Candidatos discutiram políticas sociais, endividamento das famílias e SUS; senador pediu desculpas após comentário sobre o dedo perdido pelo presidente
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) trocaram acusações durante o debate eleitoral exibido pela TV Globo. O confronto passou por políticas sociais, endividamento das famílias e financiamento da saúde pública, além de um embate pessoal após uma fala do senador sobre o acidente de trabalho que levou Lula a perder o dedo mínimo da mão esquerda.
A discussão começou quando Flávio afirmou que o presidente “dá com uma mão e tira com nove dedos”. Lula reagiu, dizendo que não aceitaria ser chamado dessa forma e cobrando um pedido de desculpas.
“Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos, não vou permitir! Você vai ter que pedir desculpa”, afirmou o presidente, que também relacionou o episódio aos acidentes de trabalho e às condições enfrentadas pelos trabalhadores.
Na sequência, Flávio pediu desculpas. “Lula, se eu te ofendi, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender”, declarou.
O senador, porém, voltou a criticar o governo e questionou Lula sobre o aumento da população em situação de rua. Também repudiou o fato de o presidente tê-lo chamado de miliciano.
População em situação de rua
Durante o embate, Flávio afirmou que a população em situação de rua havia dobrado durante o governo Lula. O material citado na reportagem aponta que 365,8 mil pessoas estavam nessa condição em dezembro de 2025, um aumento de 55% em relação a 2022, segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua.
Pesquisadores ressaltam que parte da variação pode estar relacionada a diferenças nos métodos de contagem, à busca ativa e à inclusão de pessoas vulneráveis nas políticas sociais. Portanto, o crescimento registrado não significa necessariamente que todo o aumento corresponda a pessoas que passaram recentemente a viver nas ruas.
Bolsa Família e licença-maternidade
Lula também questionou Flávio sobre seu voto contrário à ampliação da licença-maternidade, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. O senador reconheceu o voto e afirmou que mudou de posição.
“Eu votei acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem arrumar emprego, eu estava errado”, declarou Flávio, acrescentando que, após se casar e ter duas filhas, passou a reconhecer a importância da mãe permanecer mais tempo com o filho.
O presidente criticou a justificativa e afirmou que o adversário não respondeu objetivamente à pergunta. Lula também mencionou publicações antigas de Flávio nas quais o senador teria chamado o Bolsa Família de “bolsa-farelo”, classificando a expressão como falta de respeito com a população de baixa renda.
Em resposta, Flávio afirmou que pretende manter e ampliar os benefícios sociais, incluindo o Bolsa Família.
Dívidas das famílias e contas públicas
Outro tema do debate foi o endividamento das famílias brasileiras. Flávio atribuiu ao governo federal parte da responsabilidade pelas dificuldades financeiras da população e questionou o presidente sobre o crescimento da dívida pública.
O senador afirmou que pretende utilizar a Caixa Econômica Federal para comprar dívidas de consumidores junto aos bancos e refinanciá-las, caso seja eleito.
Lula respondeu que uma iniciativa de renegociação já havia sido encaminhada por seu governo ao Senado. O presidente também mencionou medidas anteriores de renegociação e perdão de dívidas, citando uma operação de R$ 15 bilhões que, segundo ele, envolveu 4,5 milhões de pessoas.
Durante a discussão, Flávio citou uma dívida de R$ 11 trilhões, fazendo referência à Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), indicador calculado pelo Banco Central.
Candidatos divergem sobre o SUS
A saúde pública também esteve entre os temas discutidos. Lula questionou Flávio sobre declarações atribuídas a um integrante da equipe econômica do senador a respeito dos investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS). O presidente ainda criticou a gestão da pandemia de Covid-19 durante o governo de Jair Bolsonaro.
Lula atribuiu ao SUS um papel importante na resposta à pandemia e criticou declarações do ex-presidente sobre vacinação e a condução das medidas sanitárias.
Flávio afirmou que pretende manter e ampliar os investimentos no sistema, mas criticou a gestão atual, as filas de atendimento e o financiamento da saúde pública.
O senador declarou que pretende combater a corrupção e a burocracia, reduzir impostos e aumentar a tabela de procedimentos do SUS. Também mencionou as dificuldades financeiras enfrentadas pelas Santas Casas.
O debate reuniu, assim, confrontos pessoais e divergências sobre políticas sociais, economia e saúde, com os dois candidatos defendendo suas propostas e criticando a atuação do adversário.
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Foto: Fernando Frazão/ABR
