A imprensa perdeu relevância ou a assessoria de imprensa precisa mudar?

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“Não compensa mais sair na imprensa.”

Já ouvi algumas pessoas fazendo essa afirmação que, geralmente, vem acompanhada de comparações com as redes sociais, os podcasts e outros canais que permitem às empresas falar diretamente com seus públicos, sem depender da decisão editorial de um jornalista. É verdade que a comunicação mudou. Hoje, uma empresa pode produzir conteúdo, compartilhar conhecimento e construir relacionamentos por meio de diferentes plataformas, mas isso significa que a imprensa perdeu relevância? Ou será que precisamos rever a maneira como avaliamos o trabalho de assessoria de imprensa?

Para mim, o problema começa quando o resultado desse trabalho é medido apenas pelo número de matérias publicadas. Aparecer em um veículo não é, por si só, um resultado estratégico. É preciso considerar o contexto daquela publicação, o público que ela alcança e a relação entre o assunto abordado e os objetivos da empresa. Uma reportagem em um veículo nacional pode fazer sentido para um negócio que busca investidores. Já uma publicação regional pode ser mais relevante para uma empresa que deseja ampliar sua presença em determinado mercado. Não existe uma resposta única, o que existe é a necessidade de saber por que aquela exposição importa. Antes de perguntar quantas matérias foram conquistadas, portanto, vale entender o que a empresa pretendia alcançar com o trabalho.

A assessoria de imprensa tem uma característica que a diferencia de outros canais. A empresa não decide o que será publicado, quando a matéria sairá ou qual abordagem o jornalista dará ao assunto. Cabe à assessoria identificar pautas, preparar fontes, apresentar informações relevantes e construir um relacionamento profissional com a imprensa. A decisão final é editorial.

Nas redes sociais e nos canais próprios, como sites, blogs e newsletters, a empresa tem mais autonomia para definir o que dizer e como apresentar sua história. Isso permite manter uma comunicação contínua com seus públicos, compartilhar conhecimento e aprofundar temas relacionados ao negócio. Esses canais são importantes, mas existe uma diferença entre uma organização falar de si mesma e um veículo jornalístico considerar que sua experiência, seus dados ou seus profissionais merecem espaço em uma reportagem.

Quando uma empresa aparece em uma matéria alinhada aos seus objetivos, ela passa a integrar uma narrativa editorial que não controla integralmente. Essa exposição pode contribuir para sua credibilidade, ampliar o reconhecimento de seus especialistas e aproximá-la de públicos estratégicos.

Recentemente, um cliente foi publicado no Portal Terra e na Bons Fluidos. A repercussão observada ajudou a mostrar o valor da exposição para minha cliente que busca por mais pacientes.

O ponto não está apenas no nome do veículo. Está na combinação entre a pauta, o perfil do público e o momento vivido pelo negócio. Dependendo do que o cliente/empresa procura atrair, uma reportagem com esse alinhamento pode ter mais valor estratégico do que várias publicações sem relação direta com seus objetivos. Isso não significa que uma matéria garanta novos negócios, investimentos, novos clientes ou resultados comerciais. Significa que a escolha dos assuntos e dos veículos precisa fazer sentido dentro da estratégia de comunicação.

Quando a assessoria se resume a publicar

Parte da resistência à assessoria de imprensa pode ser explicada por experiências em que o trabalho se limita ao envio de releases, à busca por espaços e à apresentação de relatórios com a quantidade de matérias conquistadas. Nesse modelo, a empresa até pode aparecer, mas nem sempre entende o que aquela exposição acrescenta à sua reputação ou ao seu posicionamento. O volume de publicações acaba ocupando o lugar da análise sobre a qualidade e a pertinência dos resultados.

Uma assessoria estratégica começa muito antes do contato com os jornalistas. É preciso conhecer o negócio, entender seus objetivos, identificar seus diferenciais e reconhecer quais conhecimentos e experiências podem contribuir para uma pauta de interesse jornalístico. Nem sempre isso significa divulgar um produto ou serviço. Muitas vezes, o caminho está em identificar um problema relevante, explicar uma tendência, analisar uma mudança no setor ou apresentar informações que ajudem o público a compreender determinado assunto.

