Dia das Mulheres expõe avanços e desigualdades na vida das brasileiras

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Empreender, cuidar da família e lidar com desigualdades que ainda marcam o mercado de trabalho fazem parte da rotina de milhões de brasileiras. Para muitas delas, a busca por autonomia profissional também nasce do desejo de equilibrar carreira e maternidade.

Maria Joana Darc Paulino Gomes Barbosa, proprietária da Sapataria Ophicina Dos Calçados, divide o dia entre a gestão de um negócio no setor de serviços e os cuidados com os filhos. A decisão de empreender surgiu justamente da necessidade de ter mais flexibilidade para acompanhar o crescimento da família, levá-los à escola e participar mais de perto do cotidiano deles. Joana afirma que organização e uma rede de apoio formada pelo marido e pela família foram fundamentais para tornar essa rotina possível.

Maria Joana Darc Paulino Gomes Barbosa
Foto: Arquivo Pessoal

A trajetória da empresária reflete um movimento crescente no país. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, indicam que cerca de 48,1 milhões de mulheres fazem parte da força de trabalho brasileira, considerando a população com 14 anos ou mais. Apesar disso, a participação feminina no mercado ainda é menor que a masculina. Enquanto a taxa de participação dos homens supera 70%, entre as mulheres fica pouco acima de 50%. No mesmo período, o Brasil registrou cerca de 103 milhões de pessoas ocupadas, um dos maiores patamares da série histórica, mas a desigualdade permanece visível.

O desemprego segue mais elevado entre mulheres. Levantamentos da PNAD Contínua mostram que, em alguns períodos recentes, a taxa de desocupação feminina superou 8%, enquanto entre os homens ficou próxima de 5% a 6%. A diferença é ainda maior no recorte racial, já que mulheres negras continuam registrando taxas mais altas de desocupação e informalidade.

Outro fator relevante nesse cenário é a dupla jornada. Além das atividades profissionais, as mulheres seguem dedicando mais tempo aos cuidados da casa e da família. A consultora e professora de Comércio Exterior Marcia Hashimoto afirma que o desafio exige disciplina e organização constantes. “Administrar o tempo é uma habilidade essencial para quem concilia família e carreira. Aprender a organizar a rotina ajuda a minimizar a culpa que muitas mães sentem ao dividir as responsabilidades entre o trabalho e os cuidados com os filhos”, explica.

Marcia Hashimoto – Foto: Arquivo pessoal

Empreendedorismo cresce entre mulheres

Diante dessas dificuldades, o empreendedorismo tem surgido como alternativa para muitas brasileiras. Levantamento do Sebrae com base na PNAD Contínua mostra que o Brasil possui cerca de 10,4 milhões de mulheres à frente do próprio negócio, número recorde e equivalente a aproximadamente 34% dos empreendedores do país. O crescimento é significativo nas últimas décadas, mas ainda convive com obstáculos como acesso mais restrito a crédito e menor faturamento médio.

A corretora de seguros e criadora do Empodera, grupo de empresárias que aposta no networking e na colaboração feminina para o crescimento de mulheres no empreendedorismo, Fatima Cossolin já conciliou a maternidade com a gestão de um negócio próprio e afirma que organização e capacitação profissional são fundamentais nesse processo. Segundo ela, quando existe preparo e planejamento, é possível administrar as demandas da família e do trabalho. “A presença feminina no empreendedorismo evoluiu nos últimos anos, embora ainda exista espaço para maior valorização e respeito às mulheres no ambiente profissional”, diz.

Fatima Cossolin – Foto: Arquivo Pesoal

A experiência de outras empreendedoras reforça esse cenário. Michelle Magalhães Costa, fundadora da Pulse Estratégia, decidiu estruturar o próprio negócio para conseguir permanecer mais próxima da família. Sem rede de apoio familiar e sem babá, precisou reorganizar a rotina e priorizar escolhas que permitissem conciliar maternidade e carreira. “O maior desafio é o tempo. Muitas vezes precisamos dizer não a projetos interessantes porque sabemos que não conseguiremos assumir naquele momento”, afirma. Para Michelle, a maternidade também exige mudanças de mentalidade e mais clareza sobre os próprios limites. “Não existe romantismo. A carga para a mulher é maior, mas seguimos trabalhando e buscando crescer”, resume.

Michelle Magalhães Costa. – Foto: Arquivo Pessoal

A experiência de Maria Joana Darc Paulino Gomes Barbosa também ilustra essa realidade. Ela afirma que eliminar o sentimento de culpa foi um passo importante para equilibrar vida pessoal e profissional. Apesar da satisfação com a escolha, reconhece que os desafios são constantes, especialmente na administração do tempo e nas cobranças internas provocadas pela dupla jornada. Ela também percebe dificuldades no acesso a crédito e financiamentos para mulheres empreendedoras, o que reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à educação financeira e a linhas de financiamento mais acessíveis. Para outras mães que pensam em empreender, deixa uma mensagem baseada na própria experiência. “É preciso resiliência e perseverança, porque os dias difíceis existem, mas quem tem clareza sobre seus objetivos não deve desistir”, incentiva.

