Psoríase e Hepcidina: o que a imunologia realmente mostra sobre causa e consequência – por Dr. Javier Carbajal

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Nos últimos anos, passaram a circular informações sugerindo que a hepcidina seria a causa da psoríase ou até mesmo a chave para resolver a doença. Essa interpretação simplifica um processo imunológico complexo e pode gerar confusões. Para compreender o tema, é importante analisar o papel real desse hormônio e sua relação com a inflamação.

Produzida principalmente pelo fígado, a hepcidina regula o metabolismo do ferro. Em estados inflamatórios, sua produção aumenta como mecanismo de defesa: ao reduzir o ferro circulante, o corpo dificulta a proliferação de microrganismos (arresto do ferro). Esse aumento ocorre em diversas condições e não indica que o hormônio seja o gatilho da doença.

A psoríase é uma doença inflamatória crônica e sistêmica que afeta de 2% a 3% da população mundial. Seu eixo central envolve as interleucinas 17 e 23, além da ativação inadequada das células T. Essa desregulação acelera a renovação da pele: o ciclo que levaria um mês ocorre em poucos dias, gerando as placas descamativas características.

Embora a inflamação sistêmica da psoríase possa estimular a hepcidina, esse aumento é uma consequência, e não a origem do problema. Na medicina, é vital não confundir associação com causalidade. Como os bombeiros em um incêndio, a hepcidina está presente no local, mas não é quem inicia o fogo.

Além do fígado, a hepcidina é produzida em tecidos como macrófagos e queratinócitos, exercendo funções locais sem protagonismo na regulação da doença. O avanço científico mostra que a psoríase resulta de uma interação entre genética, imunidade e ambiente (estresse, infecções e metabolismo).

O caráter sistêmico é reforçado pelo fato de que até 30% dos pacientes desenvolvem artrite psoriásica. Além disso, alterações imunológicas associadas, como deficiências de anticorpos, mostram que a patologia vai além da pele.

O tratamento evoluiu drasticamente. Além de fototerapia e imunossupressores, os medicamentos biológicos hoje focam em alvos específicos (IL-17 e IL-23). Como a resposta varia entre indivíduos, a compreensão do perfil imunológico de cada paciente é fundamental para personalizar a estratégia médica.

Informação de qualidade é essencial para evitar interpretações simplistas. A psoríase não pode ser explicada por um único marcador. Trata-se de uma doença imunomediada complexa, que exige avaliação médica criteriosa e abordagem individualizada. Esse entendimento permite direcionar melhor o tratamento e contribuir para a qualidade de vida dos pacientes.


Dr. Javier Ricardo Carbajal Lizárraga – IMUNOLOGISTA – RQE 21798 – CRM-SP 92607 – Formado pela USP e Sociedade Brasileira de Alergia e Imunologia. Médico Consultor em Imunologia e Alergia de Crianças e Adultos na Rede de Hospitais São Camilo; Diretor da Clínica de Alergia e Imunologia – Dr. Javier Carbajal; Membro da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI; Membro da Academia Europeia de Alergia e Imunologia Clínica EAACI; Membro da Sociedad Latinoamericana de Immunodeficiencias LASID; Membro da Clinical Immunology Society CIS. – A Clínica de Alergia e Imunologia Dr. Javier Carbajal é referência em São Paulo por sua orientação voltada ao diagnóstico e tratamento de Doenças Imunológicas Complexas, como Imunodeficiências Primárias, Alergias de difícil controle, Dermatite Atópica Severa, Urticária e Angioedema, Reações Adversas a Fármacos, Doenças Autoimunes e Autoinflamatórias


Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva de seu(sua) autor(a) e não refletem, necessariamente, a posição editorial do portal Hora de S. Paulo.

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O corpo contra si mesmo – por Dr. Javier Carbajal

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Entender as doenças autoimunes é essencial para reconhecer sinais, evitar confusões no diagnóstico e buscar cuidado adequado. Esses quadros aparecem quando o sistema imunológico, que deveria proteger o corpo, passa a agir de forma desordenada e ataca estruturas saudáveis. Em situações normais, o organismo produz anticorpos e células de defesa contra infecções, toxinas e até células cancerígenas. Depois desse trabalho, entram em ação mecanismos que reduzem a inflamação e permitem a recuperação dos tecidos. Quando esse equilíbrio se rompe, surgem os problemas.