A experiência de uma empresa pode render boas pautas, desde que seja transformada em informação relevante para além dos interesses comerciais da própria organização. É nesse trabalho que a assessoria de imprensa se conecta à comunicação estratégica. O objetivo não é apenas conquistar espaço, mas contribuir para que a empresa e seus profissionais sejam reconhecidos por conhecimentos, experiências e temas que tenham relação com aquilo que desejam construir no mercado.

Reconhecer o valor do jornalismo não significa ignorar as transformações na maneira como as pessoas consomem informação. Redes sociais, podcasts, newsletters, sites e eventos ampliaram as possibilidades de comunicação e permitem que empresas mantenham contato frequente com seus públicos.

O erro está em tratar todos esses canais como se cumprissem a mesma função. Um artigo no blog pode aprofundar um tema e demonstrar o conhecimento da empresa. As redes sociais ajudam a distribuir esse conteúdo e manter o relacionamento com a audiência. Um podcast pode ampliar a conversa com especialistas. Já uma reportagem permite que a organização participe de uma discussão conduzida por um veículo jornalístico. Essas iniciativas podem se fortalecer mutuamente. Uma entrevista pode render novos conteúdos para os canais próprios. Um artigo pode revelar uma pauta de interesse da imprensa. A produção recorrente de conteúdo técnico também pode ajudar a preparar especialistas para entrevistas e posicioná-los como fontes em suas áreas de atuação.

Para isso, porém, as ações precisam conversar entre si. Publicar em várias plataformas, sem uma direção comum, não significa necessariamente construir uma estratégia de comunicação. Também é preciso respeitar os limites de cada canal. Uma presença ativa nas redes sociais não substitui automaticamente o relacionamento com a imprensa. Da mesma forma, conquistar uma reportagem não dispensa a empresa de manter seus canais atualizados e oferecer informações que ajudem o público a conhecer seu trabalho. A escolha deve partir dos objetivos do negócio, e não da ideia de que uma ferramenta é mais moderna ou eficiente simplesmente por estar em evidência.

Afinal, compensa sair na imprensa?

Depende do que a empresa precisa construir, do momento em que se encontra e do público que deseja alcançar. Em alguns casos, o trabalho poderá priorizar o reconhecimento de especialistas. Em outros, poderá contribuir para fortalecer a reputação em determinado setor, apresentar uma análise relevante ou ampliar a presença da empresa em discussões de interesse de clientes, investidores e parceiros. Há situações, inclusive, em que a imprensa não será o canal prioritário. Uma estratégia bem planejada não precisa utilizar todas as ferramentas disponíveis, mas precisa escolher aquelas que fazem sentido e avaliar sua contribuição ao longo do tempo.

O que não faz sentido é descartar a imprensa como se a multiplicação dos canais tivesse eliminado o valor do jornalismo. Tampouco vale manter uma assessoria apenas para contabilizar publicações, sem compreender o que elas representam para a empresa. A questão, portanto, não é simplesmente aparecer ou não aparecer. É saber por que estar naquele veículo, com aquela pauta e diante daquele público pode contribuir para os objetivos do negócio.

É assim que a assessoria de imprensa deixa de ser uma atividade medida apenas pela quantidade de matérias e passa a integrar uma estratégia mais ampla de posicionamento e reputação.

Comunicação é um ativo de negócio.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista, assessora de imprensa e consultora em comunicação estratégica, posicionamento de marca e construção de autoridade para pequenos e médios negócios. Há mais de 26 anos desenvolve estratégias para fortalecer a reputação, ampliar a visibilidade e posicionar empresas, produtos e especialistas como referência em seus segmentos. É sócia da Six Comunicação Integrada.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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O que sua empresa está fazendo para ser reconhecida antes de precisar vender?

