Caso Rodrigo Bocardi mostra por que reputação não se constrói na crise

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Uma carreira pode levar décadas para ser construída e poucos dias para ser colocada em dúvida. Tenho falado bastante sobre reputação nesta coluna. O episódio envolvendo o jornalista Rodrigo Bocardi e o SBT, que ganhou repercussão nesta semana, mostra por que esse é um assunto ao qual vale a pena voltar. O caso chama atenção não apenas pelo desfecho profissional, mas pelo que revela sobre um patrimônio que muitas vezes só é percebido quando começa a ser colocado em risco. A reputação.

Antes de qualquer análise, é preciso separar fato de acusação. As denúncias que vieram a público são negadas pelo jornalista e, segundo o SBT, as investigações internas não encontraram provas que comprometessem sua idoneidade. O caso ainda envolve versões distintas e terá seus próprios desdobramentos, mas existe uma questão que ultrapassa o episódio.

O que acontece quando a credibilidade de alguém passa a ser questionada publicamente?

Essa pergunta interessa a qualquer profissional, empresa ou marca que tenha construído sua trajetória com base na confiança. Reputação não é uma fotografia, é um acúmulo. Ela se forma lentamente, a partir de experiências, relações, entregas, escolhas e comportamentos que, ao longo do tempo, produzem uma determinada percepção. É por isso que uma pessoa pode passar décadas construindo uma trajetória respeitada e, ainda assim, descobrir que a confiança acumulada não funciona como uma espécie de seguro contra uma crise. Funciona, no máximo, como uma reserva de credibilidade e toda reserva pode ser consumida. Essa lógica vale também para as empresas.

Durante muito tempo, comunicação empresarial foi tratada principalmente como ferramenta de divulgação. A empresa precisava aparecer, divulgar seus produtos, anunciar suas novidades e conquistar espaço na imprensa. Hoje, isso é insuficiente, uma empresa também precisa cuidar daquilo que permanece depois que a notícia termina. Precisa cuidar da percepção que deixa e, é aí que reputação se torna um ativo de negócio.

Ela não aparece como uma linha no balanço financeiro. Não pode ser contabilizada da mesma maneira que um equipamento, um estoque ou um investimento e, ainda assim, influencia decisões concretas.

Um cliente escolhe uma empresa porque confia nela. Um fornecedor aceita estabelecer uma relação comercial porque acredita que será bem tratado. Um profissional aceita trabalhar com uma organização porque considera sua imagem compatível com aquilo que procura. Um parceiro associa sua marca à outra porque acredita que essa associação não colocará sua própria reputação em risco. Nenhuma dessas decisões acontece no vazio, existe uma percepção anterior sustentando cada uma delas. Por isso, reputação não deveria ser responsabilidade exclusiva do departamento de comunicação. Ela é consequência das decisões da própria organização.

Não adianta construir uma narrativa de transparência se a experiência do cliente contradiz essa narrativa. Não adianta falar em excelência se a entrega é inconsistente. Não adianta publicar conteúdo sobre ética se as relações comerciais revelam outra realidade. A comunicação pode tornar uma reputação mais conhecida, mas não consegue sustentá-la sozinha quando a prática insiste em desmentir o discurso. Esse é um ponto especialmente importante para pequenos negócios.

Em empresas menores, a distância entre a marca e as pessoas que estão à frente dela costuma ser muito curta. O cliente não se relaciona apenas com uma identidade visual ou com um CNPJ, ele se relaciona com o empresário, com o especialista, com o médico, com o consultor, com a pessoa que representa aquela empresa. A reputação do profissional passa a fazer parte da reputação do negócio e isso torna a construção de autoridade ainda mais delicada.

Vivemos um momento em que visibilidade se tornou relativamente fácil de comprar, produzir e ampliar. É possível publicar todos os dias, investir em distribuição, contratar produção de conteúdo e colocar uma marca diante de milhares de pessoas, mas visibilidade não é confiança. Ser conhecido não significa ser respeitado e autoridade não nasce simplesmente porque alguém fala muito sobre determinado assunto.

