Não se culpe por não celebrar o Dia das Mães – por Dra. Vera Resende

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Chegamos a maio e, com ele, mais uma data comemorativa que costuma devolver muitas pessoas aos seus dilemas. Celebrar ou não o Dia das Mães pode ser algo inquestionável para a maioria, mas, para outras, essa data é atravessada por dor. Nem sempre isso acontece por perda. Em muitos casos, vem do reconhecimento de que a pessoa que as colocou no mundo não é merecedora de homenagens. Por isso, surgem a culpa e os sentimentos ambíguos. De um lado, a obrigação de amar a mãe idealizada. De outro, a incerteza provocada pela raiva e pelo ressentimento.

A maternidade não cura distúrbios emocionais, nem transtornos de personalidade ou questões de caráter. Pessoas com sofrimento psíquico ou imaturidade emocional, quando não cuidam da própria saúde mental, podem perceber o agravamento desses aspectos após terem filhos.

Muitas mulheres se tornaram mães sem desejar, seja por pressão social, seja por falta de escolha. Em alguns casos, acabam descarregando suas frustrações nos filhos. A diversidade de perfis maternos rompe a ideia de que toda mulher é incapaz de cometer injustiças. A tendência de enxergar os filhos como extensão de si mesmas pode limitar o desenvolvimento e a autonomia deles. Assim, tornam-se controladoras e manipuladoras, gerando sofrimento.

Há também quem utilize a maternidade como instrumento para atender aos próprios interesses. Nesses casos, constroem narrativas distorcidas, recorrem à chantagem, culpam os filhos por erros que não lhes pertencem e desvalorizam conquistas quando eles buscam autonomia. Em situações mais graves, podem recorrer a abusos verbais ou físicos para impor autoridade, justificando comportamentos apenas pelo papel materno.

Outros perfis incluem mães que promovem abandono emocional, priorizando vícios ou interesses pessoais, e aquelas que competem com os próprios filhos, rivalizando com sua juventude ou sucesso. Esse tipo de dinâmica cria ambientes de sabotagem e invalidação.

Trata-se de um tema sensível. O tabu social em torno da maternidade sustenta a ideia de que toda mãe é sagrada, colocando todas sob uma mesma imagem de devoção. Com isso, filhos que se afastam costumam ser rotulados como ingratos, enquanto suas histórias de dor são desconsideradas. No entanto, mulheres têm falhas humanas que precisam ser reconhecidas, não negadas. Esse reconhecimento é parte do amadurecimento emocional.

Filhos e filhas têm o direito de não comemorar o Dia das Mães sem carregar culpa. Também têm o direito de estabelecer limites diante de relações abusivas. Considerar a própria história e as cicatrizes vividas contribui para preservar a saúde mental, o que importa mais do que sustentar aparências em uma data comemorativa.


Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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