Nas doenças autoimunes, o sistema imunológico perde a capacidade de diferenciar o que é próprio do que é estranho. Passa então a produzir autoanticorpos ou ativar células que atacam tecidos saudáveis. Esse processo pode afetar articulações, pele, sangue, rins, pulmões, glândulas ou o sistema nervoso, causando inflamação persistente e danos que variam conforme o órgão envolvido. A diversidade de manifestações é um dos grandes desafios.

Os sintomas mudam de uma doença para outra, entre pessoas com o mesmo diagnóstico e até no mesmo indivíduo ao longo do tempo. Fadiga, dor, inflamação, alterações na pele ou no funcionamento de órgãos podem surgir isoladamente ou combinadas, o que dificulta a identificação precoce.

Entre os exemplos mais conhecidos estão artrite reumatoide, lúpus, esclerose múltipla, diabetes tipo 1, doença de Graves, psoríase, vitiligo, tireoidite de Hashimoto, doença de Crohn, colite ulcerativa, miastenia gravis e síndrome antifosfolípide. Embora compartilhem o mesmo princípio, que é o ataque do sistema imune ao próprio corpo, elas se manifestam de maneiras muito diferentes.

A autoimunidade começa quando ocorre a quebra da autotolerância, a capacidade do sistema imunológico de reconhecer o próprio organismo. Quando essa tolerância falha, células de defesa são ativadas de forma inadequada e passam a reagir contra tecidos saudáveis, gerando inflamação contínua e produção de autoanticorpos. Fatores genéticos têm papel importante nesse processo, mas influências ambientais também contam, como infecções, exposição a substâncias tóxicas e estresse prolongado. Em alguns casos, especialmente quando a doença aparece cedo, pode haver associação com erros inatos do sistema imune, conhecidos como imunodeficiências primárias.

O diagnóstico exige cuidado e investigação detalhada. Não existe um exame único capaz de identificar todas as doenças autoimunes. A avaliação clínica, o histórico do paciente, exames laboratoriais e o acompanhamento ao longo do tempo formam o conjunto necessário para chegar a uma resposta. Por isso, muitos pacientes enfrentam atrasos no diagnóstico ou iniciam tratamentos que não trazem o resultado esperado. O tratamento não se resume a suprimir a imunidade. Em muitos casos, reduzir a atividade do sistema imunológico sem critério pode gerar novos problemas. A abordagem mais segura envolve identificar o mecanismo imunológico alterado e direcionar o cuidado conforme a necessidade de cada paciente, sempre com foco em qualidade de vida.

Compreender como as doenças autoimunes surgem e evoluem ajuda pacientes e familiares a reconhecerem sinais de alerta e buscar avaliação especializada. Informação clara é uma aliada importante no cuidado de condições complexas e de evolução variável.


Dr. Javier Ricardo Carbajal Lizárraga – IMUNOLOGISTA – RQE 21798 – CRM-SP 92607 – Formado pela USP e Sociedade Brasileira de Alergia e Imunologia. Médico Consultor em Imunologia e Alergia de Crianças e Adultos na Rede de Hospitais São Camilo; Diretor da Clínica de Alergia e Imunologia – Dr. Javier Carbajal; Membro da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI; Membro da Academia Europeia de Alergia e Imunologia Clínica EAACI; Membro da Sociedad Latinoamericana de Immunodeficiencias LASID; Membro da Clinical Immunology Society CIS. – A Clínica de Alergia e Imunologia Dr. Javier Carbajal é referência em São Paulo por sua orientação voltada ao diagnóstico e tratamento de Doenças Imunológicas Complexas, como Imunodeficiências Primárias, Alergias de difícil controle, Dermatite Atópica Severa, Urticária e Angioedema, Reações Adversas a Fármacos, Doenças Autoimunes e Autoinflamatórias


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