A violência nossa de cada dia

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Quando ouvimos a palavra violência, logo vem à nossa mente uma violência explícita, aquelas de filmes e series disponíveis nas plataformas digitais, com sangue jorrando, facadas, tiros para todos os lados, mortes em profusão. Infelizmente assaltos, assassinatos, confrontos armados entre as forças de segurança e facções criminosas estão cada vez mais presentes nos noticiários. No entanto, existe uma outra forma de violência menos visível, mas igualmente presente em nosso dia a dia. Ela se manifesta na abissal desigualdade social que nosso país vive e não consegue superar. A violência “invisível” está na fome de milhões de pessoas desassistidas socialmente, no trânsito caótico e selvagem das grandes cidades, no barulho insuportável, onde quer que se esteja, nos transportes públicos superlotados, no atendimento precário de serviços públicos. Esse tipo de violência que já está normalizada pela população, embora não deixe marcas físicas visíveis, afeta nossa saúde mental, emocional, psicológica, podendo deixar marcas profundas e duradouras.

Nossa vida comum está constantemente sendo agredida por fatos cotidianos, que, invariavelmente, levam a uma desumanização em nossos relacionamentos e comportamentos interpessoais. O silêncio tornou-se um objeto de luxo. É insuportável o som estridente de buzinas, sirenes, equipamentos de obras civis, veículos de todas as espécies e tamanhos, eventos diversos que invadem os espaços públicos. O trânsito, não apenas nas grandes cidades, é caótico. Motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres convivem em estado de constante disputa por espaço. Até mesmo deslocamentos simples, são transformados em experiências desgastantes. As cidades, que em sua maioria tiveram um crescimento desordenado, são desumanizadas. Por exemplo, raramente se encontra calçadas bem conservadas, com acessibilidade para idosos e pessoas com deficiência. Transporte insuficiente, torna a mobilidade um grande desafio. O direito de ir e vir, indispensável em qualquer manual de cidadania, acaba comprometido por obstáculos que não deveriam existir. O atendimento aos usuários de órgãos públicos, como hospitais, bancos, escolas, repartições públicas, deveriam ser muito mais humanizados, respeitar a dignidade do cidadão, cidadã, principalmente dos idosos e das pessoas com deficiência de locomoção. Quem utiliza os serviços públicos, geralmente o faz por necessidade e não por diversão e deveria ser tratado com maior solidariedade, respeito e educação possível.

A soma desses problemas cria um ambiente permanente de tensão. Nos acostumamos a viver sob pressão, desenvolvendo sentimentos de frustração, desesperança, irritação e rancor. Quando a violência cotidiana se torna normal, a sociedade perde qualidade de vida, enfraquece os vínculos comunitários e reduz sua capacidade de construir relacionamentos e comportamentos mais solidários. A falta de bem-estar coletivo também impacta a produtividade econômica e aumenta os custos com saúde pública. Não atuamos,voluntariamente, para desenvolver o bem comum. Além das, ultra necessárias e sempre atrasadas, ações governamentais, a população também pode e deve contribuir, adotando atitudes mais respeitosas no trânsito, preservando os espaços públicos, evitando a poluição sonora e exercendo a solidariedade no convívio diário. A violência nas grandes cidades não se limita à criminalidade. Ela também está presente nas pequenas agressões diárias que comprometem a dignidade, a solidariedade e a qualidade de vida das pessoas. O barulho excessivo, os congestionamentos, os transportes lotados, a mobilidade precária e as dificuldades no acesso à saúde formam um conjunto de problemas que afetam milhões de cidadãos. Reconhecer a existência dessa violência cotidiana é o primeiro passo para combatê-la. Exigir medidas e ações do poder público é um dever de toda a população que se julga afetada. Daí a importância do voto consciente em candidatos(as) que se preocupam com o bem comum. Somente por meio de um planejamento urbano, investimentos públicos e participação social será possível construir cidades mais humanas, eficientes, solidárias, justas e acolhedoras para todos. Sem violência, aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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Uma notícia boa, mas com ressalvas – por Celso Tracco

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O IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, é calculado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), uma agência oficial da ONU (Organização das Nações Unidas). Ele mede o desenvolvimento dos países em três áreas: Saúde, medida por expectativa de vida ao nascer; Educação, medida pela média de anos de estudo; e Renda, medida pelo PIB (Produto Interno Bruto) per capita. O IDH global é publicado anualmente; o IDHM (municipal) é publicado a cada 10 anos com base no censo feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

No IDHM divulgado em maio último,  o Brasil registou o índice de 0,805 (quanto mais próximo de 1, maior é o Índice de Desenvolvimento Humano do país), classificando nosso país no grau de um alto desenvolvimento humano. O índice anteriorfoi 0,786, que colocava o Brasil na 84 ª posição mundial entre as 193 nações pesquisadas. Sem dúvida esta é uma boa notícia e deve ser comemorada, mas, com ressalvas. O IDH é uma média dos dados coletados em todo o território nacional. E como média, ela encobre enormes desigualdades estruturais, relacionadas ao gênero, raça e região.

