Zerar seguidores não faz o Instagram entregar mais – por Adriana Vasconcellos Soares

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De tempos em tempos, uma teoria volta a circular entre criadores de conteúdo, empresas e influenciadores digitais. A ideia de que apagar seguidores ou até zerar completamente a base do Instagram faria o algoritmo “reiniciar” e voltar a entregar os conteúdos para mais pessoas.

A promessa parece tentadora. Menos seguidores ruins, mais alcance, mais crescimento. O problema é que essa lógica não funciona exatamente assim. O Instagram não possui um mecanismo de “reset” capaz de premiar perfis apenas porque removeram seguidores. O algoritmo não interpreta a exclusão da base como um sinal positivo automático. O que ele realmente observa é comportamento de audiência.

E é justamente aí que muita gente confunde causa e consequência. Perfis com muitos seguidores falsos, bots (contas automatizadas, falsas ou programadas para simular comportamento humano) ou contas inativas costumam apresentar um problema comum. Baixo engajamento proporcional. A conta até possui números altos, mas pouca interação real. Isso enfraquece sinais importantes para a plataforma, como retenção, compartilhamentos, comentários e salvamentos.

Na prática, um perfil com 100 mil seguidores e poucas interações pode parecer menos relevante para o Instagram do que outro com 10 mil seguidores altamente engajados. Por isso, quando alguém remove seguidores falsos ou inativos, algumas métricas podem melhorar naturalmente. A taxa de engajamento sobe, a audiência fica mais qualificada e o perfil passa a refletir dados mais reais. Mas isso não significa que o algoritmo resolveu entregar mais conteúdo porque o perfil “zerou”.

Existe uma diferença importante entre limpar audiência ruim e destruir completamente a base construída ao longo do tempo. Apagar todos os seguidores pode gerar efeitos negativos. O perfil perde prova social, reduz sinais históricos de relevância e enfraquece a distribuição inicial das publicações. Além disso, seguidores reais que ainda interagiam com o conteúdo também desaparecem nesse processo.

Outro ponto importante é que o Instagram vem realizando limpezas massivas de contas falsas, bots e perfis inativos desde 2025. Muitos usuários perceberam quedas bruscas no número de seguidores e passaram a associar isso a uma suposta melhora de alcance. Em alguns casos, o engajamento realmente melhora depois dessas remoções, mas não porque houve um “reset”. O que acontece é uma qualificação da audiência.

O problema central da maioria dos perfis não está apenas nos seguidores. Está no conteúdo.

Hoje, o Instagram prioriza sinais muito mais profundos do que quantidade bruta de audiência. A plataforma observa tempo de retenção, compartilhamentos, recorrência de interesse, interações reais e consistência temática. Se o conteúdo não gera interesse genuíno, zerar seguidores não resolve o problema. Muitos perfis enfrentam queda de alcance porque produzem conteúdos genéricos, sem posicionamento claro, sem narrativa e sem conexão consistente com o público. Outros sofrem com excesso de posts reaproveitados, baixa retenção nos vídeos ou frequência irregular de publicação.

O algoritmo atual favorece originalidade, relevância temática e capacidade de manter atenção. Não apenas volume de seguidores. Isso explica por que perfis menores muitas vezes conseguem crescer mais rápido do que contas enormes. O Instagram quer entregar conteúdos que façam as pessoas permanecerem na plataforma, interagirem e retornarem. É isso que define distribuição.

Nesse cenário, a estratégia mais inteligente não costuma ser radical. Em vez de apagar toda a base, o ideal é remover gradualmente seguidores claramente falsos, abandonar automações, revisar posicionamento e produzir conteúdos mais alinhados ao comportamento real da audiência. O foco precisa deixar de ser quantidade e passar a ser qualidade.

Ter menos seguidores reais e interessados tende a gerar muito mais resultado do que manter uma audiência inflada artificialmente. Afinal, bots não compram, não indicam, não comentam de verdade e não constroem reputação.

O Instagram mudou. Hoje, crescer na plataforma depende menos de “hackear algoritmo” e mais de construir relevância consistente. No fim, o algoritmo não recompensa perfis zerados. Ele recompensa conteúdo que faz sentido para pessoas reais.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista formada pela Universidade de Mogi das Cruzes e pós-graduada em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Atua desde 2000 no desenvolvimento de estratégias para divulgar empresas, produtos e serviços. É sócia da Six Comunicação Integrada, agência especializada em criar mecanismos de comunicação para fortalecer marcas, gerar novos negócios e construir reputação sólida nos meios de comunicação.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Uso massivo de inteligência artificial levanta debate sobre autenticidade na comunicação – por Adriana Vasconcellos Soares

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A inteligência artificial deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar parte da rotina de milhões de brasileiros. Aplicativos que organizam ideias, respondem perguntas e produzem textos já fazem parte do cotidiano em celulares, computadores e ambientes de trabalho. Esse avanço também levanta uma discussão importante. Até que ponto a conveniência dessas ferramentas pode influenciar a forma como as pessoas pensam, se expressam e constroem sua própria identidade?

Dados recentes indicam que o Brasil está entre os países que mais adotam a tecnologia. Um estudo da Fundação Itaú em parceria com o Datafolha, divulgado em fevereiro de 2026, revelou que 93% dos brasileiros utilizam alguma ferramenta com inteligência artificial. Apesar disso, apenas 54% afirmam entender de fato o que é a tecnologia. O levantamento mostra que a IA já está presente em diferentes atividades do dia a dia, desde aplicativos de celular até sistemas de atendimento e ferramentas profissionais.