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Existe um comportamento bastante comum entre pequenas empresas. Quando precisam vender, começam a se comunicar. Surge uma campanha, uma promoção, um lançamento, uma sequência de publicações. A empresa volta a aparecer depois de algum tempo em silêncio e espera que o mercado esteja pronto para prestar atenção. Só que a decisão de compra não começa necessariamente quando a empresa apresenta sua oferta. Antes de contratar, o cliente pode pesquisar, comparar, pedir uma indicação, procurar avaliações e tentar entender quem está por trás daquele produto ou serviço. Em muitos casos, também vai procurar informações sobre a empresa ou o profissional na internet.

É nesse intervalo, antes da venda, que reputação e reconhecimento começam a fazer diferença. Uma empresa que só aparece quando precisa vender precisa conquistar atenção justamente quando tem uma necessidade imediata. Já aquela que se mantém presente de maneira coerente ao longo do tempo chega a esse momento com algo que não se constrói em uma campanha. O cliente já ouviu falar dela, já encontrou alguma informação, já teve contato com sua maneira de pensar ou de trabalhar. Não significa que será escolhida, mas a conversa começa em outro lugar.

Reputação se constrói antes da necessidade

Ser conhecido não garante uma venda. Ser desconhecido, por outro lado, pode tornar mais difícil até mesmo entrar na consideração do cliente. Quando alguém encontra uma empresa pela primeira vez, forma uma impressão a partir do que consegue descobrir. O site, os conteúdos publicados, as redes sociais, as avaliações, as entrevistas, as recomendações e a forma como o negócio se apresenta ajudam a compor essa percepção. A empresa não precisa estar em todos esses lugares. Precisa, porém, oferecer informações que permitam entender quem é, o que faz e por que pode ser relevante.

Pense em um pequeno escritório de arquitetura. Se ele só se comunica quando precisa captar novos clientes, boa parte da construção de percepção fica concentrada nesse momento. Mas, ao longo dos meses, também pode mostrar projetos, explicar escolhas, comentar tendências e apresentar seu olhar sobre questões que interessam a quem contrata seus serviços. Isso também vale para um médico, um advogado, um consultor ou um especialista.

A experiência acumulada não precisa aparecer somente quando chega a hora de fazer uma proposta. Ela pode estar em um artigo, em uma entrevista, na explicação de uma dúvida frequente, na análise de uma mudança do setor ou em um conteúdo que mostra como determinado problema costuma ser enfrentado. Esse tipo de comunicação cumpre uma função que vai além da divulgação, ela ajuda o mercado a conhecer a empresa antes de precisar dela. E isso muda a relação com o tempo.

Quando uma empresa publica apenas para vender, sua comunicação tende a acompanhar as necessidades comerciais do momento. Quando também comunica para ser reconhecida, começa a construir um conjunto de informações que permanece disponível mesmo quando não há uma campanha em andamento.

Para pequenos negócios, essa diferença é importante. Nem sempre faz sentido disputar visibilidade com grandes marcas pela quantidade de exposição. Muitas vezes, existe uma oportunidade mais interessante em transformar o conhecimento que já está dentro da empresa em conteúdo capaz de mostrar experiência, visão e domínio sobre determinado assunto. Mas isso não significa produzir conteúdo por obrigação.

A pergunta que vale fazer é mais simples: o que sua empresa gostaria que um potencial cliente já soubesse sobre ela antes de entrar em contato? A resposta pode revelar muito sobre o papel que a comunicação está desempenhando.

Se a empresa quer ser reconhecida pela experiência, essa experiência precisa aparecer. Se deseja ser lembrada pela capacidade de resolver determinado problema, precisa mostrar que entende esse problema. Se pretende ocupar um espaço específico no mercado, sua comunicação precisa ajudar a construir essa associação. É assim que conteúdo e posicionamento começam a trabalhar junto com a reputação.

Também é por isso que não basta pensar apenas na próxima publicação. Uma comunicação consistente precisa fazer sentido quando vista como um conjunto.

Quais assuntos a empresa costuma abordar? O que revela sobre sua experiência? Que tipo de conhecimento compartilha? Como apresenta seu trabalho? Pelo que pretende ser lembrada?

Essas escolhas vão formando uma imagem ao longo do tempo e existe uma diferença importante entre comunicar e simplesmente aparecer.

