O início do ano escolar é um momento oportuno para refletir sobre o que está acontecendo com a infância e sobre a forma como temos conduzido a vida das crianças. Até alguns anos atrás esse questionamento seria improvável. A infância era marcada pela despreocupação e pelas brincadeiras. Hoje muitas crianças quase não têm tempo para brincar. Suas rotinas estão preenchidas por uma agenda extensa de atividades e quando conseguem um intervalo as brincadeiras se limitam aos jogos de computador, muitas vezes de modo solitário. Surge então a dúvida. Essa nova tendência realmente favorece o desenvolvimento infantil?
Vivemos em uma sociedade que parece não reservar espaço para a criança. Muitas permanecem confinadas em casas pequenas e são mantidas em excesso de compromissos na tentativa de protegê-las da violência das ruas. Em outros casos a intenção é acelerar a preparação para o futuro. Um dos reflexos mais negativos desse modelo é o prejuízo para a sociabilidade. As relações humanas hoje estão marcadas pelo medo e pela desconfiança. A tolerância, a compaixão e a solidariedade aparecem com menos frequência e isso dificulta o enfrentamento de situações que exigem diálogo e negociação.
Uma agenda programada integralmente pelos adultos compromete o desenvolvimento do senso de responsabilidade. A criança não aprende a administrar o próprio tempo porque nunca teve a oportunidade de organizá-lo. Isso gera dificuldades quando ela precisa lidar com tarefas e compromissos assumidos por iniciativa própria. A infância precisa de tempo ocioso. É nesse espaço que a imaginação se desenvolve, que surgem as brincadeiras e que a convivência entre pares se fortalece.
Além da falta de uma rede de amigos criada pelas próprias crianças, muitas têm poucos irmãos ou nenhum e poucos primos. Com isso convivem menos com outras crianças da mesma idade. Essa convivência faria diferença na troca de experiências e ajudaria no distanciamento natural dos assuntos do mundo adulto. É importante observar o contexto que sustenta esse modelo educativo e reconhecer seus efeitos no desenvolvimento da sociabilidade. Em muitas famílias as crianças se tornam depositárias das expectativas dos pais. Muitos adultos projetam nos filhos seus ideais de autorrealização e sucesso. A sociedade atual é competitiva e cria a impressão de que todos precisam demonstrar felicidade e êxito. Esse ambiente não protege as crianças. Ele se torna fonte de ansiedade e interfere no seu bem-estar.

Dra. Vera Resende – Psicóloga clínica (CRP 06-2353), mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Com sólida trajetória acadêmica, foi professora e supervisora de estágio clínico na Unesp, ministrou aulas na pós-graduação, orientou teses, integrou grupos de pesquisa e coordenou cursos de especialização e extensão. Atuou no Instituto Sedes Sapientiae, participando de seminários e publicações na área de psicanálise da criança. Atualmente, mantém consultório próprio, oferecendo atendimentos, supervisão clínica e aperfeiçoamento para psicólogos iniciantes.
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