Outras pesquisas divulgadas entre 2025 e o início de 2026 reforçam essa tendência. Os estudos indicam que entre 56% e 63% dos brasileiros já incorporaram a inteligência artificial em atividades cotidianas, como trabalho, estudo ou entretenimento. O país também aparece em posição de destaque no cenário global. Segundo levantamento da Cisco em parceria com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Brasil ocupa a segunda posição entre os países que mais utilizam inteligência artificial generativa no mundo.

Na prática, isso significa que milhões de pessoas recorrem diariamente a sistemas capazes de gerar textos, responder perguntas, sugerir ideias ou auxiliar na produção de conteúdo. Entre os usos mais comuns estão atividades relacionadas ao aprendizado e ao trabalho. Cerca de 75% dos brasileiros afirmam utilizar ferramentas de inteligência artificial para aprender algo novo ou apoiar tarefas profissionais. Outro comportamento que começa a se tornar frequente envolve a comunicação pessoal. Mais de 60% das pessoas já utilizaram inteligência artificial para escrever mensagens em aplicativos ou redes sociais.

Facilidade que pode alterar hábitos de comunicação

A popularização dessas ferramentas ocorre principalmente pela facilidade de uso. Em poucos segundos, a inteligência artificial pode sugerir respostas, corrigir textos ou ajudar a organizar ideias. Esse tipo de recurso torna a comunicação mais rápida e prática, mas especialistas começam a analisar possíveis impactos desse comportamento no longo prazo.

Quando uma ferramenta participa diretamente da construção de mensagens, e-mails ou textos pessoais, parte do processo de elaboração do pensamento pode ser transferida para a tecnologia. Com o tempo, esse hábito pode reduzir o esforço individual na formulação de ideias ou na escolha das palavras, estimulando a delegação de tarefas cognitivas à máquina. Pesquisadores que estudam comportamento digital observam que essa dinâmica pode criar uma dependência gradual. É fácil se acostumar a utilizar inteligência artificial para resolver tarefas do cotidiano. O desafio pode surgir quando a pessoa precisa retomar processos de reflexão e escrita sem o apoio da tecnologia.

Outro ponto que chama atenção é a possível padronização da linguagem. Ferramentas de inteligência artificial são treinadas com grandes volumes de dados e tendem a produzir textos claros e organizados. Esse padrão pode melhorar a qualidade da comunicação em muitos contextos. Por outro lado, quando muitas pessoas passam a utilizar as mesmas ferramentas, as mensagens podem começar a apresentar estruturas semelhantes, reduzindo marcas pessoais de estilo e expressão. Esse fenômeno levanta um debate sobre autenticidade na comunicação digital.

Em uma pesquisa realizada com 600 brasileiros, 63% afirmaram já ter utilizado inteligência artificial para escrever mensagens pessoais. Curiosamente, o mesmo percentual acredita que as pessoas eram mais autênticas e diferentes entre si no passado. A percepção sugere que a transformação tecnológica não está apenas modificando ferramentas, mas também a forma como a sociedade enxerga a própria comunicação.

Um outro dado relevante envolve a confiança nas decisões tomadas por sistemas digitais. Estudo divulgado em outubro de 2025 aponta que cerca de 51% dos brasileiros afirmam confiar mais em decisões baseadas em inteligência artificial do que em decisões humanas em determinados contextos. O resultado indica que a tecnologia vem ganhando espaço não apenas como ferramenta de apoio, mas também como referência para tomada de decisão.

Especialistas alertam, no entanto, que essa confiança precisa ser acompanhada de pensamento crítico e compreensão sobre como esses sistemas funcionam.

O papel das empresas na cultura digital

O crescimento do uso da inteligência artificial também está ligado ao ambiente corporativo. Muitas empresas já utilizam ferramentas automatizadas para otimizar processos, produzir relatórios, organizar dados e apoiar atividades de comunicação. Levantamentos já indicam que cerca de 80% das organizações planejam ampliar investimentos em inteligência artificial nos próximos anos.

A tecnologia pode contribuir para aumentar a produtividade e agilizar tarefas. No entanto, especialistas em comportamento e comunicação defendem que o uso precisa ser acompanhado de uma reflexão sobre criatividade, autonomia e pensamento crítico. Nem todas as atividades exigem necessariamente o apoio de sistemas automatizados. Em muitos casos, o desenvolvimento de ideias próprias continua sendo essencial. Por isso, as empresas também têm um papel importante na construção de uma cultura digital equilibrada, incentivando o uso consciente da tecnologia e estimulando a capacidade de análise dos profissionais.

O avanço da inteligência artificial abre espaço para uma discussão que vai além da inovação tecnológica. A forma como as pessoas se comunicam sempre foi uma expressão direta da identidade, da personalidade, da visão de mundo e da cultura de cada sociedade. Quando ferramentas digitais passam a participar desse processo, surge a necessidade de refletir sobre equilíbrio.

A tecnologia pode ampliar a capacidade humana de aprender, produzir e resolver problemas. Ao mesmo tempo, preservar a autenticidade e a diversidade de ideias continua sendo fundamental. Com a inteligência artificial cada vez mais presente na rotina, o desafio passa a ser utilizar esses recursos de forma consciente, sem renunciar àquilo que torna cada pessoa única na forma de pensar, escrever e se expressar.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista formada pela Universidade de Mogi das Cruzes e pós-graduada em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Atua desde 2000 no desenvolvimento de estratégias para divulgar empresas, produtos e serviços. É sócia da Six Comunicação Integrada, agência especializada em criar mecanismos de comunicação para fortalecer marcas, gerar novos negócios e construir reputação sólida nos meios de comunicação.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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