Uma empresa pode publicar todos os dias e ainda assim não deixar claro porque deveria ser lembrada. Pode ter bastante movimento nas redes e pouca clareza sobre seu posicionamento. Pode falar muito sobre seus produtos e quase nada sobre o conhecimento que sustenta aquilo que oferece.

Para empresários e especialistas, essa é uma questão especialmente relevante. O objetivo da comunicação não precisa ser transformar o dono da empresa em uma figura pública. Pode ser fazer com que clientes, parceiros, jornalistas e outros públicos compreendam melhor quem está por trás daquele negócio, qual experiência existe ali e em que assuntos aquela empresa pode contribuir.

A venda continua sendo importante, mas ela não deveria ser o único momento em que a empresa se preocupa em ser percebida.

Quando chega a hora da compra, o cliente já traz alguma impressão. Pode reconhecer o nome da empresa, lembrar de um conteúdo que leu, ter encontrado uma entrevista ou simplesmente entender melhor o que aquele negócio faz. Nada disso garante uma escolha. Reputação não substitui produto, serviço, atendimento ou preço, mas influencia o contexto em que a decisão acontece.

Por isso, comunicação estratégica não deveria funcionar apenas como resposta a uma necessidade comercial imediata. Ela precisa acompanhar a trajetória do negócio. A pergunta, então, talvez não seja apenas “o que vamos divulgar quando precisarmos vender?”.

Vale perguntar também: “se alguém conhecer nossa empresa hoje, encontrará informações suficientes para entender por que ela merece ser considerada?”

Essa resposta ajuda a perceber se a comunicação está sendo tratada apenas como divulgação ou se já começou a ocupar um lugar mais amplo dentro do negócio.

Lembre-se: quando a necessidade de vender aparece, a reputação que sua empresa construiu antes já está trabalhando a favor ou contra ela.

Comunicação é um Ativo de Negócio.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista, assessora de imprensa e consultora em comunicação estratégica, posicionamento de marca e construção de autoridade para pequenos e médios negócios. Há mais de 26 anos desenvolve estratégias para fortalecer a reputação, ampliar a visibilidade e posicionar empresas, produtos e especialistas como referência em seus segmentos. É sócia da Six Comunicação Integrada.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Por que algumas empresas aparecem na imprensa e outras nunca conseguem virar notícia?

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Uma empresa pode ter uma história interessante, profissionais experientes e muito conhecimento acumulado. Ainda assim, isso não significa que tenha uma pauta jornalística. Essa é uma diferença que costuma gerar confusão. O que é importante para uma empresa nem sempre desperta o interesse de um jornalista ou do público de um veículo.

Um lançamento, a abertura de uma nova unidade, uma conquista ou o aniversário da empresa podem ter grande significado para quem está dentro do negócio. Para se transformar em notícia, porém, aquela informação precisa trazer algo que interesse também a quem está do outro lado e, é aí que muitas empresas confundem divulgação comercial com pauta jornalística.

O jornalista não começa pelo que a empresa gostaria de divulgar. Ele precisa entender por que aquela informação merece ser apresentada ao público daquele veículo. Uma pauta pode ganhar relevância porque traz uma informação nova, ajuda a explicar uma mudança, apresenta dados, mostra um comportamento que está crescendo, esclarece um problema ou coloca à disposição uma fonte capaz de analisar um assunto em discussão. Essa perspectiva muda a maneira de pensar uma pauta.

Uma empresa pode ter muito a dizer sem necessariamente ter uma notícia pronta. Cabe à comunicação identificar, dentro da experiência daquele negócio, o que pode contribuir para uma discussão que ultrapasse os seus próprios interesses. Um médico, por exemplo, não precisa falar apenas sobre sua clínica ou sobre os serviços que oferece, sua experiência pode ajudá-lo a explicar uma dúvida frequente dos pacientes, um comportamento que vem observando ou uma questão que ganhou espaço na sociedade. Isso também vale para empresários, advogados, arquitetos, especialistas em tecnologia e profissionais de outras áreas.

O conhecimento acumulado dentro de uma empresa pode se tornar informação de interesse público quando consegue ultrapassar os limites da própria empresa.