A educação continua sendo o elo mais fraco do desenvolvimento humano no Brasil. É sabido e reconhecido que a escolaridade nunca foi uma política de Estado. Assim, a qualidade do ensino básico segue sendo baixa, a formação dos professores é fraca e muito desigual por região, basta pesquisar quanto ganha um professor e quanto ganha um vereador de qualquer cidade brasileira. A desproporção é chocante. A alfabetização plena ainda está longe de ser alcançada. Oficialmente ainda temos em torno de 7% da população acima de 15 anos analfabeta. Sendo que a taxa de analfabetismo entre a população negra é o dobro da registrada entre a população branca, quer seja entre os totalmente analfabetos como entre os analfabetos funcionais. O Brasil melhora no indicador porque mais alunos passam mais anos na escola, mas não necessariamente têm um ensino de qualidade.

Na saúde os brasileiros estão vivendo mais, apesar do SUS, Sistema Único de Saúde, sofrer inúmeros e contínuos cortes em seus orçamentos. A fila para exames, consultas transplantes, são notícias toda a semana, mais uma vez evidenciando a profunda desigualdade social que vive nossa sociedade. Quem pode pagar tem uma das melhores medicina do mundo, mas a imensa maioria da população tem de se submeter a um tratamento que beira a desumanidade. Tomando, como exemplo, o índice de mortalidade infantil, o índice nacional está em torno de 12,6 óbitos por 1.000 nascidos vivos. Os índices regionais são: Norte 16 óbitos por mil; no Nordeste 13,8; no Centro Oeste 12,8; no Sudeste 11,7 e no Sul 10,4. Ou seja, o índice na região Norte é 60% maior do que no Sul.

Na renda o crescimento é lento e mal distribuído, ainda que o aumento do IDH também reflita uma melhora na renda per capita. Mas isso ocorre em um contexto de estagnação econômica prolongada, informalidade elevada, baixa produtividade, concentração de renda entre os mais ricos. Além disso, é notória a desigualdade de renda entre homens e mulheres, e entre brancos e negros. O país cresce pouco, e o crescimento não chega a todos. Em termos de distribuição de renda continuamos a ser um dos dez países mais desiguais do mundo.

Contudo, o IDH de 0,805 merece aplauso. Ele mostra que o Brasil tem potencial e capacidade de avançar, mas também revela que o progresso é lento e desigual. O desafio é garantir que o desenvolvimento seja sentido por todos, e não apenas registrado em relatórios internacionais.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo

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Foto: Rovena Rosa/Ag. Brasil

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Brasil lidera América Latina em número de milionários, mas é campeão global em desigualdade

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O Brasil atingiu em 2024 a marca de 433 mil pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 5,5 milhões), segundo o relatório Global Wealth Report, elaborado pelo banco suíço UBS. Com esse número, o país se consolida como o líder em milionários na América Latina e ocupa a 19ª colocação no ranking global.

O levantamento analisou a dinâmica da riqueza em 56 países responsáveis por mais de 92% da riqueza mundial. No Brasil, o número de milionários cresceu 1,6% entre 2023 e 2024. O país está à frente de economias como Rússia e México, mas ainda distante de líderes como os Estados Unidos (23,8 milhões de milionários), China (6,3 milhões), França (2,8 milhões), Japão (2,7 milhões) e Alemanha (2,6 milhões).

Na América Latina, o México aparece em segundo lugar, com 399 mil milionários.

Patrimônio médio cresce, mas desigualdade se mantém alta

Além do aumento no número de milionários, o Brasil também registrou crescimento no patrimônio da população em geral. A média de riqueza por adulto subiu 6,4% em 2024, enquanto a mediana cresceu 9%, ambos os índices ajustados pela inflação. Desde o início da década, a média acumulou alta de 23%, e a mediana, de 28%.

Apesar dos avanços, o relatório chama atenção para a alta concentração de riqueza no Brasil. O país divide com a Rússia o maior índice de Gini patrimonial do mundo: 0,82 — em uma escala de 0 a 1, em que quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade.

Outros países com altos níveis de concentração são África do Sul (0,81), Emirados Árabes Unidos (0,81) e Arábia Saudita (0,80). Nações com economias igualmente avançadas, como Alemanha (0,68), Suíça (0,67) e China (0,62), exibem índices consideravelmente menores.

Ranking global de milionários em 2024

(quantidade de pessoas com mais de US$ 1 milhão):

  1. Estados Unidos
  2. China
  3. França
  4. Japão
  5. Alemanha
  6. Reino Unido
  7. Canadá
  8. Austrália
  9. Itália
  10. Coreia do Sul
  11. Brasil
  12. Rússia
  13. México

Países com maior desigualdade patrimonial (Índice de Gini):

  1. Brasil – 0,82
  2. Rússia – 0,82
  3. África do Sul – 0,81
  4. Emirados Árabes Unidos – 0,81
  5. Arábia Saudita – 0,80
  6. Suécia – 0,77
  7. Estados Unidos – 0,77

Apesar do crescimento econômico e do avanço patrimonial, o estudo do UBS reforça que a concentração de riqueza continua sendo um dos principais entraves ao desenvolvimento social no Brasil, exigindo políticas públicas mais eficazes para promover maior equidade.

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Foto: C. Fernandes/Getty Images

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