Violência, desigualdade e saúde ainda desafiam políticas públicas

No campo da violência, os números continuam alarmantes. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o maior número desde que esse tipo de crime passou a ser tipificado na legislação brasileira. A maioria das vítimas é mulher negra e grande parte dos assassinatos ocorre dentro da própria residência, geralmente cometidos por parceiros ou ex-parceiros.

A violência sexual também permanece elevada. O relatório aponta mais de 87 mil registros de estupro em um ano, o equivalente a uma ocorrência aproximadamente a cada seis minutos no país. Especialistas alertam que os números podem ser ainda maiores devido à subnotificação desses crimes.

No âmbito das políticas públicas, o enfrentamento à violência contra a mulher envolve diferentes iniciativas federais e estaduais. O Ministério das Mulheres coordena programas voltados à prevenção da violência, fortalecimento da rede de proteção e ampliação de serviços de atendimento às vítimas. Entre os principais canais de apoio está a Central de Atendimento à Mulher, conhecida como Ligue 180, que funciona como serviço nacional de orientação e denúncia.

Já na área da saúde, as ações são orientadas pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, conduzida pelo Ministério da Saúde. O sistema público garante exames preventivos para câncer de mama e de colo do útero, acompanhamento pré-natal e assistência durante o parto e o puerpério. Propostas em discussão também buscam ampliar políticas específicas voltadas à menopausa e ao climatério.

O conjunto desses dados mostra que o Dia das Mulheres no Brasil representa ao mesmo tempo um momento de reconhecimento das conquistas e um alerta para desafios que ainda persistem. Avançar na igualdade de oportunidades depende de políticas públicas consistentes, mudanças culturais e de uma sociedade que reconheça a participação feminina como parte essencial do desenvolvimento econômico e social do país.

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Estudo da Fundação Seade mostra aumento da idade média das mulheres em SP

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Estudo da Fundação Seade mostra que a idade média das mulheres no estado supera a dos homens e tem aumentado ao longo do tempo. Em 2023, 23,1 milhões de mulheres residiam no estado, com predominância no grupo de 30 a 39 anos, enquanto em 2000 o destaque eram as mulheres de 10 a 19 anos, indicando mudança no perfil etário diretamente associada à queda da fecundidade no período.

Por outro lado, o aumento da longevidade contribuiu para o expressivo crescimento da população feminina idosa, como se observa no contingente de mulheres com mais de 60 anos, que mais do que dobrou, e no daquelas com mais de 90 anos, que quase quadruplicou.

Um estudo abrangente da idade média da população feminina nos municípios paulistas revelou mudanças importantes no período 2000-2023. No primeiro ano analisado, 303 municípios apresentavam idade média inferior à média estadual (30,9 anos). Em 2023, o cenário se transformou. O número de municípios com idade média inferior à média estadual (39,1 anos) diminuiu para 284. Apesar dessa elevação da idade média feminina, acompanhando a tendência estadual, a configuração territorial do indicador não sofreu alterações significativas. As áreas localizadas a oeste do estado continuaram a apresentar as maiores idades médias.

Em 2000, no estado de São Paulo, as mulheres tinham em média 30,9 anos e os homens, 29,4 anos, uma diferença de 1,5 ano, que se ampliou gradativamente nas décadas seguintes: em 2010, a idade média feminina era de 34,4 anos e a masculina de 32,5 anos; em 2023, essas idades atingiram, respectivamente, 39,1 e 36,7 anos. Outro aspecto de destaque é o aumento do diferencial entre os sexos, que cresceu para 2,4 anos no período analisado.

Em 2000, 303 municípios apresentavam média inferior à estadual (30,9 anos). As cidades com as menores idades médias eram Bom Sucesso de Itararé e Ribeirão Branco, ambas com 24,5 anos, seguidas por Nova Campina (24,8 anos). Já as cidades com as maiores idades médias eram Águas de São Pedro (39,4 anos), São Caetano do Sul (37,7 anos) e Santos (37,0 anos).

Em 2023, o cenário se transformou. O número de municípios com idade média inferior à média estadual (39,1 anos) diminuiu para 284, sendo que os mais jovens passaram a ser Canitar (33,3 anos), Bom Sucesso de Itararé (33,6 anos) e Itapirapuã Paulista (34,2 anos) e aqueles com as maiores idades médias eram Águas de São Pedro (48,1 anos), Turmalina (47,6 anos) e Floreal (46,9 anos).