O erro de confundir divulgação com pauta

Um dos erros mais comuns na assessoria de imprensa é tentar transformar uma informação comercial em notícia apenas mudando seu título. “Empresa lança novo serviço” pode ser uma informação importante para seus clientes, mas isso não significa, por si só, que seja uma pauta relevante para um veículo. O jornalista precisa encontrar naquele lançamento um elemento que justifique a publicação. Pode ser uma mudança no comportamento do consumidor, uma tendência de mercado, um dado relevante, uma inovação com impacto mais amplo ou uma questão que ajude a explicar algo que está acontecendo.

A assessoria de imprensa pode convencer o jornalista de que toda informação da empresa merece publicação. O assessor tem o papel estratégico de encontrar os pontos de contato entre o conhecimento daquele negócio e os assuntos que interessam ao público e aos veículos. É por isso que algumas empresas aparecem na imprensa diversas vezes sem necessariamente falar de seus produtos. Elas se tornam fontes.

Um empresário pode comentar uma tendência do setor, um médico pode explicar uma dúvida que ganhou repercussão, um especialista pode analisar uma mudança regulatória e uma empresa pode apresentar dados de sua própria experiência para ajudar a compreender determinado fenômeno. Nesses casos, a marca não aparece simplesmente porque quer ser divulgada, ela aparece porque tem algo relevante a acrescentar.

Grande parte das empresas possui informações que poderiam render boas pautas, mas que permanecem restritas à rotina interna. São perguntas que os clientes fazem repetidamente, problemas que a equipe aprendeu a resolver, mudanças percebidas antes de outros profissionais, comportamentos observados ao longo dos anos e experiências que influenciaram decisões importantes. O primeiro passo é identificar esse conhecimento.

O que mudou no comportamento dos clientes? Que problema passou a aparecer com mais frequência? O que os profissionais da empresa estão observando? Existe alguma tendência que pode ser compreendida a partir da experiência do negócio? Há dados internos que ajudam a explicar um fenômeno mais amplo? Perguntas assim costumam produzir pautas mais interessantes do que uma simples apresentação institucional.

Também é preciso acompanhar o calendário jornalístico. Assuntos sazonais, mudanças econômicas, acontecimentos recentes, datas relevantes e tendências podem abrir espaço para especialistas que estejam preparados para comentar determinado tema. Nesse contexto, uma boa fonte não é necessariamente a pessoa que representa a empresa mais conhecida. É aquela que tem experiência real, consegue explicar o assunto com clareza e está disponível quando o jornalista precisa. Para o jornalista, isso faz diferença.

Uma fonte precisa ser confiável e acessível, mas também deve entender que uma entrevista não é uma apresentação comercial. A lógica da imprensa é outra.

Assessoria de imprensa e construção de credibilidade

É justamente por isso que a assessoria de imprensa pode ser entendida como uma ferramenta de construção de autoridade e reputação, e não apenas como um serviço de divulgação. O trabalho começa antes do envio de um release. É preciso conhecer a empresa, entender seus profissionais, identificar os conhecimentos que podem ser relevantes para o público, acompanhar os assuntos em discussão e reconhecer as oportunidades em que aquela experiência pode contribuir de maneira legítima. Também faz parte desse trabalho preparar fontes para entrevistas, organizar informações e construir relacionamentos profissionais com jornalistas.

Quando existe consistência, a empresa começa a ocupar outra posição. Seus profissionais deixam de ser apresentados apenas como representantes de uma marca e passam a ser reconhecidos como fontes capazes de contribuir para determinados assuntos. Essa construção não acontece de uma hora para outra e tampouco depende da quantidade de matérias publicadas.

Uma entrevista pode ter grande valor quando associa um profissional a um assunto relevante. Da mesma forma, várias publicações podem contribuir pouco para a reputação se forem apenas menções comerciais sem relação com um posicionamento claro. A imprensa pode ampliar o alcance do conhecimento de uma empresa, mas seu papel não se resume à exposição.

