Por trás de um sorriso, uma tragédia social – por Celso Tracco

Por trás de um sorriso, uma tragédia social – por Celso Tracco

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Uma das características da espécie humana é sua capacidade de se autodestruir. Seja por poder, ganância, ambição ou simplesmente prazer, nós, humanos estamos sempre envolvidos em conflitos, sejam contra nossos semelhantes, contra o meio ambiente ou contra nós mesmos. Nesta última categoria, nos destruímos pelos chamados vícios pessoais: fumar, ingestão de álcool, alimentos ultra processados, jogos de azar legalizados, apenas para citar alguns vícios que são lícitos, ou seja, são legalmente acessíveis para a maioria da humanidade. Neste grupo encontramos as “Bets”, nova febre nacional, como outrora foi o “Jogo do bicho”, a Loteca, a Mega Sena e demais loterias administradas pela Caixa Econômica Federal. Sim o hábito de arriscar a sorte, de modo aleatório, bastante antigo no Brasil assim como no resto do mundo. Agora, porém, tem uma enorme diferença: a facilidade de se fazer as apostas online e, teoricamente, a pessoa apostar quanto ela quiser {sic}. Esta nova mania nacional que está sendo impulsionada por sorrisos cativantes de “influencers”, que conduzem as novas, coloridas, impactantes e atraentes campanhas publicitarias, traz em seu bojo uma gigantesca tragédia social que afeta e impacta milhões de famílias brasileiras.

A entrada para o vicio é sempre uma porta larga e convincentes discursos agradáveis: “venha se divertir”, “não custa nada, jogue se quiser e com moderação”, “sucesso e muito dinheiro, imediatamente”. A lógica dos cassinos e das “bets” se apoia na desesperança de quem vive com as contas apertadas, salários baixos, subemprego e dívidas permanentes. A aposta parece ser uma saída fácil para o “paraíso”, quando de fato é o caminho certo para o “inferno”. O apostador, pode até pensar que está no comando de suas ações, mas na verdade está preso a um esquema estatisticamente estruturado para fazê-lo perder.

O cenário atual é agravado pela normalização do jogo. Celebridades, comunicadores, locutores, artistas, jogadores de futebol, são contratados pelas “Bets”, para vender a felicidade, traduzida por muito dinheiro fácil e tudo aquilo que o dinheiro pode comprar. A publicidade está nas transmissões esportivas, nos patrocínios aos times de futebol, em qualquer site que se acesse na internet. A mensagem final quer mostrar que é moderno, normal, inteligente, divertido apostar, mas a realidade é outra: a sociedade vive uma epidemia de endividamento que as apostas ajudam a propagar. E quanto mais ela se espalha mais difícil fica enxergar os reais problemas. Num país, como o nosso, onde a desigualdade social é abissal, a discussão sobre as “Bets”, não deve ficar na área moralista, pois oferecer a possibilidade de se obter dinheiro fácil, sempre vai atrair quem não tem nada.

A discussão deve ser na área social. É sobre como uma legislação pode permitir legalmente que milhões de pessoas sejam seduzidas, e usadas, por um processo que lucra com sua desgraça. Como uma falsa esperança passa a ser uma ferramenta de exploração. Como uma visão de liberdade torna-se um longo período de escravidão, arruinando a vida de famílias inteiras. A desgraça das apostas está na vergonha da perda, na ansiedade de novas apostas para recuperar a perda, em contínua ciranda que termina na angústia de uma dívida impagável. Regulamentar não basta, proibir também não trará o efeito desejado. É preciso seriedade para discutir temas como: saúde mental, educação financeira, proibição de publicidade e patrocínios, responsabilidades das plataformas digitais, proteção dos economicamente mais vulneráveis. Os governos e a sociedade civil, precisam, urgentemente, encarar as “Bets” como um problema real e crescente. Caso contrário, a desgraça das “Bets” continuará crescendo, de maneira cada vez mais devastadora. Sem apostas, aproveite seu dia.


Celso Tracco é economista, mestre em Teologia Sistemática, escritor, consultor e palestrante (www.celsotracco.com.br). Com ampla experiência como executivo em empresas nacionais e internacionais, é especialista em marketing, vendas e comportamento humano. Atuou como professor universitário e tem três livros publicados. Em sua coluna, abordará temas como política, economia e sociedade.


*Os textos, análises e opiniões publicados nesta coluna são d

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