Leia também: Santana de Parnaíba reforça a importância da vacinação contra a febre amarela


Fonte/foto: Governo de SP

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44% das mulheres brasileiras veem congelamento de óvulos como uma boa alternativa, diz estudo

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A eterna Rachel da série “Friends”, Jennifer Aniston, veio a público dizer no ano passado que adoraria que alguém a tivesse orientado a congelar os óvulos. A atriz contou que até os 40 anos fez diversas tentativas de engravidar, por meio da Fertilização In Vitro (FIV), e que poderiam ter dado certo, caso ela houvesse optado pela chamada “criopreservação de oócitos” – termo técnico dado ao processo pelo qual os óvulos são colhidos, congelados e armazenados para uso posterior.

Nas terras tupiniquins, diga-se, o procedimento vem sendo alvo de expressiva demanda nos últimos anos, posto que de acordo com o último Relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), em 2020 e 2021 foram realizados mais de 21 mil ciclos relacionados à reprodução humana assistida, com mais de 154 mil óvulos congelados.

Variadas condições e doenças podem prejudicar a fertilidade de homens e mulheres. Tabagismo, Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) e desequilíbrios hormonais são alguns dos fatores, sendo que um dos principais diz respeito ao tempo, já que para ambos a capacidade reprodutiva diminui gradualmente com o passar dos anos. Em especial para a mulher, todavia, o avançar do relógio biológico parece ser mais drástico, já que há um prazo definido para a produção de óvulos. É por isso que a gestação natural se torna mais difícil conforme transcorre a idade. 

Cada mulher nasce com uma quantidade fixa de óvulos e, para se ter uma ideia, a cada mês, são perdidos cerca de mil em um corpo saudável. Em torno dos 30 anos, especialistas apontam que 90% deles já se foram desse aporte do organismo e a chance de engravidar nessa faixa etária é de 15% a cada ciclo menstrual. Acompanhando essa tendência, dos 36 aos 40 anos, a probabilidade cai para 9%. E, referente ao tema, no último estudo efetuado pela Famivita, 44% das entrevistadas disseram que para elas congelar óvulos seria uma opção aos 35 anos, se não tivessem concluído o planejamento familiar. 

Na faixa etária dos 30 aos 34 anos, 46% das mulheres destacaram que o congelamento seria uma possibilidade, segundo os dados coletados. Já dos 35 aos 39 anos, esse número foi de 50%. Vale enfatizar que para 52% das mulheres tentando engravidar, o procedimento também é visto como uma alternativa.

No que se refere às informações por Estado, Tocantins, Amazonas e Goiás lideraram o ranking, com 56%, 52% e 51% delas, respectivamente, dizendo que o procedimento poderia trazer vantagens, em caso de não terem já concluído o planejamento familiar. Nesse mesmo ranking, São Paulo aparece com 49% e Rio de Janeiro com 46%.   

Congelamento de óvulos: como se faz e quais as taxas de sucesso?

De forma geral, no procedimento, a mulher necessita aplicar por cerca de 12 dias uma injeção de hormônio na área da barriga, para que seja realizada a estimulação dos ovários. Sem as injeções, as pacientes liberam em média um óvulo por mês, por vezes dois, então o estímulo tem o objetivo de aumentar esse número para 10 a 12 óvulos. 

Após esse período, a paciente recebe uma anestesia superficial, com o objetivo de evitar que sinta dor no procedimento e, através de uma agulha acoplada a um ultrassom, os óvulos são coletados, dentro do ovário. Apenas os que estão maduros são congelados, por meio de um processo chamado “vitrificação”: um tipo de congelamento rápido no qual os óvulos são banhados em nitrogênio líquido para evitar a formação de cristais de gelo, que poderiam danificá-los. Depois disso, os óvulos podem ser mantidos no espaço onde foram vitrificados ou enviados para outro local para armazenamento em longo prazo.

O êxito da técnica depende da idade da paciente e da quantidade de óvulos congelados — quando ela é efetuada abaixo dos 35 anos e mais de 10 óvulos são preservados, por exemplo, a taxa de sucesso, ou seja, a chance de ter uma gravidez bem-sucedida no futuro, é alta, de 60% a 70%. 

O congelamento de óvulos costuma ser sugerido para mulheres que não podem, ou não desejam, uma gravidez no momento atual ou em um futuro próximo. Certos casos, todavia, não deixam muita escolha para elas, como jovens que descobriram ter câncer, por exemplo — isso porque como a quimioterapia danifica a reserva de óvulos, podendo deixar a mulher infértil, convém fazer esse congelamento, antes que o tratamento passe a ser efetivado. Há, também, casos de homens trans que decidem congelar os óvulos antes do efeito dos hormônios ou cirurgias de confirmação de gênero gerarem infertilidade.

Leia também: Pós-pandemia: 45% das mulheres mostram algum tipo de transtorno mental


Fonte: Famivita – Foto: Arquivo/SES-SC

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