Autoridade é consequência de consistência. Ela aparece quando conhecimento, experiência, posicionamento, comportamento e comunicação começam a formar uma percepção coerente. É por isso que reputação não deveria entrar na agenda de uma empresa somente quando surge uma crise.

Quando a crise chega, já é tarde para começar a construir credibilidade. O que existe naquele momento é o resultado do trabalho realizado anteriormente. Uma empresa que manteve relações consistentes ao longo dos anos terá uma história para apresentar. Uma empresa que sempre foi coerente terá comportamentos que sustentam sua posição. Uma fonte que construiu credibilidade terá um histórico capaz de ajudar o público a interpretar uma situação controversa. Nada disso impede uma crise, mas pode mudar a forma como ela é recebida.

O problema é que a reconstrução da reputação não obedece à mesma velocidade da sua deterioração. É possível levar anos para conquistar confiança e precisar de muito mais tempo e investimento financeiro para tentar recuperá-la depois de uma ruptura. E não existe garantia de que ela voltará ao ponto de partida.

Algumas pessoas reconsideram suas percepções e outras não. Alguns clientes retornam e outros seguem adiante. Alguns parceiros permanecem e outros preferem não correr o risco.

É por isso que dizer que uma reputação pode ser reconstruída precisa vir acompanhado de uma ressalva. Pode, mas não necessariamente da mesma maneira, no mesmo tempo ou com o mesmo alcance. Certamente não sairá barato reconstruí-la. Em determinados casos, a reputação não volta a ser exatamente o que era e, essa talvez seja uma das razões mais fortes para tratá-la como patrimônio e não como imagem.

Imagem pode ser produzida.

Reputação precisa ser vivida.

Imagem pode mudar com uma campanha.

Reputação muda quando as experiências acumuladas mudam.

E essa diferença deveria orientar a maneira como empresas e profissionais pensam sua comunicação. Não se trata apenas de conseguir espaço na imprensa, aumentar seguidores ou produzir mais conteúdo. Trata-se de construir uma presença pública coerente com aquilo que se pretende representar. Porque, no fim, reputação é aquilo que permanece quando a comunicação deixa de falar e credibilidade é aquilo que faz alguém acreditar no que você diz quando seria mais fácil duvidar.

Talvez por isso o maior trabalho de comunicação não aconteça durante a crise e sim antes dela.

Lembre-se: É quando ninguém está olhando que uma empresa constrói a reputação que poderá fazer diferença quando todos estiverem olhando.

Comunicação é um Ativo de Negócio.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista, assessora de imprensa e consultora em comunicação estratégica, posicionamento de marca e construção de autoridade para pequenos e médios negócios. Há mais de 26 anos desenvolve estratégias para fortalecer a reputação, ampliar a visibilidade e posicionar empresas, produtos e especialistas como referência em seus segmentos. É sócia da Six Comunicação Integrada.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Como pequenos negócios podem ganhar autoridade em um mundo dominado pela inteligência artificial – por Adriana Vasconcellos Soares

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Durante muitos anos, a visibilidade de pequenas empresas dependia principalmente de publicidade, indicação de clientes e presença nas redes sociais. Hoje, a lógica da comunicação está mudando rapidamente. A inteligência artificial está transformando a forma como as pessoas pesquisam informações, escolhem fornecedores e tomam decisões de compra.

Nesse novo cenário, a assessoria de imprensa deixa de ser uma ferramenta utilizada apenas por grandes empresas e passa a ocupar um papel estratégico também para pequenos negócios. A mudança acontece porque a inteligência artificial alterou o caminho da informação.

Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude, Perplexity e os próprios resumos gerados pelo Google passaram a responder perguntas dos usuários antes mesmo que eles visitem um site. Quando alguém procura por um profissional, uma empresa ou uma solução para determinado problema, muitas vezes recebe uma resposta pronta, baseada em conteúdos considerados confiáveis pelos sistemas de inteligência artificial. E é justamente nesse ponto que a imprensa ganha relevância.

