Uma notícia. Um clone. Uma reflexão – por Celso Tracco

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Notícia recentemente divulgada por um dos principais veículos de impressa de nosso país, informava que pesquisadores do Instituto de Zootecnia da Universidade de São Paulo, sediado em Piracicaba – SP, tiveram sucesso em clonar um porco. “O porquinho nasceu saudável com 2,5 kg. Esse primeiro porco clonado no Brasil faz parte de uma pesquisa que vai ajudar a salvar 48 mil brasileiros que precisam de transplantes de órgãos. O projeto é do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante da USP. Xenotransplanteé a transferência de órgãos entre espécies diferentes. E os órgãos dos suínos são muito parecidos com os dos seres humanos”. A notícia também esclarece que “os estudos começaram há mais de 30 anos. A eficácia dos laboratórios que já têm essa técnica estabelecida, é de apenas 1% a 5%. O próximo passo é clonar embriões geneticamente modificados para começar os estudos de transplantes em seres humanos e em futuro breve, os estudos pré-clínicos e clínicos para o fornecimento de órgãos. O coordenador do centro de pesquisa da USP explica que o sucesso na clonagem do porco foi um grande avanço, mas ainda existem desafios para que o xenotransplante faça parte da rotina da medicina” (cf. Portal G1; Jornal Nacional 03/04/2026).

Refletindo. Em primeiro lugar devemos aplaudir e enaltecer a pesquisa brasileira por esse feito. Isto coloca o Brasil em um estado avançado na técnica de clonagem de animais para não depender de outros países e dar soberania ao Brasil nesta área. Mais importante ainda ser feita pela USP, uma universidade pública. Sem dúvida um fato que deve ser aplaudido. Porém, independente de números, parece ser claro que o número de transplantes aumenta ano a ano no Brasil e a maioria deles é feita pelo S.U.S. o nosso sistema público de saúde. Também é fato que existe uma longa fila para transplantes. O principal impedimento para a obtenção de mais órgãos está na recusa, por parte das famílias dos falecidos, em permitir a retirada de órgãos que poderiam ser transplantados. Parece lógico que deveríamos ter mais campanhas educativas promovendo a doação de órgãos. Entendo, também, que se deve respeitar os sentimentos e desejos de cada família, mesmo sabendo que os órgãos de seu ente querido podem salvar vidas. Por último e não menos importante, penso que as questões éticas e sociais de se transplantar órgãos de outra espécie devem ser exaustivamente debatidas com a sociedade.  Sem dúvida a clonagem conseguida na USP, é um marco histórico que abre portas para uma revolução no transplante de órgãos. Porém o necessário desenvolvimento da pesquisa precisa ser equilibrado e cauteloso pois, os desafios técnicos, éticos e regulatórios são enormes. A sociedade civil deveria se mobilizar para obter políticas públicas garantindo que esse avanço tecnológico beneficie a população como um todo, de forma segura e justa. Assim sendo, a clonagem de porcos, ou de qualquer outro animal para fins de xenotransplante é um avanço promissor, louvável, podendo trazer esperança para milhares de doentes, mas na minha opinião, só deverá ser socialmente legítima se entre tantos outros pontos, respeitar limites éticos claros e bem conhecidos; garantir o bom tratamento aos animais em todos os procedimentos; a regulamentação, por parte do S.U.S., da chamada fila de transplante deve ser de amplo conhecimento da população e auditada por entidade respeitada, evitando a desigualdade social ao acesso; e o importantíssimo envolvimento de toda a sociedade no debate sobre necessidade ou não da clonagem.

Qual é a sua opinião sobre clonagem de animais? Deixe seu comentário e aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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Foto destaque: Sandy Millar/Unsplash

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Estudo em Ribeirão Preto vai identificar pessoas com maior e menor risco de ter câncer

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Pesquisadores brasileiros recrutam 15 mil moradores de Ribeirão Preto para estudo de susceptibilidade para câncer, ou seja, para identificar maior ou menor risco de desenvolver a doença. O estudo integra o Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon) e é realizado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, pelo Hospital das Clínicas da FMRP (HCFMRP), pela Fundação de Amparo ao Ensino, Pesquisa e Assistência (Faepa) e pela Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto.

Leandro M. Colli - Foto: Arquivo pessoal
Leandro M. Colli – Foto: Arquivo pessoal

“É necessário aprimorar os métodos de rastreamento do câncer diante do conhecimento recente que pessoas podem ter maior ou menor risco hereditário para desenvolver câncer. O rastreamento ainda é realizado praticamente do mesmo modo para todas as pessoas. Assim, indivíduos com maior risco de desenvolverem câncer podem não estar recebendo todo o investimento em prevenção necessário e aquelas com menor risco, mais do que o necessário”, explica Leandro Colli, que é professor da FMRP, médico oncologista e um dos coordenadores do projeto.

Os pesquisadores estão recrutando pacientes maiores de 18 anos que são acompanhados pelas Equipes de Saúde da Família no Distrito Oeste de Ribeirão Preto para coleta de sangue. Com o material, será feita a genotipagem do DNA para entender a soma dos fatores hereditários, que são chamados de escore poligênico. Dessa forma, a pesquisa poderá impactar na prevenção de precisão, ou seja, na prevenção específica para cada pessoa, de acordo com suas características genéticas.

Foto: FMRP-USP

“No futuro, esses escores permitirão identificar quem são as pessoas que precisam de rastreamento mais intenso para câncer e ao mesmo tempo pessoas que precisam de menos exames, o que terá grande impacto na racionalização dos recursos de saúde tanto públicos como privados”, conclui.

“Nós propomos utilizar os dados clínicos do excelente cuidado dos núcleos de saúde básica pareados com coleta de material para genotipagem. Ao final de três anos, teremos um grande banco de dados clínicos, epidemiológicos e moleculares para responder questões de oncologia e até de outras áreas”, conta o professor Dias.


Por Giovanna Grepi/Jornal da USP – Foto: Pixabay

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