso, mais da metade relatou, de forma subjetiva, um declínio na memória.

Os voluntários também passaram por uma entrevista estruturada com um psiquiatra e responderam a questionários padronizados usados no diagnóstico de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

Como descrevem os autores no artigo, a prevalência de “transtorno mental comum” (sintomas depressivos, estados de ansiedade, irritabilidade, fadiga, insônia, dificuldade de memória e concentração) no grupo estudado (32,2%) foi maior do que a relatada para a população geral brasileira (26,8%) em estudos epidemiológicos.

Nesses pacientes, a prevalência de transtorno de ansiedade generalizada (14,1%) foi consideravelmente maior do que a média dos brasileiros (9,9%). A prevalência de depressão encontrada (8%) também é superior à estimada para a população geral do país (entre 4% e 5%).

Os pacientes que evoluem para a forma grave, em geral, são mais comprometidos clinicamente [por problemas cardíacos, renais, diabetes e outras comorbidades] e, consequentemente, já apresentam mais sintomas psiquiátricos. Isso foi considerado na análise. Mesmo corrigindo para esse fator, a prevalência observada no estudo foi muito alta”, afirma Damiano.

O agravamento de sintomas psiquiátricos após infecções agudas é algo comum e esperado, comenta o pesquisador. “Mas com nenhuma outra doença viral se observou tanta diferença e perdas cognitivas tão significativas como com a COVID-19. Uma das possíveis explicações é o próprio efeito do vírus no sistema nervoso central”, comenta. “Se essas perdas são recuperáveis é algo que ainda não sabemos.”

Próximos passos

Atualmente, o grupo da USP estuda amostras de sangue coletadas dos voluntários durante o período de internação. O objetivo é avaliar o perfil de citocinas (proteínas do sistema imune que regulam a resposta inflamatória) para descobrir se há correlação entre o grau de inflamação durante a fase aguda da COVID-19 e o desenvolvimento de sintomas neuropsiquiátricos.

Caso exista alguma correlação, o passo seguinte será investigar se drogas inibidoras de interleucinas [um dos tipos de citocina] podem ser usadas para prevenir o aparecimento ou o agravamento de sintomas psiquiátricos”, conta.

Para quem já foi afetado, Damiano indica vacinação e acompanhamento psiquiátrico. “Há evidências de que exercícios físicos ajudam a reverter alterações cognitivas associadas a doenças graves e também há treinos de reabilitação cognitiva que podem ser feitos com acompanhamento de um neuropsicólogo habilitado. Além disso, acredito que a prática de meditação pode ser benéfica.


Fonte/texto: Portal Governo SP – Imagem: Rawpixel

O artigo Post-COVID-19 psychiatric and cognitive morbidity: Preliminary findings from a Brazilian cohort study pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0163834322000020#!.

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