Uma entrevista registra uma opinião, uma reportagem pode associar um profissional a determinado assunto, uma análise publicada pode se tornar uma referência que continuará sendo encontrada depois da publicação original. É assim que a experiência começa a ganhar existência pública.

Para empresários, médicos e especialistas, talvez seja mais produtivo trocar uma pergunta por outra. Em vez de pensar apenas em “como faço para sair na imprensa?”, vale perguntar “sobre quais assuntos tenho conhecimento suficiente para ser uma fonte relevante?”.

Essa mudança de perspectiva costuma levar a uma estratégia de comunicação mais consistente e ajuda a empresa a entender que notícia não é aquilo que ela simplesmente deseja divulgar.

Lembre-se: aparecer na imprensa não começa com a tentativa de divulgar uma empresa, mas com a capacidade de oferecer ao público uma informação que vale a pena conhecer.

Comunicação é um Ativo de Negócio.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista, assessora de imprensa e consultora em comunicação estratégica, posicionamento de marca e construção de autoridade para pequenos e médios negócios. Há mais de 26 anos desenvolve estratégias para fortalecer a reputação, ampliar a visibilidade e posicionar empresas, produtos e especialistas como referência em seus segmentos. É sócia da Six Comunicação Integrada.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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Caso Rodrigo Bocardi mostra por que reputação não se constrói na crise

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Uma carreira pode levar décadas para ser construída e poucos dias para ser colocada em dúvida. Tenho falado bastante sobre reputação nesta coluna. O episódio envolvendo o jornalista Rodrigo Bocardi e o SBT, que ganhou repercussão nesta semana, mostra por que esse é um assunto ao qual vale a pena voltar. O caso chama atenção não apenas pelo desfecho profissional, mas pelo que revela sobre um patrimônio que muitas vezes só é percebido quando começa a ser colocado em risco. A reputação.

Antes de qualquer análise, é preciso separar fato de acusação. As denúncias que vieram a público são negadas pelo jornalista e, segundo o SBT, as investigações internas não encontraram provas que comprometessem sua idoneidade. O caso ainda envolve versões distintas e terá seus próprios desdobramentos, mas existe uma questão que ultrapassa o episódio.

O que acontece quando a credibilidade de alguém passa a ser questionada publicamente?

Essa pergunta interessa a qualquer profissional, empresa ou marca que tenha construído sua trajetória com base na confiança. Reputação não é uma fotografia, é um acúmulo. Ela se forma lentamente, a partir de experiências, relações, entregas, escolhas e comportamentos que, ao longo do tempo, produzem uma determinada percepção. É por isso que uma pessoa pode passar décadas construindo uma trajetória respeitada e, ainda assim, descobrir que a confiança acumulada não funciona como uma espécie de seguro contra uma crise. Funciona, no máximo, como uma reserva de credibilidade e toda reserva pode ser consumida. Essa lógica vale também para as empresas.

Durante muito tempo, comunicação empresarial foi tratada principalmente como ferramenta de divulgação. A empresa precisava aparecer, divulgar seus produtos, anunciar suas novidades e conquistar espaço na imprensa. Hoje, isso é insuficiente, uma empresa também precisa cuidar daquilo que permanece depois que a notícia termina. Precisa cuidar da percepção que deixa e, é aí que reputação se torna um ativo de negócio.

Ela não aparece como uma linha no balanço financeiro. Não pode ser contabilizada da mesma maneira que um equipamento, um estoque ou um investimento e, ainda assim, influencia decisões concretas.

Um cliente escolhe uma empresa porque confia nela. Um fornecedor aceita estabelecer uma relação comercial porque acredita que será bem tratado. Um profissional aceita trabalhar com uma organização porque considera sua imagem compatível com aquilo que procura. Um parceiro associa sua marca à outra porque acredita que essa associação não colocará sua própria reputação em risco. Nenhuma dessas decisões acontece no vazio, existe uma percepção anterior sustentando cada uma delas. Por isso, reputação não deveria ser responsabilidade exclusiva do departamento de comunicação. Ela é consequência das decisões da própria organização.