Credibilidade passa a valer mais do que alcance

As redes sociais continuam importantes, mas enfrentam um desafio crescente. O volume de conteúdo produzido diariamente é tão grande que conquistar atenção se tornou cada vez mais difícil. Além disso, alcance não significa necessariamente confiança. Uma publicação pode alcançar milhares de pessoas e ainda assim gerar pouco impacto na percepção do público. Já uma reportagem, uma entrevista ou um artigo publicado em um veículo de comunicação costuma carregar um elemento que nenhuma rede social consegue reproduzir integralmente, a credibilidade editorial.

Quando uma empresa é citada por um veículo de imprensa, ela passa por um processo de validação que fortalece sua reputação perante clientes, parceiros e mercado. Na era da inteligência artificial, esse reconhecimento ganha uma dimensão adicional, já que as IAs tendem a utilizar fontes consideradas confiáveis para construir respostas e recomendações. Isso significa que a presença em veículos de comunicação pode contribuir para aumentar a autoridade digital de uma marca.

Pequenas empresas também podem ser referência

Existe uma percepção equivocada de que assessoria de imprensa é um recurso exclusivo para grandes corporações. Na prática, pequenos negócios possuem algo extremamente valioso para a imprensa, que são histórias reais, conhecimento especializado e conexão direta com problemas que afetam a vida das pessoas.

Empresas familiares, profissionais liberais, clínicas, escritórios, consultorias e prestadores de serviço acumulam experiências que podem gerar pautas relevantes para veículos locais, regionais e até nacionais. O desafio não está na falta de conteúdo, mas na capacidade de transformar conhecimento em informação de interesse público.

É exatamente esse o papel da assessoria de imprensa.

Mais do que divulgar produtos ou serviços, ela identifica oportunidades de posicionamento, constrói narrativas relevantes e conecta especialistas aos temas que estão em discussão na sociedade.

Autoridade digital não se constrói apenas com algoritmos

Muitas empresas concentram seus esforços exclusivamente nas redes sociais. Embora essas plataformas sejam importantes, elas estão sujeitas a mudanças constantes de algoritmo, alcance e comportamento do usuário. Por isso, uma estratégia baseada apenas em redes sociais cria dependência de plataformas que a empresa não controla.

A assessoria de imprensa ajuda a diversificar essa presença.

Entrevistas, reportagens, artigos de opinião e participações em pautas jornalísticas geram ativos de reputação que permanecem disponíveis por muito mais tempo. Além disso, fortalecem a presença da marca em ambientes que podem ser utilizados como referência por buscadores e sistemas de inteligência artificial. Em outras palavras, a empresa deixa de depender apenas da própria comunicação e passa a contar também com reconhecimento externo.

A nova disputa é por confiança

A inteligência artificial está tornando a informação mais acessível, mas também está ampliando a necessidade de fontes confiáveis. Quanto maior o volume de conteúdo disponível, maior a importância da credibilidade. Nesse contexto, pequenas empresas que investem em reputação, relacionamento com a imprensa e construção de autoridade tendem a ganhar vantagem competitiva.

A disputa não acontece apenas por visibilidade, ela acontece por confiança. E confiança continua sendo um dos ativos mais valiosos para qualquer negócio. No ambiente digital atual, ser encontrado é importante, mas ser reconhecido como uma fonte confiável pode fazer toda a diferença quando um cliente, um parceiro ou até mesmo uma inteligência artificial precisa escolher quem merece ser lembrado.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista formada pela Universidade de Mogi das Cruzes e pós-graduada em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Atua desde 2000 no desenvolvimento de estratégias para divulgar empresas, produtos e serviços. É sócia da Six Comunicação Integrada, agência especializada em criar mecanismos de comunicação para fortalecer marcas, gerar novos negócios e construir reputação sólida nos meios de comunicação.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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