Não adianta construir uma narrativa de transparência se a experiência do cliente contradiz essa narrativa. Não adianta falar em excelência se a entrega é inconsistente. Não adianta publicar conteúdo sobre ética se as relações comerciais revelam outra realidade. A comunicação pode tornar uma reputação mais conhecida, mas não consegue sustentá-la sozinha quando a prática insiste em desmentir o discurso. Esse é um ponto especialmente importante para pequenos negócios.

Em empresas menores, a distância entre a marca e as pessoas que estão à frente dela costuma ser muito curta. O cliente não se relaciona apenas com uma identidade visual ou com um CNPJ, ele se relaciona com o empresário, com o especialista, com o médico, com o consultor, com a pessoa que representa aquela empresa. A reputação do profissional passa a fazer parte da reputação do negócio e isso torna a construção de autoridade ainda mais delicada.

Vivemos um momento em que visibilidade se tornou relativamente fácil de comprar, produzir e ampliar. É possível publicar todos os dias, investir em distribuição, contratar produção de conteúdo e colocar uma marca diante de milhares de pessoas, mas visibilidade não é confiança. Ser conhecido não significa ser respeitado e autoridade não nasce simplesmente porque alguém fala muito sobre determinado assunto.

Autoridade é consequência de consistência. Ela aparece quando conhecimento, experiência, posicionamento, comportamento e comunicação começam a formar uma percepção coerente. É por isso que reputação não deveria entrar na agenda de uma empresa somente quando surge uma crise.

Quando a crise chega, já é tarde para começar a construir credibilidade. O que existe naquele momento é o resultado do trabalho realizado anteriormente. Uma empresa que manteve relações consistentes ao longo dos anos terá uma história para apresentar. Uma empresa que sempre foi coerente terá comportamentos que sustentam sua posição. Uma fonte que construiu credibilidade terá um histórico capaz de ajudar o público a interpretar uma situação controversa. Nada disso impede uma crise, mas pode mudar a forma como ela é recebida.

O problema é que a reconstrução da reputação não obedece à mesma velocidade da sua deterioração. É possível levar anos para conquistar confiança e precisar de muito mais tempo e investimento financeiro para tentar recuperá-la depois de uma ruptura. E não existe garantia de que ela voltará ao ponto de partida.

Algumas pessoas reconsideram suas percepções e outras não. Alguns clientes retornam e outros seguem adiante. Alguns parceiros permanecem e outros preferem não correr o risco.

É por isso que dizer que uma reputação pode ser reconstruída precisa vir acompanhado de uma ressalva. Pode, mas não necessariamente da mesma maneira, no mesmo tempo ou com o mesmo alcance. Certamente não sairá barato reconstruí-la. Em determinados casos, a reputação não volta a ser exatamente o que era e, essa talvez seja uma das razões mais fortes para tratá-la como patrimônio e não como imagem.

Imagem pode ser produzida.

Reputação precisa ser vivida.

Imagem pode mudar com uma campanha.

Reputação muda quando as experiências acumuladas mudam.

E essa diferença deveria orientar a maneira como empresas e profissionais pensam sua comunicação. Não se trata apenas de conseguir espaço na imprensa, aumentar seguidores ou produzir mais conteúdo. Trata-se de construir uma presença pública coerente com aquilo que se pretende representar. Porque, no fim, reputação é aquilo que permanece quando a comunicação deixa de falar e credibilidade é aquilo que faz alguém acreditar no que você diz quando seria mais fácil duvidar.

Talvez por isso o maior trabalho de comunicação não aconteça durante a crise e sim antes dela.

Lembre-se: É quando ninguém está olhando que uma empresa constrói a reputação que poderá fazer diferença quando todos estiverem olhando.

Comunicação é um Ativo de Negócio.


Adriana Vasconcellos Soares é jornalista, assessora de imprensa e consultora em comunicação estratégica, posicionamento de marca e construção de autoridade para pequenos e médios negócios. Há mais de 26 anos desenvolve estratégias para fortalecer a reputação, ampliar a visibilidade e posicionar empresas, produtos e especialistas como referência em seus segmentos. É sócia da Six Comunicação Integrada.


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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